Tabuleiro da ponte Hintze Ribeiro cedeu a 4 de março de 2001
Tabuleiro da ponte Hintze Ribeiro cedeu a 4 de março de 2001

Entre-os-Rios: 25 anos não apagam a dor

Foi a 4 de março de 2001 que se deu uma das maiores tragédias de que há memória. Morreram 59 pessoas, só foram recuperados 29 corpos

Passam-se esta quarta-feira, 4 de março de 2026, precisamente 25 anos, um quarto de século, sobre uma das maiores tragédias da história de Portugal, quando o país foi abalado, na noite de um domingo até ali pacato, pelo colapso súbito da ponte Hintze Ribeiro, que ligava Entre-os-Rios, concelho de Penafiel, a Castelo de Paiva. Tudo aconteceu por volta das 21h15, quando a centenária ponte, construída na última década de 1800, cedeu.

Ao Rio Douro caíram um autocarro, com 53 pessoas, que regressava de uma excursão, e seis carros ligeiros, com seis pessoas a bordo. Todas as 59 pessoas perderam a vida e apenas 23 corpos seriam recuperados nos dias seguintes. A tragédia teria efeitos incalculáveis para a relativamente pequena comunidade de Castelo de Paiva, de onde eram oriundas 54 das pessoas que morreram e dependiam da ponte Entre-os-Rios para grande parte da sua vida quotidiana.

A gigantesca operação de socorro juntou meios de emergência de várias localidades, entre Bombeiros, mergulhadores e forças do Exército, mas as condições para as buscas no rio eram sobejamente complicadas. Nas vésperas da tragédia, tinham-se registado chuvas incessantes e o rio apresentava um caudal elevado, na ordem dos 8000 m3/s, e águas escuras e turbulentas. Foram abertos 47 processos contra o Estado na Justiça e as famílias foram indemnizadas num valor total de 5,82 milhões de euros, mas a responsabilidade criminal caiu no vazio. A 21 de outubro de 2006, o Tribunal de Castelo de Paiva absolveu os seis engenheiros responsáveis pela construção da infraestrutura e que estavam acusados de negligência.

A investigação feita concluiu que a vulnerabilidade da ponte estava nas fundações, já que o quarto pilar, construído numa estacaria de madeira enterrada na madeira, tinha ficado exposto pela erosão e pela extração de areia do fundo do rio, que removeu sedimentos que ajudavam a sustentar a estrutura. Vários alertas para a fragilidade da infraestrutura foram dados nos anos anteriores, mas nada foi feito.

Após a tragédia, o Governo decretaria dois dias de luto nacional e acorreram às cerimónias fúnebres em Castelo de Paiva milhares de pessoas. Nem 24 horas se passaram até Jorge Coelho, então ministro do Equipamento Social, assumir responsabilidades e demitir-se. No local do desastre cresceu o Anjo de Portugal, um memorial de homenagem às 59 vítimas, com os nomes das pessoas que perderam a vida naquela fatídica noite, e onde são deitadas ao rio 59 flores a cada 4 de março.

Foi o que aconteceu esta quarta-feira, com a presença de Miguel Pinto Luz, ministro das Infraestruturas e da Habitação, que assegurou que o Governo continua a trabalhar para que uma tamanha tragédia não se repita.

«Hoje viemos homenagear as vítimas e as famílias, mas não queremos que isto se repita. Nós, enquanto governantes (…), temos que nos responsabilizar e corresponsabilizar por garantir que não mais, no futuro, volte a acontecer uma tragédia como aquela que aconteceu aqui. Não pode haver infraestruturas em risco. Não pode haver imprevidência injustificada. Não pode haver qualquer desinteresse por esses bens maiores que são a vida e a integridade física dos cidadãos», disse o ministro, anunciando ainda a abertura do concurso o público para a construção da fase final do IC35 entre que irá ligar Penafiel a Castelo de Paiva, num investimento de 91 milhões de euros, cumprindo assim uma das promessas feitas há 25 anos pelo Governo de António Guterres e que nunca foi cumprida.