Pedro Proença,
presidente da Federação Portuguesa de Futebol, protagoniza forte polémica - Foto: Miguel Nunes
Pedro Proença, presidente da Federação Portuguesa de Futebol, protagoniza forte polémica - Foto: Miguel Nunes

O edifício que treme ao primeiro áudio

'Bar Nilo' é o espaço de opinião em A BOLA de Luís Aguilar, comentador desportivo

Os maiores escândalos do futebol raramente começam com um penálti mal assinalado, um cartão vermelho ou resultado inesperado. Começam, muitas vezes, quando alguém grava o que não devia e, do outro lado, surgem as confissões daquelas que ficam encantados com o barulho da própria voz. A partir daí, a manipulação do conteúdo e a explosão do mesmo fazem o resto. Geram mais barulho, mas nada resolvem.

Foi isso que aconteceu, mais uma vez, esta semana. Não foram os áudios de Pedro Proença que abriram uma crise. A crise já existia. Os áudios apenas abriram a porta da sala onde ela vivia.

É por isso que a discussão nunca deveria limitar-se às frases, ao contexto ou às intenções de quem as pronunciou. Mais ainda quando não há contexto e apenas excertos de conversas editadas. Tudo isso terá naturalmente importância. Mas há uma pergunta muito mais desconfortável do que qualquer transcrição. Porque é que ninguém ficou verdadeiramente surpreendido?

Talvez porque, no fundo, o futebol português tenha desenvolvido uma estranha relação com a verdade. Em público, fala-se de instituições sólidas, competentes e estáveis. Em privado, as conversas são outras. Fala-se de fragilidades, de relações difíceis, de desconfiança, de erros repetidos, de estruturas que já não convencem sequer quem as dirige.

O problema nunca é apenas a existência de duas conversas. Todas as organizações têm uma linguagem pública e outra privada. O problema surge quando a distância entre ambas se torna tão grande que a realidade parece mudar conforme a porta da sala esteja aberta ou fechada. Os áudios revelam precisamente essa distância.

Durante demasiado tempo, o futebol português habituou-se a sobreviver assim. As conferências de imprensa pertencem ao teatro. As conversas de corredor pertencem à realidade. E toda a gente aceita essa divisão como se fosse uma inevitabilidade. Os dirigentes sabem-no. Os árbitros sabem-no. Os clubes sabem-no. Os jornalistas sabem-no. Até os adeptos aprenderam a viver nesse permanente jogo de espelhos.

Talvez por isso a reação tenha sido tão previsível. Houve indignação pelo conteúdo. Houve indignação pela divulgação. Houve o comunicado de Pedro Proença. O que quase não houve foi uma reflexão séria sobre aquilo que os áudios dizem acerca da saúde institucional do futebol português.

Porque, no fim, o problema nunca é um ficheiro de áudio. O problema é um sistema onde um simples ficheiro consegue abalar tantas certezas.

A reação da APAF revela incredulidade. O atual presidente da FPF, então presidente da Liga na gravação dos áudios, foi um dos grandes árbitros portugueses. Parecia o defensor que os homens do apito nunca tiveram. Mas a conversa privada, com gente dos clubes, mostra outro lado. Sentiram os árbitros que, afinal, continuavam a tirar-lhes o chão. Totalmente compreensível. Quando Proença é ouvido a fazer críticas tão duras à arbitragem, aqueles que são acusados de falta de qualidade (sendo essa parte verdade) voltam a sentir-se isolados. Mas de uma forma pior.

Durante anos, o futebol português habituou-se a discutir árbitros quase exclusivamente através da suspeita, insinuação e teoria. Agora, pela primeira vez, a discussão nasce através de alguém demasiado próximo da casa. E, sim, pode ter esta conversa de árbitros sem qualidade para os dirigentes dos clubes e mudar totalmente o discurso quando, nas mesmas salas à porta fechada, fala com os homens do apito. Isso, porém, nunca será suficiente para acalmar os visados.

Também o Benfica sai deste episódio numa posição delicada. Na parte em que Proença parece ameaçar Fernando Seara, então presidente da Mesa da Assembleia Geral das águias, e o próprio clube, da Luz veio apenas silêncio. Algo que passa uma imagem de clube que se amedronta ou que tem razões para se amedrontar.

Num futebol onde cada comunicado costuma ser tratado como uma declaração de princípios, e onde muitos são emitidos por banalidades, a ausência de posição do Benfica serve apenas para dar vida a todo o tipo de interpretações. E, em política desportiva, as interpretações acabam muitas vezes por ganhar mais peso do que os factos. Mas reduzir este episódio a uma disputa entre Proença e Benfica seria desperdiçar a oportunidade de discutir o essencial.

O futebol português vive há demasiado tempo numa permanente lógica de remendos. Resolve crises sem resolver problemas. Troca protagonistas sem alterar comportamentos. Muda presidentes, muda conselhos de arbitragem, muda dirigentes, muda discursos. O edifício, contudo, nunca deixou de assentar em fundações frágeis. E o resultado está à vista.

Sempre que surge uma escuta, uma mensagem, um áudio ou uma fuga de informação, o país futebolístico entra em estado de choque. Discutem-se as palavras durante dias. Analisa-se a forma. Debate-se a legalidade da divulgação. Entretanto, quase ninguém pergunta porque é que aquelas palavras parecem fazer tanto sentido a quem as ouve.

Esse é o verdadeiro drama. Os escândalos do futebol luso não vivem da revelação do inesperado. Vivem da confirmação do esperado. É essa normalização que deve preocupar.

Uma instituição forte não é aquela onde nunca existem conversas incómodas. É aquela onde essas conversas não contradizem a imagem que apresenta ao exterior. Quando a versão privada se torna muito diferente da versão pública, a credibilidade começa lentamente a desaparecer. Não de um dia para o outro. Mas um pouco de cada vez. Um comunicado de cada vez. Uma fuga de informação de cada vez. Um áudio de cada vez.

No final, fica a ideia de que todos parecem conhecer os problemas do futebol português, mas ninguém consegue, ou quer, enfrentá-los. Como se o sistema tivesse aprendido a administrar as suas próprias crises em vez de as resolver.

Os áudios não derrubaram o edifício. Limitaram-se a mostrar que as paredes já estavam rachadas há muito tempo. E um futebol que treme ao primeiro áudio, dificilmente pode continuar a convencer-nos de que os alicerces continuam intactos.

A iniciar sessão com Google...