Polémica em França com atleta trans que domina estatísticas e sonha ir à seleção
Julie Tetart é a melhor jogadora da segunda divisão feminina francesa e a grande figura do Monaco Basket Association. Aos 33 anos, a atleta transgénero sonha com a seleção nacional de basquetebol e está a causar polémica.
«Morte aos trans», «Parabéns, Julien», «estamos a ver os teus 'tomates'» são apenas alguns dos exemplos das mensagens que tem recebido. As adversárias criticam a desigualdade, os insultos multiplicam-se nas redes sociais e nos pavilhões, mas a basquetebolista que continua a somar exibições de alto nível.
La basketteuse trans Julie Tetart (33 ans), meilleure joueuse de la deuxième division féminine, suscite la controverse depuis son retour sur les parquets.
— Le Figaro Sport (@Sport24Team) December 17, 2025
➡️ https://t.co/l87JNpcBvt https://t.co/l87JNpcBvt
«Este desporto é a minha vida, o meu escape desde os cinco anos. Acompanhar os Jogos Olímpicos deu-me vontade de voltar», explicou a jogadora de 33 anos, com 1,91 metros e 88 kg.
L'enchaînement de Julie Tetart ⚡️pour reprendre la tête du match !🚀#CDFBasket pic.twitter.com/K856BgfdOY
— Fédération Française de BasketBall (@ffbasketball) April 25, 2025
Apesar da polémica, o regulamento da Federação Francesa de Basquetebol (FFBB) é claro: «A participação nas competições é regida pelo género que consta no documento de identificação da pessoa.»
Depois de ter jogado até à terceira divisão masculina, Julie regressou aos pavilhões na época passada contribuindo de forma decisiva para a subida do seu clube.
Julie Tétart réagit au débat sur les femmes trans dans le basket féminin : « Venez prendre mon sang si vous voulez »https://t.co/S862OFfIZU pic.twitter.com/RsXiy7QZ4j
— Le Populaire Sports (@LePopu_sports) December 16, 2025
Para Julie, as suas exibições são a recompensa após seis cirurgias. «A principal foi nas cordas vocais, a minha laringe foi reduzida, o que afeta a respiração. Perdi capacidade pulmonar e também massa muscular. É irreversível, mas não me queixo, porque foi uma escolha minha», revelou.
A poste é a segunda jogadora transgénero a competir na segunda liga francesa, além de Aurore Pautou (43 anos). «O meu objetivo não é ser um símbolo, mas se puder ajudar, melhor», afirma Julie ao site francês. «O meu Instagram continua público. Na altura, teria gostado de poder falar com alguém, de ter uma referência sobre a trans identidade. Sei que me exponho ao falar, mas prefiro dedicar tempo e energia a explicar o que isto é e ter tranquilidade no resto da minha pequena carreira», defendeu.
Cette saison, les deux meilleures joueuses de LF2, la deuxième division française de basket, sont des femmes trans. Leur domination (33,8 d’évaluation en moyenne pour Julie Tetart) pose question et suscite d’innombrables débats dans le microcosme ⬇️🏀https://t.co/YKOkonapGn pic.twitter.com/Skb53LjJ2Q
— L'Écho Républicain (@lecho_fr) December 16, 2025
Apesar de ser capaz de afundar, Julie evita fazê-lo durante os jogos. «Publiquei um vídeo na minha conta de Instagram e recebi muitas mensagens simpáticas», contou em tom irónico, a propósito dos insultos.
Julie queixa-se da passividade dos árbitros nos pavilhões, por exemplo. «Infelizmente, não acontece nada. Fingem que não ouvem, que não veem, e o jogo continua como se nada fosse. É uma situação nova, inédita, não estamos habituados, mas os comentários são degradantes e humilhantes. Quando há racismo, há sanções. Aqui, não acontece nada», lamentou.
«A seleção francesa? Porque não, também! Embora existam jogadoras melhores que merecem o lugar e eu já não seja propriamente nova. Mas se me chamassem, iria com todo o gosto», atira. «Mesmo que fosse apenas como parceira de treinos, iria com todo o gosto», afirmou a poste.
Com o género feminino oficialmente reconhecido no seu cartão de cidadão desde 2022, Julie Tetart teme uma possível alteração na legislação desportiva. A sua superioridade física tem sido alvo de críticas por parte dos adversários.
«O problema não é a senhora Tetart, mas sim o vazio jurídico e a falta de uma posição clara sobre o assunto. Devemos ter a liberdade de ser quem quisermos, mas a liberdade de uns termina onde começa a dos outros. Estamos no mundo do trabalho, as jogadoras esforçam-se para conseguir um contrato profissional. Nesse caso, porque não criar campeonatos mistos?», disse ao RMCSportis um técnico rival, sob anonimato.
Em resposta, a federação francesa esclarece a sua posição: «A FFBB está a analisar o tema de forma muito séria em três vertentes: médica, ética e regulamentar, tal como a FIBA e o COI. Tanto quanto sabemos, outras federações aplicam, até à data, a mesma regra que a FFBB, respeitando o género administrativo», esclarece.