Carolina Correia refletiu sobre a decisão que tomou em 2023 e que precipitou épocas de alto nível no Torreense

«O Torreense reúne todas as condições para ser um dos grandes no futuro»

Carolina Correia personifica a ambição do Torreense na antecâmara da terceira final em menos de um ano. O futuro é uma incógnita, mas é tema para colocar em cima da mesa apenas após o término de uma época histórica

O Torreense chega à final da Taça da Liga contra o Valadares Gaia, no sábado, como detentor da Taça de Portugal e da Supertaça. Carolina Correia capitaneia uma equipa motivada por um triunfo contra o Sporting [2-0] na jornada anterior na Liga e embalada pela ambição europeia. O terceiro lugar que ocupam já dá acesso à qualificação para a fase final da Champions, mas o segundo está apenas a três pontos de distância.

A defesa de central de 23 anos refletiu sobre o passado no Benfica, o presente em Torres Vedras e o futuro de Quinas ao peito em entrevista a A BOLA.

—  Como é que sente o balneário a dias de uma final histórica que pode dar o terceiro título em menos de um ano ao Torreense?

— Com muita alegria. Estamos muito motivadas e queremos continuar a fazer história. Uma final é sempre uma final. Vamos entrar para ganhar, como fazemos sempre. Tivemos o mérito de ter ganho as últimas duas taças. Sabemos que vamos encarar um adversário bastante difícil, mas estamos a preparar esta semana da melhor maneira para fazer história no sábado.

—  Os dois títulos conquistados no último ano elevam a responsabilidade do Torreense?

— Claro que temos responsabilidade, mas é um orgulho poder pisar estes palcos. Todas as equipas querem chegar às finais. Nós estamos com trabalho e muito mérito. É aproveitar o momento. Sabemos que vai ser difícil, mas estamos preparadas e espero que caia para o nosso lado.

— Que análise faz à equipa do Valadares?

—  A equipa do Valadares é uma equipa jovem, com muita qualidade e com um grande treinador. É uma equipa que também está a investir muito no futebol feminino. Sinto que está a crescer como o Torreense. Prevejo um jogo bastante difícil. É uma equipa que aposta muito na transição ofensiva e tem jogadoras muito evoluídas na frente. Temos de estar a 100% para conseguirmos travá-las e aproveitarmos o espaço que deixam.

—  A Daniela Areia Santos, antiga companheira de clube e atual colega na Seleção, vai estar do outro lado da barricada na final. Falaram deste jogo?

—  Quando estivemos juntas na seleção falámos, mas na altura ainda não tinha havido o Valadares-Sporting [vitória das gaienses nas meias-finais nos penáltis]. Trocámos umas palavras porque seria giro irmos as duas à final. Respeito muito o trabalho da Daniela, está a crescer muito. Desejo-lhe a melhor sorte. Fico muito feliz por também poder partilhar esta final com ela.

—  Uma final entre Valadares e Torreense reflete a evolução do futebol português?

—  Acredito que sim. Não é por acaso que ambas as equipas estão na final. Espero que nos próximos a liga continue competitiva, que mais equipas tirem pontos aos grandes e que as finais não sejam só Benfica-Sporting.

—  Por falar em tirar pontos, o Torreense ganhou no domingo ao Sporting e ficou a três pontos do segundo lugar…

—  Olhamos jogo a jogo, mas claro que temos os nossos objetivos internos e queremos atingir os lugares europeus. Esta vitória frente ao Sporting [2-0] era algo que queríamos muito. Estamos a três pontos do segundo lugar, mas mantemo-nos fiéis a nós próprias. Se acabarmos assim em segundo, melhor para nós, mas é jogo a jogo. Estar nos lugares europeus é um objetivo. No final fazemos as contas. Qualquer equipa ambiciona chegar aos lugares cimeiros da liga.

—  O título pode ser um objetivo no futuro para o Torreense?

—  Se continuar a apostar no futebol feminino, penso que daqui a alguns anos pode vir a lutar pelo título. Claro que ainda temos de ganhar a consistência que os grandes têm vindo a demonstrar no campeonato. O Torreense reúne todas as condições para daqui a uns anos vir a ser um dos grandes.

