Pedro Proença, quando era presidente da Liga, cumprimenta Luciano Gonçalves, na altura presidente da APAF
Pedro Proença, quando era presidente da Liga, cumprimenta Luciano Gonçalves, na altura presidente da APAF

Arbitragem: o centro aguenta a pressão?

As coisas estão a desmoronar-se e o centro, leia-se a autoridade moral, a confiança institucional e a liderança, deixou de aguentar a pressão.

Yeats não conhecia a arbitragem portuguesa, mas em 1919 escreveu a sentença que hoje serve de epitáfio ao nosso futebol: «Things fall apart; the centre cannot hold». As coisas estão a desmoronar-se e o centro, leia-se a autoridade moral, a confiança institucional e a liderança, deixou de aguentar a pressão.

O futebol português vive num permanente estado de convulsão, mas a sequência de episódios mais recente levou a arbitragem a um ponto de quase rutura e ainda não se sabe como acabará.

O gatilho para esta derrocada foi, como sabemos, a demissão de Duarte Gomes de diretor técnico nacional e os seus motivos e a divulgação de áudios de Pedro Proença, gravados quando ainda era candidato à presidência da Federação. A reação da classe a essas gravações foi imediata e com algum músculo. O boicote à ação de reciclagem e avaliação e a ameaça de não comparência na Supertaça entre FC Porto e Torreense soam a velhos «truques». Porém, o setor foi ferido na sua dignidade e algo teria de fazer.

Como no poema de W.B. Yeats, «a mera anarquia solta-se sobre o mundo», e corre-se o risco de o diálogo dar lugar à chantagem. Iniciar uma nova época neste clima de guerrilha (interna) aberta, por um setor constantemente atacado pelo exterior, é um risco tremendo.

Sem a pacificação urgente da arbitragem e sem um compromisso real de todos os intervenientes, o futebol português continuará em queda livre. Se o centro não aguentar a pressão agora, não haverá VAR nem regulamento capaz de salvar a época e o produto que estará à venda com a centralização de direitos perderá ainda mais valor. Porque o jogo deste sábado pode ser da FPF, mas o impacto vai muito para além deste duelo de início de época.

Esta é a altura de os líderes liderarem, de enfrentarem o problema e não se refugiarem no silêncio ou comunicados inócuos ou terem medo de aparições públicas. O discurso, neste momento, não pode ser só para dentro, em jantares ou almoços prometidos. Pode até apaziguar-se quem apita, mas faltará sempre o repor algum nível de confiança no adepto já de si descrente e na perceção pública porque o primeiro troféu oficial disputa-se hoje.

Como é de regulamento, haverá sempre alguém no papel de juiz. Mas a Supertaça, o jogo, seria apenas a segunda vítima, pois a primeira está encontrada: o Torreense não tem palco mediátio como o FC Porto e devia estar em todas os comentários deste sábado. Não merecia nada disto, não merecia este caos.

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