Pedro Moreira passou pelo país, como treinador do Pakhtakor, e analisa o adversário da Seleção Nacional no Mundial 2026

Passou pelo Uzbequistão e avisa Portugal: «Têm qualidade e gostam de arriscar»

Pedro Moreira treinou o Pakhtakor em 2025, e, entre lembranças do tempo na Ásia Central, deixou uma análise ao adversário da Seleção Nacional no Mundial 2026

Poucos portugueses conhecem tão bem o Uzbequistão quanto Pedro Moreira. O treinador orientou o Pakhtakor em 2025 e, em entrevista a A BOLA, analisou o adversário de Portugal no Mundial 2026. Entre memórias da experiência em Tashkent e a avaliação ao trabalho desenvolvido no país nos últimos anos, explicou porque acredita que a equipa orientada por Fabio Cannavaro pode criar dificuldades a qualquer equipa.

— O que o levou a dizer 'sim' ao Pakhtakor?

— Depois de sair do Casa Pia [em novembro de 2024], havia a expectativa de poder aparecer algum projeto que fosse motivador para mim e para a minha equipa técnica. E apareceu esta possibilidade. Ainda não tinha feito nenhuma pré-temporada enquanto treinador principal, quer no Torreense quer no Casa Pia, e uma das coisas interessantes era ter a oportunidade de fazer uma pré-época para conseguir assimilar e trabalhar ideias e formas de jogar desde o início da época. Apareceu esta proposta do Uzbequistão de iniciar a época em janeiro e com a possibilidade de jogar Champions League em fevereiro. A conversa iniciou-se em novembro e comecei a trabalhar em dezembro antes de ter o contrato assinado e tudo. O entusiasmo maior veio de poder jogar Champions League e treinar uma equipa com qualidade. A única curiosidade era o tal destino exótico e que ninguém tinha grande conhecimento. Falei com o Micael Sequeira, treinador da equipa feminina do Sporting que passou pelo Lokomotiv de Tashkent, e ele deu-me algumas dicas. Fiquei entusiasmado e a experiência foi muito enriquecedora, não só em termos culturais mas também em termos desportivos.

— Como foi a adaptação?

— Gostei muito da capital. É um país muito ligado à Rota da Seda, o próprio turismo é baseado nisso. Mas por outro lado há uma parte moderna, a Tashkent City, que é uma zona muito modernizada pelo mayor da cidade, que atualmente é o presidente do Pakhtakor, e que dinamizou aquela zona. É quase um mini-Dubai. É sempre importante quando vamos para fora entrarmos mais num processo de aculturação do que alteração. E foi isso que procurámos fazer, criando algumas regras na dinâmica de trabalho, mas outras que adaptámos à realidade deles. Há coisas que são difíceis de perceber para nós, mas foi assim que eles viveram ao longo dos tempos, tentámos alterar e entrar num processo de mistura onde todos ficássemos satisfeitos com as tomadas de decisão. E o mês de estágio na Turquia, antes do início da época, foi importante para isso. Foi um mês de trabalho, de aplicabilidade do modelo de jogo e de ideias que nos deram uma estabilidade importante. Foi um processo muito interessante o modo como conseguimos pôr a equipa a jogar e que nos valorizou perante o grupo, perante o país e perante a imagem que demos logo na fase inicial.

— Algum hábito ou costume uzbeque que o surpreendeu?

— Há sempre alguma coisa que é sempre diferente, como a parte religiosa e o Ramadão. No dia a dia, as questões horárias e de alimentação podem ser aquelas que são mais diferentes. É uma alimentação muito baseada em gordura. Não são pessoas que convivam muito à mesa. Tínhamos os portugueses e os brasileiros que passavam muito tempo naquele espaço, mas eles é comer e ir embora. Aí sim senti alguma diferença, mas fomos tentando criar essa adaptabilidade, sem sermos muito radicais.

— Como é o futebol lá?

