É preciso um novo nome para a ‘história’ do Torreense (crónica)
É também nestas alturas que dá jeito ter Jon Fosse por perto. E talvez ele até nem se importasse de deixar Grotten, residência oficial cedida pelo estado noruguês como reconhecimento pelo valor do legado cultural do Nobel da Literatura, para ir conhecer a história do pequeno Torreense.
Em menos de meia-hora o escritor metia-se em Lillestrom e ajudava-nos a contar mais um episódio da epopeia do bravo clube que saiu de Torres Vedras para ir estrear-se nas competições Europeias na outra ponta da Europa, chegou lá e fez do viking um… Cabeçudo.
Mas esta é a nossa forma simplista de fazer o relato. Falta-nos claramente aquilo que aqui seria essencial e que fez do autor norueguês mundialmente conhecido. Afinal, quando lhe atribuiu o maior prémio que um escritor pode receber, foi a «escrita que dá voz ao indizível» que o comité Nobel enalteceu.
«Indizível» é uma ótima forma de dizer «história». De afirmar que é cada vez mais incrível aquilo que o clube da Liga 2 continua a fazer, meses depois de ter conquistado a Taça de Portugal, batendo o Sporting na final.
No primeiro jogo europeu de sempre do clube do Oeste, a equipa de Luís Tralhão mostrou que ainda há mais por escrever. Chegou ao 1-0 logo aos 23’ por Alfaro após belo cruzamento de David Bruno, e a vantagem não surpreendia quem estava a ver o jogo.
Já foi estranho ver o lateral espanhol ficar no Torreense depois da bela época que fez no ano passado. Mais difícil será imaginar que depois de se mostrar a este nível na Europa, ninguém vejo o óbvio. Agradece o Torreense que tem no capitão um líder e alguém que consegue desequilibrar qualquer jogo. Fez um jogo irrepreensível em termos defensivos e juntou-lhe a assistência para o 2-0.
O Torreense levou a lição muito bem estudada sobre o adversário e conseguiu controlar o jogo, mesmo quando entregou a bola, fechando com competência e espreitando sempre as saídas rápidas em contra-ataque, sobretudo nas asas de Dany Jean.
A abrir a segunda parte, o sotaque espanhol deste triunfo ficou ainda mais carregado. Depois de Alfaro, foi Pozo quem marcou o segundo golo, com assistência do capitão Javi Vázquez.
E depois foi sofrer. Porque não há epopeias escritas sem sofrimento. Nem precisamos de ser Jon Fosse para o saber.
O Lillestrom reduziu a 11 minutos do fim, acreditou que podia dar a volta e a crença ganhou mais força quando Jatta, que entrara aos 65’, foi expulso aos 85’ e deixou o Torreense com 10.
Mas nem assim. E o que fica escrito é que o Torreense fez ainda mais história. Conseguiu o indizível, aliás.
O extremo angolano passou quase incógnito em Portugal, quando representou o Leixões na temporada 2017/18, a primeira experiência fora do país de origem. A cumprir a terceira época no Lillestrom, mostrou-se agora a Portugal sendo o mais inconformado do conjunto nórdico. Tentou sempre levar a equipa para a frente, mas faltou-lhe melhor companhia. Acabou com uma assistência que já não valeu de muito.