Arbitragem: o centro aguenta a pressão?
Yeats não conhecia a arbitragem portuguesa, mas em 1919 escreveu a sentença que hoje serve de epitáfio ao nosso futebol: «Things fall apart; the centre cannot hold». As coisas estão a desmoronar-se e o centro, leia-se a autoridade moral, a confiança institucional e a liderança, deixou de aguentar a pressão.
O futebol português vive num permanente estado de convulsão, mas a sequência de episódios mais recente levou a arbitragem a um ponto de quase rutura e ainda não se sabe como acabará.
O gatilho para esta derrocada foi, como sabemos, a demissão de Duarte Gomes de diretor técnico nacional e os seus motivos e a divulgação de áudios de Pedro Proença, gravados quando ainda era candidato à presidência da Federação. A reação da classe a essas gravações foi imediata e com algum músculo. O boicote à ação de reciclagem e avaliação e a ameaça de não comparência na Supertaça entre FC Porto e Torreense soam a velhos «truques». Porém, o setor foi ferido na sua dignidade e algo teria de fazer.
Como no poema de W.B. Yeats, «a mera anarquia solta-se sobre o mundo», e corre-se o risco de o diálogo dar lugar à chantagem. Iniciar uma nova época neste clima de guerrilha (interna) aberta, por um setor constantemente atacado pelo exterior, é um risco tremendo.
Sem a pacificação urgente da arbitragem e sem um compromisso real de todos os intervenientes, o futebol português continuará em queda livre. Se o centro não aguentar a pressão agora, não haverá VAR nem regulamento capaz de salvar a época e o produto que estará à venda com a centralização de direitos perderá ainda mais valor. Porque o jogo deste sábado pode ser da FPF, mas o impacto vai muito para além deste duelo de início de época.
Esta é a altura de os líderes liderarem, de enfrentarem o problema e não se refugiarem no silêncio ou comunicados inócuos ou terem medo de aparições públicas. O discurso, neste momento, não pode ser só para dentro, em jantares ou almoços prometidos. Pode até apaziguar-se quem apita, mas faltará sempre o repor algum nível de confiança no adepto já de si descrente e na perceção pública porque o primeiro troféu oficial disputa-se hoje.
Como é de regulamento, haverá sempre alguém no papel de juiz. Mas a Supertaça, o jogo, seria apenas a segunda vítima, pois a primeira está encontrada: o Torreense não tem palco mediátio como o FC Porto e devia estar em todas os comentários deste sábado. Não merecia nada disto, não merecia este caos.