O Torreense pintou mesmo a Europa de azul-grená: os ecos do orgulho do Oeste
O dia 18 de setembro de 2026 tem um céu em tons de azul-grená. E não é só em Torres Vedras. É também um pouco por todo o País onde cada amante de futebol, independentemente da sua paixão clubística, sentirá, com grande dose de certeza, um tremendo orgulho no Torreense. Como assim é, também, um pouco por todo o Mundo. Porque, afinal, há um português em cada parte do globo. Em especial na Noruega, onde o emblema do Oeste escreveu, ontem, uma das páginas mais bonitas da sua história.
Do livro de honra do Torreense passa agora a constar o dia 17 de setembro de 2026. Eternamente. E com assinatura a letras de ouro. Afinal, a data ficará para todo o sempre ligada ao primeiro jogo europeu da história do clube de Torres Vedras. No Arasen Stadion, nos arredores de Oslo, a equipa orientada por Luís Tralhão escalou uma montanha que parecia absolutamente impossível e o Lillestrom serviu como testemunha da escritura. Alejandro Alfaro e Manu Pozo provaram que de Espanha há bons ventos e bons... golos, algo que nem o tento de Thomas Olsen, já na reta final do desafio, conseguiu ofuscar. O Torreense venceu (sim, para quem ainda não acredita, é mesmo verdade!) o Lillestrom por 2-1 na 1.ª jornada da fase de liga da UEFA Europa League. Não esqueçamos nunca: o dia 17 de setembro perpetuou-se como um dos mais importantes da vida do clube o Oeste, fundado a 1 de maio de 1917 e que, como tal, caminha a passos largos para os 110 anos de existência.
O feito é de tal ordem que A BOLA foi ao encontro de várias personalidades ligadas ao clube e à cidade. Porque o Torreense é, claro está, uma das principais bandeiras de Torres Vedras. Por essa razão, impunha-se uma reação do presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras. Que já antes da partida da comitiva para a Noruega tinha falado ao nosso jornal, deixando bem claro o orgulho que sentia pelo facto de o Torreense estar a caminho de uma inédita epopeia europeia.
Os ares nórdicos foram absolutamente excecionais e do edil de Torres Vedras surgiu a (natural) reação de orgulho infindável pelo feito obtido na Noruega e Sérgio Galvão abriu novamente o coração para falar do (também seu) Torreense.
«O dia de ontem ficará para sempre na história do Torreense e de Torres Vedras. Na sua estreia nas competições europeias, o Torreense conquistou na Noruega uma vitória histórica, levando o nome da nossa terra além-fronteiras e demonstrando, uma vez mais, que a ambição, o trabalho e a coragem nos permitem sonhar mais alto. Uma palavra muito especial para todos os adeptos que viajaram milhares de quilómetros para apoiar a equipa e fizeram sentir Torres Vedras em Lillestrom. Aos jogadores, equipa técnica, dirigentes e a toda a família torreense, os meus parabéns por este momento inesquecível. Ontem, em Lillestrom, não venceu apenas um clube: venceu uma cidade, um concelho e toda uma região que tem muito orgulho em ver o Torreense levar o nome de Torres Vedras pela Europa», referiu o autarca, em exclusivo a A BOLA.
PARA TOINHA FOI COMO SE ESTIVESSE... «LÁ DENTRO A JOGAR E A AJUDAR A EQUIPA»
E falar do Torreense é também falar (e muito!) de Toinha. Uma das principais lendas do emblema do Oeste. O antigo jogador e treinador lamenta o facto de não ter podido acompanhar a equipa nesta deslocação à terra do bacalhau, mas recorda o que viveu ao longo daqueles 90 minutos históricos. E quase que entrava pela televisão ao recordar os seus tempos de jogador...
