Leandro Barreiro com Gianluca Prestianni quando o jogo estava interrompido - Foto: Miguel Nunes
Leandro Barreiro com Gianluca Prestianni quando o jogo estava interrompido - Foto: Miguel Nunes

Por que os futebolistas cobrem a boca ao falar?

Decisão do International Football Association Board (IFAB) não promete afastar a polémica e as duvidas e muitos menos clarificar o que jogadores e treinadores podem estar a dizer quando as normas forem aplicadas antes do Mundial 2026

Após a última reunião geral do International Football Association Board (IFAB) este fim de semana, foi anunciada uma decisão surpreendente: qualquer jogador que cobrir a boca ao falar com um adversário poderá ser penalizado de acordo com as novas medidas que entrarão em vigor antes do Campeonato do Mundo deste verão.

Esta decisão surge em resposta a um incidente em que Vinícius Júnior, do Real Madrid, alegou ter sido alvo de insultos racistas por Gianluca Prestianni, do Benfica, durante um jogo da Liga dos Campeões a 17 de fevereiro. O brasileiro afirmou que Prestianni escondeu o que disse ao falar por trás da camisola. A UEFA puniu Prestianni com um jogo de suspensão e abriu uma investigação sobre as acusações.

Entretanto, o guarda-redes do Real Madrid, Thibaut Courtois, declarou, esta semana, que saudaria a proibição de cobrir a boca se isso ajudasse a erradicar o racismo do desporto. «Com Prestianni é complicado porque será sempre a palavra de um contra a palavra de outro. Estamos 100 por cento com o Vinícius, que sofreu muito com isto,, mas com a boca tapada nunca se pode ter a certeza absoluta, e o Benfica certamente defenderá o seu jogador. Cabe à UEFA e às instituições agir», disse o belga. Não demorou muito.

Embora as intenções por trás desta decisão possam ser boas – impedir que os jogadores encubram comportamentos ofensivos – a questão é se ela pode ser implementada. No caos de um jogo, os árbitros conseguirão sempre distinguir quando um jogador está a falar com um colega de equipa e quando está a falar com um adversário? Considerando que os jogadores há anos que rotineiramente cobrem a boca com as mãos e as camisolas, não haverá o risco de serem punidos por ações que se tornaram um hábito? Esta prática é tão comum que é frequente ver amadores e jovens jogadores a esconder a boca, mesmo quando não há uma única câmara de televisão à vista. Tudo isto levanta a questão: por que é que os jogadores escondem o que dizem, mesmo durante as interações mais banais?

Parte da resposta reside, claro, na enorme lupa sob a qual o futebol se encontra hoje. Nem sempre foi assim. Tomemos o exemplo de Didier Deschamps e Roger Lemerre em 2000. Estavam a poucos metros de distância, no centro do estádio De Kuip, em Roterdão, numa conversa profunda. Lemerre e Deschamps, selecionador e capitão da seleção francesa, deveriam estar a desfrutar da glória depois de se terem tornado a segunda equipa no futebol masculino a deter simultaneamente os títulos de campeão mundial e europeu, escreve o site The Athletic.

Venceram a Itália por 2-1 na final do Euro 2000 com um golo de ouro de David Trezeguet. No entanto, a conversa parecia séria e a linguagem corporal tensa. Na imprensa francesa, uma semana antes, tinha sido revelado que Deschamps, então com 31 anos, pretendia retirar-se após o torneio porque sentia que o seu papel de unificador dentro do grupo não era totalmente apreciado.

Estariam a falar sobre isso? O canal de televisão francês LCI viu uma oportunidade na visão desimpedida da câmara e contratou um especialista em leitura labial para fornecer legendas. Descobriram que Lemerre implorava a Deschamps para adiar a sua decisão.

«Por agora, é tempo de festa», disse ele. «Mas tenho de ter uma escolha. Estou farto, estou mesmo farto», respondeu Deschamps.

Vale a pena recordar aquela cena em Roterdão porque é pouco provável que o mundo tenha tal visão este verão no Mundial. Essa gravação vem de outra era, em que jogadores e treinadores conversavam livremente uns com os outros. Hoje, os jogadores quase instintivamente escondem a boca enquanto falam, seja com as mãos ou puxando a camisola para cima. No nível mais básico, é um método que os jogadores usam para preservar a privacidade, seja para discutir assuntos pessoais, táticas ou decisões durante o jogo. A prática tornou-se tão difundida que se transformou numa espécie de compulsão.

Será paranoia? Em alguns casos talvez, mas os leitores labiais são por vezes usados para decifrar o que os jogadores dizem, incluindo em investigações de incidentes controversos. Por exemplo, o que o italiano Marco Materazzi disse a Zinedine Zidane antes de o médio francês o agredir com uma cabeçada durante a final do Campeonato do Mundo de 2006, ou o que John Terry disse a Anton Ferdinand em outubro de 2011 num jogo entre o Chelsea e o Queens Park Rangers. Esse caso terminou com a FA a declarar Terry culpado de «palavras e comportamento ofensivos», a multá-lo em quatro jogos e a retirar-lhe a braçadeira de capitão de Inglaterra. Isto embora Terry tenha sido ilibado das acusações de uso de linguagem racista num julgamento civil separado.

É importante notar que a leitura labial não é uma ciência exata e que mesmo os profissionais podem perder nuances ou contexto. Dada a forma como as histórias se espalham nas redes sociais, é compreensível que os jogadores sejam cautelosos.

Antigamente, alguém podia ver que alguém disse algo, mas para além das conversas no café, isso não ia a lado nenhum. Enquanto hoje pode publicar isso no X, alguém pode simplesmente adicionar o que pensa que estão a dizer, e isso volta imediatamente ao clube.

Agora, pode-se ver jogadores a fazê-lo enquanto discutem táticas, dirigem-se aos árbitros ou conversam uns com os outros no final do encontro. Até um treinador como Sean Dyche, conhecido pela sua frontalidade, o fez à beira do campo em Nottingham. No fim de semana passado, Declan Rice foi filmado a sair do campo a conversar com Bukayo Saka e o treinador adjunto do Arsenal, Albert Stuivenberg, sobre como um adepto do Spurs segurava uma imagem da sua esposa enquanto ele ia marcar um canto. Ele segurava a camisola sobre a boca, mas o microfone ainda gravou a conversa.

«Quando fui marcar o canto, eles estavam a mostrar aquilo, então obviamente fiquei furioso», disse.

É uma idiossincrasia que se infiltrou no jogo nos últimos anos. A maioria dos jogadores não está a violar a lei de sigilo de dados, mas provavelmente apenas a ter conversas casuais como quaisquer outros colegas teriam num ambiente de escritório. No entanto, quando o seu escritório é um campo de futebol rodeado de câmaras e onde cada adepto está armado com um telemóvel, é compreensível por que sentem que até a interação mais banal precisa de ser protegida.