— Fiquei surpreendido em relação a isso. Não havia grande trabalho na área do scouting. Não havia diretor desportivo. Eles encaram o treinador como um manager, responsável por todas as áreas. É um futebol não muito organizado em termos táticos mas muito individualizado. Muita qualidade individual, em termos técnicos, e acredito que seja isso que vão conseguir mostrar neste Mundial. Era um campeonato organizado, com bons árbitros, uma classe que respeitam bastante e que trabalha com capacidade, e as equipas tentam jogar olhos nos olhos, sem haver blocos muito baixos numa fase inicial. Há uma estrutura de desenvolvimento do jogo desde a formação, que os levou a ganhar muitos títulos nas seleções jovens e a participar nos Jogos Olímpicos em 2024. Existem condições físicas e materiais, um centro de treinos moderníssimo e novo para a seleção estagiar. Há um potencial tremendo. Uma relação curiosa em relação àquilo que é a Federação e os próprios campeonatos. Se a seleção tomar a decisão de fazer um estágio há uma adaptabilidade do campeonato: parar o campeonato para que a seleção estagie. Reorganizam o calendário para que isso seja possível.

— Este apuramento para o Mundial é o fruto desse processo?

— Sim. Eles trabalharam os últimos anos com o esloveno Katanec, que foi a figura central da primeira fase deste projeto e era muito acarinhado no país. Por motivos de saúde, saiu já perto do final da qualificação e foi substituído por um treinador uzbeque que vinha da formação, acabando por concluir com sucesso o apuramento para o Mundial. Essa equipa assentava muito nos jovens que cresceram dentro do projeto da Federação. Agora, com a chegada de Cannavaro, nota-se uma mudança de paradigma. Pela lista de convocados, percebe-se uma aposta mais forte em jogadores experientes, muitos deles a atuar fora do Uzbequistão.

— Ficou alguma mágoa por ter deixado o projeto do Pakhtakor a meio?

— Fica sempre, mas também ficaram as coisas boas que deixámos, os objetivos alcançados numa fase inicial e, ao mesmo tempo, a noção que tínhamos construído um plantel com capacidade e com qualidade, tanto que estamos a falar na equipa que acabou por ganhar depois a Taça do Uzbequistão e ficou em segundo lugar, lutando pelo campeonato até ao final. Durante o tempo em que estivemos lá, ganhámos 4-0 na casa do campeão. Há muitos anos que não se alcançava um resultado com aqueles números num jogo tão complicado, um dérbi. Esse dia também fez-me aperceber a realidade do Pakhtakor. Uma situação curiosa, enquanto lá estive, nunca joguei no nosso estádio, porque estava em obras. Jogámos no estádio nacional, mas senti que era uma fortaleza do clube, que todos os jogadores gostavam de lá jogar. Não é o melhor estádio do país, não é moderno, mas é acolhedor. Vou comparar ao nosso Jamor. A envolvência do estádio era muito acolhedora e muito entusiástica também.

A loucura pelo apuramento histórico

«Quando confirmaram o apuramento fizeram um espetáculo dentro do estádio ofereceram um carro a cada jogador que participou naquela última convocatória com um show-off enorme a cada um deles e com o Presidente da República presente. A mesma coisa agora para a apresentação para o Mundial. Encheram o estádio praticamente para fazer um jogo equipa A contra equipa B de jogadores do Uzbequistão. As expectativas para o Mundial são muito grandes. Ainda agora chegaram aos Estados Unidos com muita gente uzbeque à espera. É gente que acompanha muito o país para todo o lado em todos os contextos.»

— Como joga a seleção e que jogadores destaca?