«Quase que nem há palavras que sinto e as emoções que fervilham aqui dentro. O Torreense honrou, mais uma vez, Torres Vedras e o futebol português. É um honra e uma enorme orgulho para todos nós que gostamos do Torreense. Vi o jogo em casa, não tive a oportunidade de ir à Noruega. Vivi as emoções à minha maneira. Golos? Fez-me lembrar os tempos em que eu jogava e parece que estava lá dentro a jogar e a ajudar a equipa. Lembrei-me de alguns dos golos que marquei, especialmente os de cabeça, particular em que eu era forte. Portanto, quando foi o golo do Alfaro, passou-me muita coisa pela cabeça. Foi lindo. Foi espetacular. A exigência do Torreense nesta Liga Europa continua a ser nula. É um outsider, não é obrigado a nada. É muito bonito continuar a representar o segundo escalão do futebol nacional e o próprio futebol português, mas é preciso continuar com os pés bem assentes no chão, até porque teremos pela frente adversários de peso, como o Celtic, o Sunderland, entre outros. O trabalho da SAD tem sido absolutamente excecional, que tem projetado o Torreense. O clube está cheio de vigor e a trilhar bons caminhos. Não só o futebol masculino sénior, como as camadas jovens, o futebol feminino e a formação. É um clube moderno, que tem evoluído imenso. É um orgulho enorme para Torres Vedras e para toda a região Oeste», sublinhou, antes de deixar uma certeza e uma promessa: «Não vou faltar a nenhum jogo em Leiria e espero conseguir ir a, pelo menos, um jogo fora.»
A realidade do clube é na Liga 2, mas Toinha não esconde que na alma tem uma projeção. «O sonho maior é voltar à Liga. O Torreense tem uma tarefa talvez mais difícil esta época, por estar nas competições europeias, o que dará um desgaste acrescido, mas essa ambição está sempre presente. Na temporada passada esse sonho esteve muito perto de concretizar-se, com a presença no play-off de subida, e esperamos que num futuro próximo possamos mesmo voltar ao convívio dos grandes», acrescentou.
NA NORUEGA NÃO HOUVE FRIO PARA O CALOR DAS EMOÇÕES: PARA PEDRO VAZA, O TORREENSE «É UMA FORMA DE VIDA»
Não há perto nem distante quando se quer realmente. O amor pelos clubes, já se sabe, extravasa muitas vezes o contexto realístico, pelo que sempre que a vida assim o permite, os adeptos acompanham a equipa do seu coração por esses estádios fora. Em Portugal? Claro! Mas e se for na Europa? Também, pois então.
O Torreense foi à Noruega, mas não foi, de todo, sozinho. Além dos milhares de sócios e simpatizantes que ficaram a torcer em solo lusitano, houve quem conseguisse programar a sua vida para viajar até à Noruega e assistir ao vivo a um jogo absolutamente histórico. E foi diretamente da Noruega que A BOLA recolheu o testemunho de um dos adeptos que acompanhou o emblema do Oeste nesta deslocação épica: Pedro Vaza.
O empresário do ramo da restauração, bastante conhecido em Torres Vedras e com forte ligação sentimental ao clube, ainda se encontra, por esta altura, em território norueguês — a viagem de regresso a Portugal está agendada para a manhã deste sábado —, mas não hesitou em contar (quase) tudo o que se tem vivido no referido país nórdico. Porque esta é daquelas histórias que ficará mesmo para sempre...
«O Torreense é uma forma de vida. Foi um dos dias mais felizes da minha vida, sem sombra de dúvida. Tal como fora a subida de divisão [época 1990/1991] e a conquista da Taça de Portugal [2025/2026]. A nossa viagem foi na quarta-feira. Tivemos uma receção fabulosa na Noruega, é um povo espetacular. Éramos seis ou sete, o onde nos dirigimos estava completamente cheio e com adeptos do Lillestrom e, qual não foi o nosso espanto, quando entrámos começaram todos a bater palmas por nós estarmos com as camisolas e cachecóis do Torreense. E no final do jogo deram-nos os parabéns pela vitória e desejaram-nos boa sorte para o resto da época», começou por relatar ao nosso jornal.
E como foram, então, as emoções dentro do Arasen Stadion? O relato é feito na primeira pessoa. «Não tínhamos grandes expectativas para o jogo, honestamente, mas depois do primeiro golo e, especialmente, do segundo, ficámos mesmo convencidos de que era possível. Acabámos ainda por sofrer na parte final, mas assim teve ainda mais sabor. Foi um dia memorável para todos os que amam o Torreense», recordou, dando conta dos momentos seguintes, em que o objetivo era comemorar num local próprio, mas a sorte não foi a melhor: «À noite foi mais complicado para festejarmos porque estava quase tudo fechado no que concerne aos espaços de diversão, mas entre nós demos asas à nossa alegria e festejamos à nossa maneira, na medida dos possíveis [risos].»
