Viu 'nascer' Rafael Leão e Daniel Bragança e lembra Diogo Jota: «Era extraordinário»
Pedro Moreira conhece bem alguns dos nomes que marcam a atualidade do futebol português. Do Torreense, onde se estreou como treinador principal, ao Sporting, onde ajudou a formar talentos como Rafael Leão e Daniel Bragança, passando pelo Paços de Ferreira, onde acompanhou os primeiros passos de Diogo Jota no futebol sénior, o técnico recordou a A BOLA as histórias da sua carreira.
— A primeira experiência como treinador principal no futebol sénior foi no Torreense, um clube que tem estado em grande destaque. Esperava ver o Torreense alcançar este feito de conquistar a Taça de Portugal?
— Passei muitos anos como treinador assistente do Paulo Fonseca e, quando saí daquele contexto, houve a ambição de iniciar a minha carreira a solo como treinador principal. Pela carreira que tinha tido, se calhar a minha expectativa era começar num patamar mais elevado, mas foi o Torreense que me abriu a porta. E há sempre este carinho por quem nos permite entrar nesta roda e acredita em nós. Depois até acabei por não ficar no clube muito tempo, por algumas coisas que achava que tinha que melhorar e ao melhorar, chegou a este patamar. Estive no Jamor e a festa, as dinâmicas, as pessoas, o número de pessoas a sofrer pelo clube… É um bom exemplo para as equipas hoje, o modo como se estruturam, como se organizam. Já quando estive lá via-se um clube com essa ambição e estou muito contente por aquilo que conseguiram fazer.
— Curiosamente, o Torreense conquistou a Taça de Portugal frente ao Sporting, outro clube que conhece bem. Nos seus tempos na formação leonina trabalhou com vários jogadores que chegaram ao topo, entre eles Daniel Bragança e Rafael Leão. Já nessa altura se percebia que tinham um talento especial e potencial para chegar longe?
— Trabalhei com várias gerações de enorme qualidade. Em relação ao Rafael Leão e ao Daniel Bragança, já nessa altura era possível perceber que tinham condições para chegar a um nível muito elevado. Outros jogadores surpreenderam mais tarde, mas nesses casos o talento era evidente desde cedo. Ainda assim, o que mais me impressiona é a dedicação que tiveram desde muito novos. O Daniel, por exemplo, vinha de Almeirim para Lisboa todos os fins de semana, depois passou a viver na Academia, longe da família e dos pais. São sacrifícios enormes que muitas vezes as pessoas esquecem quando veem apenas o sucesso atual. Hoje em dia parece tudo fácil, mas há um percurso muito exigente por trás. E aquilo que mais satisfação me dá não é apenas vê-los triunfar como jogadores, mas também perceber que continuam a ser boas pessoas.
— Pegando no Rafael Leão, que vai estar no Mundial, apesar do talento, é muito críticado pela sua inconsistência: o que lhe falta para cumprir todo o potencial que tem?
— As características do Rafael vêm desde miúdo. Esta anarquia, muitas vezes, este alhear-se do que se passa à volta, não é nada de novo. Mas o contrário também é verdade. O potencial individual, o desequilíbrio, aquilo que ele faz com bola... há poucos jogadores que o conseguem fazer. Até a capacidade que tem de pensar algo que ninguém está à espera, isso é algo que só os predestinados têm. E ele tem essas características desde muito novo. Como é que isso se consegue potenciar? Nem sempre é fácil. Se acho que ele podia ter ainda mais potencial e ser um jogador muito mais diferenciado do que já é? Acho que sim. Curiosamente, fui entrevistado muitas vezes por jornalistas italianos porque o Rafael foi jogador do Paulo Fonseca no Milan. Havia sempre a questão de saber se era desta que ele ia mudar. Acabou por acontecer quase o processo contrário. Os dois entraram em colisão e, em vez de ajudar, acabou por não ser bom para nenhum deles. Mas, na fase inicial, achei que podia estar ali algo que desse o clique ao Leão. O Rafael Leão é um jogador para estar entre os três melhores do mundo, por aaquilo que faz, que vale e da facilidade enorme com que desequilibra. Tenho curiosidade para perceber o que vai acontecer agora. Depois de um ano pouco conseguido no clube, o Mundial pode ser uma montra importante. Eu vou torcer por ele, porque tenho um carinho muito especial por aquilo que ele é enquanto jogador e pelo talento que já nos encantava quando tinha muito pouca idade.
— Outro jogador com quem trabalhou, neste caso no Paços de Ferreira, foi o Diogo Jota, que se estreou como sénior nessa altura. O que viram nele e como era o Diogo enquanto pessoa?
— O Diogo era extraordinário. Nunca mudou a sua forma de ser e de estar. As características pessoais dele eram fabulosas. A forma como lidava com os outros, o modo como se relacionava... senti sempre que o sucesso nunca lhe subiu à cabeça. Tinha sempre uma palavra, uma mensagem, uma atenção. O talento dele era inequívoco. Aquilo que fazia em campo não deixava dúvidas. Quando surgiu a oportunidade de o integrar na equipa A, de mostrar valor em competição, correspondeu. Estreou-se num jogo da Taça de Portugal e julgo até que marcou. Depois começou a ter mais oportunidades e, sempre que jogava, mostrava qualidades muito especiais. Para além do rigor tático que tinha, havia algo que me impressionava bastante: a forma como colaborava defensivamente. Era extraordinário. E depois a capacidade de ganhar metros quando a equipa recuperava a bola. Ao longo dos anos não tivemos um contacto muito próximo, mas sempre que havia uma conquista, uma boa exibição ou um momento importante da carreira dele, eu mandava uma mensagem. E obtinha sempre resposta. Isso também revela muito daquilo que ele era enquanto pessoa. Nunca esqueceu ninguém e também me desejava boa sorte quando eu estava a trabalhar noutros contextos. Deixo o meu carinho à família e, acima de tudo, espero que os valores que ele tinha possam passar para os filhos. Porque, se assim for, vão ser pessoas do outro mundo.
— Que capítulo se segue na carreira do Pedro? A próxima etapa passa por Portugal ou pelo estrangeiro?
— Aquilo que procuro agora é um projeto que me dê estabilidade e condições para trabalhar as ideias de jogo que as minhas equipas têm mostrado ao longo dos últimos anos. Nem sempre tive muito tempo nos projetos mais recentes, mas acredito que as equipas demonstraram qualidade e uma identidade própria. Também aproveitei este período para analisar o que podia ter feito melhor e crescer enquanto treinador. Estou totalmente aberto a regressar a Portugal. É algo que me motiva, sobretudo se surgir um projeto alinhado com as minhas ideias, que valorize a forma de jogar, o desenvolvimento de jogadores e a capacidade de conjugar crescimento com resultados. Mas também gostei muito das experiências que tive no estrangeiro, quer como adjunto, quer como treinador principal. Muitas vezes não conhecemos verdadeiramente determinadas realidades e acabamos por as avaliar de forma precipitada. O exemplo do Uzbequistão ensinou-me precisamente isso. Por isso, estou aberto a qualquer projeto que me valorize, que me permita mostrar as minhas capacidades e continuar a crescer. Tenho saudades do treino, do jogo e da competição, isso é uma realidade. Mas também foi muito importante ter tido este tempo para a família. Agora sinto-me apto para voltar a entrar em qualquer contexto.