O último herói do Vitória em Alvalade: «Estava há dez meses sem jogar»
Há dias que não parecem reais. Foi o caso para Tiago Targino a 8 de novembro de 2010. Foi tudo tão espontâneo e inesperado para o à data avançado do Vitória de Guimarães que o antigo jogador nem sabe por onde começar a contar…
Desde logo, é importante contextualizar o momento (delicado): o extremo tinha estado mais de dez meses afastado dos relvados devido a uma lesão sofrida na época anterior (2009/10). «Fui integrado na equipa nessa semana, depois da lesão grave que tinha tido em janeiro, contra o Benfica», recorda Targino, em conversa com A BOLA.
A alegria de voltar a estar integrado no grupo de trabalho já era enorme e a sensação era de que não precisava de muito mais naquele momento. Mas havia mesmo (muito) mais. A primeira surpresa foi ter sido convocado para o jogo seguinte, com o Sporting, em Alvalade. «Pensava que nem iria ser convocado, mas o professor Manuel Machado deu-me logo a oportunidade», recorda.
«Ainda assim, mesmo tendo sido convocado, pensei que não iria ser opção, porque, depois de uma lesão tão grave e de dez meses sem jogar, a integração demora sempre o seu tempo…», reconhece. Mas bem se enganou. É verdade que Tiago Targino começou o encontro no banco, mas ao minuto 62, quando o duelo estava 2-0 a favor dos leões, o treinador dos vitorianos arriscou e gastou no atacante a última substituição de que dispunha.
Mas, ainda antes, só o facto de Manuel Machado o ter posto a aquecer espantou o jogador: «Recordo-me perfeitamente quando me mandou aquecer. Não estava nada à espera, mas claro que fui com muita euforia e alegria.»
Dois minutos depois, Tiago Targino foi chamado novamente ao banco. Terá sido para se sentar, depois de Manuel Machado ter ponderado melhor e considerado que era arriscado lançar o atleta recém-debilitado aos leões? Não. Foi, precisamente, o contrário. O técnico escolheu-o, especificamente, para erguer o espírito vimaranense dentro da quadra.
«Também não acreditei que, passados dois minutos, me tivesse mandado voltar ao banco para me preparar para entrar. Sinceramente, nem tinha aquecido em condições», conta, voltando a vincar o fator «vindo de uma lesão».
Depois... começou a viver o sonho. «Foi um momento muito especial. O mister disse-me para me divertir, para fazer o que mais gostava, que era meter velocidade, tentar procurar bolas nas costas da defesa. Foi isso mesmo que fiz», evoca. Nada ali parecia real (sublinhe-se), mas o sonho ainda ia a meio…
Os conquistadores perdiam por 0-2 — «e recordo-me que os golos deles foram dois golos que, hoje em dia, com as novas tecnologias, seriam invalidados, porque um foi em fora de jogo e o outro foi um canto em que a bola bateu na trave e depois no chão, mas não entrou» — e, no espaço de um minuto, Tiago Targino empatou o jogo (77’ e 76’).
Como se não fosse suficiente, o atacante ainda construiu a jogada que deu o terceiro golo minhoto (por Bruno Teles, aos 88’) e que consumou a reviravolta, naquele que é ainda o último triunfo vitoriano no reduto leonino.
«Foi, com certeza, dos jogos mais épicos da minha carreira e de que me recordo com mais carinho», afirma. «Infelizmente, o Vitória nunca mais ganhou em Alvalade. Sinceramente, espero que seja este ano», deseja.
Dois Tiagos, mas uma só paixão
Sobre o jogo desta sexta-feira (20h15), Tiago Targino recomenda a Tiago Margarido a mesma receita aplicada há 16 anos.
«Podem espelhar-se no que fizemos. O futebol mudou em muita coisa, mas há outras que não irão mudar: o Sporting tem jogadores com muita qualidade e gosta de assumir o jogo, mas também tem fragilidades. Portanto, é aproveitar as costas da defesa e ferir dessa forma», sugere.
«O Vitória ainda está numa fase de construção, mas tem de ter muita coragem, acima de tudo. Se jogarem muito bem organizados defensivamente e aproveitarem o contra-ataque, podem surpreender», sublinha. De Tiago para Tiago, Targino assume-se «fã» de Margarido. «Tenho acompanhado o trabalho que tem feito ao longo da carreira e sabe que tem aqui alguém que desejava muito que viesse para o nosso castelo», confessa.
Quem também assumiu neste ano funções (mas aqui num regresso) no clube foi Tiago Targino, cumprindo o desejo que tinha há muito tempo: «Um objetivo que tinha era voltar ao Vitória, e neste ano consegui. Sou treinador adjunto da equipa feminina das sub-19, em que se conseguiu um feito muito importante para o futebol feminino e vamos disputar a primeira divisão.»
Recorde-se que o antigo jogador despontou para o futebol na cidade-Berço. Depois de ter completado lá a formação, estreou-se nos seniores em 2004/05, lançado por Manuel Machado quando tinha apenas 18 anos. O extremo manteve-se ligado ao clube até 2012, quando saiu em definitivo para o Olhanense, aos 26 anos. Agora, aos 40, volta para treinar, explicando que também é «embaixador» do clube e, nesse sentido, tem feito «palestras nas equipas da formação» dos conquistadores.
«Conto um bocadinho da minha história e tento ajudar os miúdos a perceber que o futebol tem muitos altos e baixos», detalha.