— Tenho alguma dúvida ainda de quem é que irá iniciar. Há aqui sempre o 11 base e tudo mais. A estrutura base em termos defensivos deve basear-se num 5x4x1, com linhas mais baixas para depois sair em contra-ataque e ter mais espaço. O momento ofensivo deve ser construído em 3x4x3 com alguma profundidade dada pelos alas por fora e com hipótese de preencherem espaços no último terço. Eles gostam de jogar nesta situação de serem outsiders, à procura de algo inesperado. Em relação aos jogadores, são muito rápidos, de execução simples e não muito rigorosos nas situações táticas. Gostam de arriscar nas situações de um contra um e rematam muitas vezes, de todo o lado. Os jogadores de referência são o Khusanov e o Shomurodov. Tenho alguma curiosidade de ver o lateral direito do Pakhatkor, Alizhonov, e onde vai encaixar o Fayzullaev. Têm ali alguns valores emergentes que tenho curiosidade de ver como se vão comportar, porque é a primeira vez que participam numa competição destas e o coração vai bater mais depressa.

— Podem criar dificuldades a Portugal?

— O Uzbequistão vai jogar com a Colômbia, com Portugal e só no último jogo é que vai jogar com a RD Congo. Pode ser um jogo decisivo contra a Seleção, mas eles não se sentem desconfortáveis. É uma equipa que tem uma derrota no último ano — com o Uruguai e foi um jogo discutido até ao último minuto. Há ali algumas coisas que julgo que vão ser interessantes durante esta fase de Mundial porque eles têm quatro ou cinco jogadores que atuam no Irão nesta convocatória, que já não competem desde o início da guerra. Estão a fazer pré-época com a equipa técnica do Cannavaro há algum tempo. Deixa-me alguma curiosidade saber como vão estar.

Portugal tem essa base que, independentemente daquilo que se queira fazer, há qualidade individual que permite que qualquer alteração que se faça não se perca qualidade. E os outros não têm a mesma capacidade.

— Mas numa situação normal Portugal terá de ganhar?

— Julgo que sim. Apesar de sabermos que, na fase de apuramento, houve alguma dificuldade em jogar contra blocos baixos e com pouco espaço no último terço. Também acredito que uma fase de preparação como temos, inclusive na definição dos adversários que vamos defrontar antes do Campeonato do Mundo, a equipa técnica nacional também tenha essa preocupação e vai estar preparada para conseguir ultrapassar essas dificuldades. Portugal tem essa base que, independentemente daquilo que se queira fazer, há qualidade individual que permite que qualquer alteração que se faça não se perca qualidade. E os outros não têm a mesma capacidade.

— Expectativas para a prestação da Seleção Nacional no Mundial?

— Estou curioso, mas também ambicioso. Ser o último Mundial do Cristiano Ronaldo é algo fundamental. Temos de ter a noção da importância que teve no desenvolvimento do nosso futebol, no grau de exigência que criou, até nos próprios resultados. Estamos sempre nas grandes competições, nos grandes clubes europeus, com imensa qualidade e não era uma coisa normal no passado. Isso cria responsabilidade perante cada um um deles. Vamos ver como é que lidamos com isso. Há uma coisa que é fundamental: tem que ser jogo a jogo. Não vale a pena estar a pensar que vamos chegar longe, se o primeiro jogo não for conseguido. Por outro lado, também dizer que vão ser importantes as características do selecionador, o modo como trabalha. Estou expectante e confiante. Há uma série de coisas que vão ser muito importantes para valorizar e para nos fazerem correr mais um bocadinho do que os outros, ganhar a bola dividida, sermos eficazes.

— Considera Portugal uma das seleções mais fortes deste torneio?

— Tenho de considerar, por aquilo que são os jogadores e pelas equipas onde jogam. Por outro lado, acredito que a experiência vai ser sempre importante. Uma Argentina, uma França — tenho tenho ideia que não vamos ter uma Espanha tão forte como vimos no passado —, a própria Inglaterra. Creio que estas equipas vão ser aquelas que vão aparecer mais. E depois, aquelas que podem ser surpresas, mas que ao mesmo tempo têm expectativa, pelo passado que têm, Brasil, Uruguai, que pela capacidade de luta, de espírito e de competitividade, podem alterar algumas coisas neste tipo de provas.

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