—  A experiência de títulos e na Champions acumulada no Benfica entre 2021 e 2023 justifica o facto de aos 23 anos já ser capitã?

— Penso que reflete um bocadinho a minha capacidade dentro e fora de campo de ajudar o Torreense a alcançar coisas bonitas. Se as minhas colegas e os meus treinadores me nomearam capitã, tento trazer o melhor de mim. Apesar de não ter tido muitos minutos no Benfica, acabo por ter feito parte do grupo e isso ajuda.

—  Quando sai do Benfica em 2023 esperava estar a festejar títulos pelo Torreense e ganhar espaço na Seleção tão pouco tempo depois?

—  Sou uma pessoa que não pensa muito no futuro, prefiro viver o presente. Prefiro levar as coisas de uma forma mais leve. Toda a gente pode sonhar. Tracei objetivos na minha carreira e Seleção era um deles. Claro que tive de trabalhar muito. O Torreense também me deu a oportunidade de chegar lá e de poder crescer neste grupo. Sendo um clube que está a investir no futebol feminino, deu-me asas para conseguir sonhar com esses objetivos. Não estava à espera de me estrear logo no meu primeiro estágio, mas fiquei muito feliz, foi um sonho tornado realidade, ainda para mais num estádio cheio em Wembley.

— 2025 não correu da melhor maneira para Portugal...

— Jogámos contra as melhores seleções do mundo. É a jogar contra as melhores que crescemos, portanto temos sempre tirar o melhor das coisas. Neste caso tivemos um ano um bocadinho duro, masa a longo prazo vai-nos dar frutos. Descemos agora para a Liga B, mas queremos estar no Mundial. Tenho a certeza que vai correr bem e que vamos estar em 2027 no Campeonato do Mundo. Toda a gente no Brasil respira futebol.

Carolina Correia ao serviço da Seleção Nacional - Foto: Miguel Nunes

— Sair do Benfica para o Torrense em 2023 foi um passo necessário?

Claro que sim. Na altura ainda era nova, precisava de ter minutos para dar o salto e vi o Torreense como a melhor opção. Olhando para trás, fico muito feliz. Tenho a certeza que foi o melhor passo que podia ter dado. Quando somos novas temos de jogar para ganhar ritmo de jogo e maturidade. Às vezes nos clubes onde estamos não temos esses minutos e temos de arriscar. Não há mal nenhum em arriscar porque muitas das vezes dá certo. Neste caso deu certo comigo. Claro que ainda tenho muito para crescer, mas estou muito feliz com esse passo. Já estava a acumular vários jogos sem minutos e surgiu naturalmente a oportunidade de ser emprestada. Acabou por ser uma decisão natural.

— Pensa em regressar a esse patamar?

—  Qualquer jogadora ambiciona chegar aos clubes de topo a nível nacional e internacional. Prefiro não pensar muito nas coisas, se surgir vai ser natural. Ambiciono chegar a clubes melhores, ter outras experiências, mas vamos ver o futuro. Espero que traga coisas boas. Já são coisas que guardo e remeto para a minha agência. Não sei onde é que vou estar num futuro breve a nível de clubes.

— Termina contrato com o Torreense em junho?

— Sim.

— A eventual qualificação do Torreense para a Champions pode influenciar a sua continuidade no clube?

—Qualquer jogadora ambiciona jogar ao mais alto nível e jogar Champions. Ficando o Torreense em segundo ou terceiro lugar é sempre um ponto positivo para ficar. Vamos ver como é que corre até junho, mas jogar a Champions é o objetivo de qualquer jogadora.

—  Quais são os principais objetivos que procura alcançar na carreira?

— Tenho o objetivo de continuar a fazer parte do grupo da seleção. Quero ganhar o meu espaço, ganhar minutos e ter a oportunidade de ser mais vezes titular.Gostava de alcançar a presença no Mundial, claro. Cada coisa a seu tempo, estou a trabalhar para quando surgirem mais oportunidades estar no meu melhor para representar também bem Portugal. Claro que também tenho a ambição de ir para fora e de vivenciar novas ligas. Continuar a crescer e ser fiel a mim. Espero continuar a crescer, ser uma jogadora ainda mais completa, sempre com os pés assentes no chão e humildade.