Paulo Sérgio, 58 anos, criou relação especial com os adeptos do Hearts — Foto: IMAGO
Paulo Sérgio, 58 anos, criou relação especial com os adeptos do Hearts — Foto: IMAGO

Como o Hearts é especial: «Acena-lhes, acena-lhes, estão a cantar para ti»

Paulo Sérgio esteve um ano no Hearts e conquistou uma Taça da Escócia num contexto de grande dificuldade. Vê Benfica superfavorito na eliminatória. Segunda-feira começa a treinar o WAC, de Marrocos

Paulo Sérgio puxa o filme atrás para recordar 2011/12 no Hearts. Tão difícil quanto gratificante. Falou de passado, presente e futuro.

— Ainda costuma ouvir a música que os adeptos do Hearts lhe cantavam?
— Ainda. Na semana passada, um grupo de adeptos do Hearts mandou-me um vídeo deles a cantarem essa música num bar na Áustria. Acompanharam a equipa contra o Sturm Graz [segunda pré-eliminatória de acesso à fase de Liga da Champions], foram uns dias antes para visitar e enviaram-me isso. Temos uma relação muito engraçada. No ano passado, convidaram-me a assistir a um jogo do Hearts, no âmbito de uma ação da fundação. Temos uma relação espetacular. É um enorme prazer sentir isso.

— Como é que isso aconteceu?
— Criámos muito impacto, com o nosso trabalho, a nossa forma de ser e de comunicar. Foi uma época muito difícil. No ano seguinte, o clube entrou em bancarrota, caiu na II Divisão e o dono, Roman Romanov, abandonou. Foram os adeptos que reconstruíram o clube através da fundação, são os maiores proprietários, uma coisa muito bem feita. Mas o nosso ano lá foi muito difícil, tínhamos vencimentos em atraso. Com o que fizemos na Taça, na qual cada transmissão é negociada à data, pagámo-nos a nós próprios. Eliminámos o Celtic, vencemos o nosso rival de Edimburgo, Hibernian, na final por 5-1. Foi inesquecível. No início, nem me apercebi da música. O meu adjunto escocês é que me disse: 'Acena-lhes, acena-lhes, que estão a cantar para ti.' Nem reparava.

— Alguma vez teve uma experiência semelhante?
— Não me posso queixar de ter sido maltratado nos clubes em que trabalhei, tive sempre experiências gratificantes e boas relações em todos os lados. Sigo todos os clubes pelos quais passei, mas o Hearts é especial.

— O que tornou o clube especial?
—Foi o que aconteceu. Se tem corrido mal, não teria nascido esta ligação. Enfrentámos batalhas difíceis, tive de expor-me por causa dos vencimentos em atraso e sentiram que estava a dar o melhor. E criou-se essa ligação.

— Disse que continua a acompanhar o Hearts. O futebol escocês ainda é muito kick and rush?
— Essa já era uma ideia errada em 2012. A Escócia não é um país muito grande, tem menos habitantes que Portugal. Produz jogadores com tenacidade, intensidade e vontade de trabalhar. Produz menos com elevado nível técnico para o um contra um ou com ginga, não são latinos. Mas o jogadores escocês passa e remata bem e tem intensidade nas ações.

— Como perspetiva a eliminatória com o Benfica?
— Benfica é superfavorito. O Hearts fez uma campanha fantástica na época passada e lutou pelo título até à última jornada, com Rangers e Celtic muito abaixo do nível normal. Isso ajudou à competitividade do campeonato, mais nivelado por baixo. Com um orçamento inferior, no entanto, o Hearts fez uma campanha fantástica. Saíram e entraram muitos jogadores, o treinador [Derek McInnes] foi para o Rangers, levou com ele o avançado Lawrence Shankland e o médio Cameron Devlin. Está a reconstruir-se. Vi os dois jogos com o Sturm Graz. O Benfica é completamente favorito. Neste último jogo, já foi visível o que o Marco [Silva] quer, já saiu muita coisa do treinador, percebeu-se a estratégia e os passos que está a dar. Benfica está muitos passos à frente.

— Como surgiu a oportunidade de treinar o WAC e porque aceitou?
— Estava em negociações com opções do Médio Oriente, financeiramente até superiores. No WAC tenho a possibilidade de jogar para ganhar o título. Nos últimos anos, não tive essa oportunidade. Isso pesou muito. Na última época o WAC acabou no quinto lugar. Mudou a Direção e há uma equipa nova que procura fazer as coisas bem. Começamos a trabalhar na segunda-feira com o sonho de lutar pelo título e conquistas de taças, que é o que se exige a um dos clubes mais fortes e conhecidos de África. Acredito que nos darão a oportunidade de reconstruir o plantel. O projeto é aliciante.

— Quando o voltaremos a ver em Portugal?
— Neste momento, é mais provável que treinadores mais experientes entrem mais a meio que no início da época. Há uma quantidade enorme de técnicos jovens com talento e é natural que os dirigentes tentem descobrir talento. Na época passada, tive convite de uma equipa da I Divisão, mas fiquei na Arábia Saudita. Nunca atropelei alguém e gosto de estar onde sou desejado. Vou esperar. Mais dia menos dia, voltarei. Tudo farei para ser feliz.

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