Minuto 106: Ferran Torres aponta o golo com que a Espanha rouba o título mundial à Argentina (EPA/RONALD WITTEK)
Minuto 106: Ferran Torres aponta o golo com que a Espanha rouba o título mundial à Argentina (EPA/RONALD WITTEK)

Campeão irreconhecível abdica do estatuto mesmo sem fúria (crónica)

Final do Campeonato do Mundo foi pobre espetáculo, quase exclusivamente por culpa de uma Argentina que só fez o primeiro remate ao minuto 117. Ferran Torres foi o herói da seleção espanhola, que mesmo sem fúria conseguiu garantir a segunda estrela

A final do Campeonato do Mundo de 2026 só deixará boas recordações aos espanhóis, que a ganharam no prolongamento, garantindo assim a segunda estrela na camisola. Aos argentinos o desfecho não deixará saudades, claro está, muito menos a exibição da equipa que procurava revalidar o título. Uma réplica tão pobre que condicionará também a memória coletiva que resistirá ao tempo.

O futebol nem sempre é justo, mas não há sequer lugar a debate quando uma das equipas só faz dois remates, e ambos no final do prolongamento, já em desvantagem no marcador. Posto isto, o título mundial ficou nas mãos de quem fez por isso.

Depois de ter dado pontapé de saída para a tão aguardada final, Lionel Messi só voltou a tocar na bola ao minuto 16. Um dado que diz muito sobre a matriz desinteressante da primeira parte do encontro, a desiludir uma audiência global, até em comparação com o jogo da véspera, de atribuição do terceiro lugar, no qual Inglaterra e França proporcionaram dez golos.

Já era de esperar que a Argentina tivesse uma postura mais expectante, mas não que chegasse ao minuto 117 sem qualquer remate realizado.

Na primeira parte a Espanha sentiu dificuldade para encontrar espaço no último terço, mas conseguiu acumular três remates. Mesmo marcado rigorosamente por Tagliafico, Lamine Yamal assumiu a primeira grande ocasião, logo ao minuto 5, mas o remate saiu enrolado, para defesa de Dibu Martínez, quase traído por um desvio de Lisandro. O guarda-redes argentino teve de segurar ainda um remate de Oyarzabal (39'), e a primeira parte acabou com um remate de Cucurella que saiu ligeiramente ao lado.

Lionel Scaloni tinha motivos para estar desconfortável, até porque perdeu Lisandro Martínez por lesão, rendido por Nico Otamendi ainda antes do half time show.

O selecionador argentino ainda aproveitou o intervalo para lançar Leandro Paredes, mas o médio, tão influente em jogos anteriores, teve entrada nervosa, com um mau passe logo a abrir - que permitiu mais um remate espanhol, por Baena - e depois cartão amarelo por carga completamente despropositada, sem bola, sobre Rodri (acabaria expulso após o apito final).

A etapa complementar não mudou a tendência do jogo, mas reforçou o domínio territorial da equipa orientada por Luis de la Fuente, que somou 11 remates.

A Albiceleste era incapaz de incapaz de passar o meio-campo, a ponto de Messi aparecer mais vezes em sacrifício defensivo do que a assustar os defensores contrários.

É verdade que muitas vezes o esforço de Dibu Martínez foi mínimo, mas o guarda-redes argentino teve de aplicar-se em remate de longe de Cubarsí (77'), ou a travar um livre direto de Yamal já ao minuto 90+9, já depois do segundo cartão amarelo para Enzo Fernández (90+3').

Às tantas até os adeptos argentinos terão pedido um golo sofrido, para ver se a equipa despertava, inspirada nas reviravoltas frente a Egito e Inglaterra, mas desta vez não houve alma nem clarividência para tal.

Dibu ainda adiou o inevitável uma quantas vezes, mas um golo de Ferran Torres, ao minuto 106, decidiu o título a favor da seleção espanhola, que mesmo sem aquela fúria arrebatadora conseguiu evitar a lotaria dos penáltis e garantir o troféu.

A equipa de Luis de la Fuente teve ainda dois golos anulados, a Nico Williams e Ferran Torres, mas seria tremendamente injusta a compensação que a Argentina ainda procurou, mas apenas a partir do minuto 117.

Houve ainda um corte providencial a negar o empate a Senesi, em cima do minuto 120, e na sequência Giuliano Simeone atirou por cima uma soberana ocasião para marcar, mas o ar de Lionel Messi após o apito final traduziu bem a evidência do encontro: a Albiceleste foi demasiado pobre para discutir a possibilidade de manter o título.

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