MANUEL CAJUDA FALA EM «GRATIDÃO» POR TUDO O QUE VIVEU EM TORRES VEDRAS E DIZ QUE O MOMENTO ATUAL DO CLUBE É «EXTRAORDINÁRIO»
Quando, por qualquer motivo, ou qualquer que seja o contexto, o nome de Manuel Cajuda vem à baila, então quem o conhece sabe que vem dali uma história. Porque o nome dispensa apresentações. Cajuda é e será um dos grandes do futebol português.
E se agora é presidente do (seu) Olhanense, Manuel Cajuda pode orgulhar-se de uma trajetória de nível superlativo no futebol português. Em todos os clubes que treinou deixou marca — em muitos desportiva, em todos pessoal, uma vez que foi sempre consensual no que concerne aos valores e aos princípios — e um dos emblemas que carregou ao peito foi o do Torreense. Sendo que, refira-se, Manuel Cajuda continua a transportar no currículo um dado irrefutável no que à sua passagem pelo clube diz respeito: foi o último a garantir a subida de divisão do Torreense ao principal escalão do futebol português, na época 1990/1991.
«Fui o último treinador a levar o Torreense à Liga e na época passada fiquei muito triste pelo facto de o clube não ter conseguido a subida. Espero que esse recorde possa ser batido o quanto anos», assumiu, com a simplicidade e humildade que sempre demonstrou ao longo de toda a sua vida.
Relativamente ao feito alcançado ontem pelo emblema do Oeste, o antigo técnico não tem dúvidas em afirmar que se tratou de um marco histórico: «Um momento extraordinário. Primeiro, por ser uma equipa portuguesa a ganhar fora na Europa esta época. Depois, porque é um clube que está no meu coração e isso ninguém consegue tirar. Passei lá três anos fantásticos e tenho uma gratidão eterna pela forma como sempre fui tratado em Torres Vedras. Claro que o resultado foi surpreendente, devo confessar, mas foi mesmo fantástico. É um orgulho para o futebol português um clube da Liga 2 estar a bater-se desta forma na Europa.»
O discurso, sempre carregado de experiência, reforça as bases por que Cajuda sempre se regeu. E o segredo, antecipa, passa por continuar a olhar para o caminho da mesma forma como aconteceu até aqui. «Sem humildade dificilmente se triunfa. Além da competência, tem sempre de haver humildade. Claro que o horizonte é risonho, mas penso que não devemos ser exigentes com o Torreense. O que se pede é que continue a representar dignamente o clube e o país. Espero que o Torreense compre uma tacinha para colocar na sala de troféus. É assim que se constroem as memórias, ninguém pode ficar indiferente ao que o Torreense está a fazer», concluiu.
Aconteça o que acontecer daqui para a frente, o Torreense entrou, definitivamente, na galeria dos notáveis do futebol internacional. Porque além dos registos memoráveis de uma subida de divisão, dos títulos da antiga II Divisão B e da Liga 3, e da épica conquista da Taça de Portugal, os azuis-grená abrilhantaram o primeiro jogo europeu com uma vitória.
Diz o calendário que a tarefa da formação orientada por Luís Tralhão vai ser tudo menos fácil, mediante a qualidade dos adversários que se seguem, mas, em bom rigor, quem terá (mesmo agora) a ousadia de exigir o que quer que seja ao Torreense na presente edição da UEFA Europa League? Como se diz na gíria, tudo o que vier... é lucro. É, pois, tempo, de os adeptos do clube oestino começarem a programar as suas vidas para poderem deslocar-se a Leiria aquando dos jogos em casa — o mítico Estádio Manuel Marques, em Torres Vedras, não reúne os requisitos obrigatórios pela UEFA para receber encontros europeus, pelo que o recinto leiriense foi a alternativa indicada ao organismo —, e, numa perspetiva ainda mais otimista, tentarem organizar-se para acompanharem a equipa à Hungria (Ferencvaros), a Espanha (Real Sociedad) ou à Polónia (Lech Poznan).
Intocável é mesmo o que está feito: o Torreense pintou a Europa de azul-grená. É o orgulho do Oeste que extravasa além-fronteiras. E é também o tão bonito e nobre sentimento português que exulta por esse Mundo fora. O Torreense pode (e deve) orgulhar-se de ter elevado bem alto a bandeira nacional.