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Quem forma melhor jogadores: futebol de rua ou academias?
Atualmente, os grandes talentos de futebol são, na sua maioria, identificados em idades muito jovens e integrados em academias e estruturas de formação altamente organizadas. Apesar disso, continuam a surgir exemplos como o de Lamine Yamal, um jovem de 19 anos que começou a desenvolver o seu futebol no bairro onde cresceu e que depois foi lapidado na academia do Barcelona, atualmente apontado como um dos principais candidatos à conquista da Bola de Ouro. O jogador do Barcelona destaca a influência do futebol de rua no seu percurso de formação.
Por outro lado, o desenvolvimento de talento de forma autodidata na rua está em vias de extinção. Um dos principais prejudicados por esta evolução do futebol tem sido o Brasil. A história do futebol brasileiro está repleta de jogadores que construíram carreiras brilhantes a partir das suas raízes no futebol de rua. Embora o Brasil continue a produzir talentos, existe a perceção de que a quantidade e a qualidade destes jogadores criativos provenientes de contextos improvisados, de futebol entre amigos e no bairro, diminuíram face a gerações anteriores. No caso das maiores estrelas da atualidade, defende-se frequentemente que o futebol de rua oferece vantagens relativamente à formação exclusivamente desenvolvida em academias.
Entre jogadores de elite, verifica-se frequentemente que, antes da puberdade, o processo de aprendizagem teve uma forte componente autodidata, como mostram as histórias de Pelé, Johan Cruyff, Diego Maradona, Cristiano Ronaldo ou Lionel Messi. O futebol praticado de forma livre proporciona uma enorme diversidade de componentes técnicos, uma elevada frequência de contacto com a bola, inúmeras situações de um contra um e muitas horas de prática espontânea e voluntária. Ao analisar o percurso dos grandes jogadores, verifica-se que a sua evolução não resultou exclusivamente da prática do jogo livre. Desde cedo, procuraram aperfeiçoar de forma contínua, os seus comportamentos técnico-táticos, tanto nas ações ofensivas como nas defensivas, ajustando-os às exigências das diferentes situações de jogo.
Deste modo, o jogo livre assume um papel que vai além da simples prática informal, constituindo um contexto de aprendizagem autorregulada. Através da identificação dos erros e da sua correção, o jogador vai refinando progressivamente o seu desempenho e caraterísticas pessoais. Este processo é alimentado pela motivação intrínseca e pela capacidade de adaptação, permitindo uma melhoria contínua das competências técnicas, táticas e da tomada de decisão.
Neste momento, começa a introduzir-se a abordagem liderada e orientada por restrições. E isso não existe no futebol de rua, na maioria das vezes. Além disso, a variabilidade das tarefas é considerada essencial para favorecer a adaptação dos jogadores a diferentes situações competitivas.
Outro princípio fundamental é o acoplamento entre perceção e ação, segundo o qual a tomada de decisão e a execução técnica ocorrem de forma integrada e contínua, em função das informações fornecidas pelo ambiente de jogo. Assim, o papel do responsável do treino passa por criar ambientes de aprendizagem, recorrendo, por exemplo, a jogos em campo reduzido, alterações das regras ou do número de jogadores, promovendo o desenvolvimento da autonomia, da criatividade e da capacidade de adaptação dos atletas.
O caso português tem algumas particularidades na formação de jogadores e no desenvolvimento das academias, sobretudo pela relação entre a tradição do futebol de rua, a qualidade dos treinadores e a evolução das estruturas profissionais.
Alguns dos clubes históricos, tiveram o seu auge ainda antes da existência de academias de formação. Por exemplo, o Boavista FC destacou-se pela qualidade do seu futebol juvenil, em grande parte graças à parceria com a ADR Pasteleira. Esta colaboração permitiu ao clube dispor de melhores condições para o treino e competição das camadas jovens, fortalecendo principalmente a captação e o desenvolvimento de jovens talentos e afirmando o Boavista como uma das referências da formação no futebol português, na última década do século XX.
Uma das principais imagens de marca do Sporting é a sua academia de formação, amplamente reconhecida pela qualidade dos jogadores que tem produzido ao longo das últimas décadas. A Academia Cristiano Ronaldo consolidou-se como uma referência internacional no desenvolvimento de jovens talentos, tendo formado futebolistas de renome mundial, como Cristiano Ronaldo, Luís Figo, Nani, João Moutinho e Rui Patrício.
Paralelamente, o Benfica Campus voltou a ser reconhecido pelo CIES Football Observatory (Observatório do Futebol) como a melhor academia de formação do mundo. Este reconhecimento evidencia a consistência do modelo de formação do Benfica, responsável pelo desenvolvimento de jogadores como João Félix, Rúben Dias, Gonçalo Ramos, João Neves e António Silva. O relatório mede o desempenho das academias com base no número de jogadores formados, no nível competitivo dos clubes em que atuaram e nos minutos jogados em jogos oficiais. De acordo com os dados divulgados, o Benfica formou 93 jogadores atualmente em atividade nas 49 ligas analisadas.
Apesar deste sucesso na formação de talentos, a evolução do futebol moderno continua a colocar novos desafios aos clubes. Em determinadas posições, como a de extremo, observa-se frequentemente a necessidade de recorrer ao mercado para contratar jogadores por valores elevados, muitas vezes na ordem dos vinte milhões de euros, nem sempre capazes de demonstrar, de forma consistente, competências individuais determinantes, como a capacidade para superar adversários em situações de um contra um. Esta realidade reforça a importância de continuar a investir na formação de jogadores tecnicamente diferenciados, criativos e capazes de resolver problemas de forma eficaz em contexto competitivo, reduzindo a dependência de contratações dispendiosas.
A formação do FC Porto também tem formado diversos talentos como Rúben Neves, Vitinha e Diogo Costa, demonstrando a importância de uma estrutura organizada na evolução dos jovens atletas. Já o SC Braga tem um coeso grupo de deteção de talento, que procura jogadores jovens com margem de evolução e integra-os num processo de desenvolvimento a médio-longo prazo, como fez o Boavista no passado. Na altura, foi decisivo para ganhar o campeonato.
Todos estes exemplos mostram que o talento desenvolvido no futebol de rua, por si só, não explica a excelência dos grandes jogadores. O mais determinante parece ser o equilíbrio entre diferentes formas de aprendizagem: a liberdade para explorar e criar, típica do jogo de rua, aliada ao treino estruturado e ao acompanhamento especializado. Como resumiu recentemente Lamine Yamal, a combinação entre jogo de rua e academia pode ser a fórmula ideal, uma conclusão sustentada tanto pela sua experiência, como pela atual evidência científica.
A análise da resposta desportiva pode ser aprofundada e centrada em diferentes níveis da resposta adaptativa. Assim, o debate entre a formação em academias e o futebol de rua não deve ser visto como uma oposição entre dois modelos, mas como uma oportunidade de compreender o valor de diferentes formas de aprendizagem.
As metodologias de treino centradas no jogo procuram recuperar alguns dos princípios presentes no futebol de rua, colocando o jogador perante problemas reais que exigem perceção, adaptação e tomada de decisão. Desta forma, mais do que repetir gestos técnicos de forma isolada, o desenvolvimento da criatividade depende da criação de ambientes de treino variados, onde o jogador possa explorar diferentes soluções e aprender a responder às imprevisibilidades do jogo.