O tempo, esse aliado de João Moutinho
Uns desafiam só os adversários. Outros desafiam também o tempo. João Moutinho pertence ao segundo grupo de futebolistas. A 8 de setembro vai entrar na ternura dos 40, enquanto continua a competir ao mais alto nível com a camisola do SC Braga, a quinta da carreira de sénior, após honrar os emblemas de Sporting (2003, primeiro na equipa B, a 2010), FC Porto (2010 a 2013), Mónaco (2013 a 2018) e Wolverhampton (2018 a 2023).
Pela mão de José Peseiro, numa das melhores decisões do longo percurso do treinador português, o médio estreou-se no futebol dos graúdos de leão ao peito, num Sporting-Pampilhosa para a Taça de Portugal, a 4 de janeiro de 2005, aposta num jovem, à data, de 18 anos. É pensar, caro leitor, no que viveu nos últimos 21 anos de vida para perceber a dimensão do trajeto de João Moutinho.
No mês seguinte, a 24 de fevereiro, debutou como titular nas competições europeias, triunfo nos Países Baixos sobre o Feyenoord, por 2-1, na 2.ª mão dos 16 avos de final da Taça da UEFA que os verdes e brancos perderiam em casa para o CSKA Moscovo. Na banheira de Roterdão, em mais uma viagem inesquecível como enviado-especial de A BOLA, juntamente com o Mário Nóbrega, o Rui Baioneta e o Sérgio Miguel Santos, coube-me fazer a apreciação individual aos jogadores leoninos. Melhor em campo: João Moutinho.
«Está lançado para voos de maior amplitude», assim terminava o texto em tom naturalmente elogioso.
Inteligência, ordem, critério, liderança, fiabilidade, resiliência, ora soldado, ora general, sempre pronto para batalhar, atributos de que apenas os predestinados se podem orgulhar. A idade deixou de ser uma sentença lavrada no cartão de cidadão e passou a ser somente uma constatação. Se duvida, concentre-se em João Moutinho.
Cristiano Ronaldo é, talvez, o símbolo máximo desta nova era. Thiago Silva, outro quarentão, parecia um menino na estreia pelo FC Porto em duro embate com o Benfica nos quartos de final da prova rainha que sorriram aos dragões com golo solitário de Bednarek, o parceiro do brasileiro no eixo defensivo.
Uma geração que soube aproveitar os benefícios dos avanços na preparação física, na nutrição, na recuperação entre jogos de um calendário cada vez mais exigente e menos humano. Mas a longevidade resulta, sobretudo, de uma combinação rara de ética de trabalho, disciplina diária e de aquilo a que hoje se chama de treino invisível. Em suma: profissionalismo.
João Moutinho é um dos exemplos perfeitos deste novo paradigma — a qualidade nunca envelhece.
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