Schjelderup é um bom exemplo a seguir pelos jovens talentosos que pretendem fazer carreira — Foto: ROGÉRIO FERREIRA/KAPTA+
Schjelderup é um bom exemplo a seguir pelos jovens talentosos que pretendem fazer carreira — Foto: ROGÉRIO FERREIRA/KAPTA+

Vitória para o clássico

O Benfica vive há muito a incómoda realidade de não poder sequer empatar e era mais do que nunca fundamental vencer o Gil Vicente. Visão de golo é o espaço de opinião de Rui Águas, treinador e antigo avançado internacional português

Tal como era esperado, o início de jogo foi complicado para o Benfica em Barcelos. O Gil Vicente fez as honras da casa, confirmando com orgulho o seu bom momento e contrariando a procura do Benfica pela superioridade. A pressão subida e a intensidade gilistas impediam a aproximação à área, conseguindo manter o Benfica longe da sua baliza.

Para este jogo, o Benfica mudou pouco, como se esperava, tendo em conta a ameaça que o trajeto interessante do seu adversário representava. António Silva foi uma das poucas novidades, no seu caso relativa, porque previsível, pela alternância regular que tem mantido com Tomás Araújo. Prestianni também foi aposta, com a mesma dinâmica que tem convencido Mourinho, aparentemente sem marcas, depois da grande tempestade que viveu.

Pavlidis, desta vez sem marcar, mas como sempre muito ativo e importante, percorreu com mais frequência o lado direito, quer no apoio frontal, quer na desmarcação de rutura, dividindo o espaço atacante com Rafa, que ocupou o lado oposto. Rafa foi, desta vez, um avançado mais declarado e não um segundo avançado como vem sendo. No centro do jogo, Mourinho optou novamente por dois médios, repetindo o obrigatório Aursnes, mestre da coordenação e do passe, novamente acompanhado de Barreiro, um verdadeiro operário que defende por dois e ainda aparece na área contrária.

Como sabemos, o Benfica vive há muito a incómoda realidade de não poder sequer empatar e, antes do clássico decisivo que aí vem, era mais do que nunca fundamental conseguir a vitória. Iniciar bem a semana era o que se pretendia. A vitória foi conseguida com esforço e mérito, na sequência sempre pesada da eliminação europeia.

Resultado suado, mas justo, combatendo as dificuldades que o Gil colocou no início do jogo. Dificuldades essas que, na segunda parte, aumentaram com o episódio de Aursnes. A saída do mais importante jogador da equipa deixou marcas e, pouco depois, uma distração grave provocava a dúvida no desfecho do jogo. Sentindo o perigo, o Benfica reagiu de forma imediata, até ver conseguida a preciosa vantagem.

Nota para mais uma demonstração categórica e decisiva de Schjelderup e para o incrível registo de António Silva. Com tão pouca idade, chegou aos 100 jogos pelo Benfica, conseguindo ainda assinalar este marco importante com um dos golos da equipa.

Saber esperar

Schjelderup é um bom exemplo a seguir pelos jovens talentosos que pretendem fazer carreira. Trabalhar bem diariamente e saber esperar são duas virtudes obrigatórias para que os sonhos futebolísticos se realizem. O jogador norueguês tem feito o seu caminho em crescendo, suportando os normais períodos de pouca utilização, resultantes da concorrência que sempre existe nos clubes grandes.

Neste tipo de casos, a humildade e persistência, somados a um bom ambiente familiar e a um agente racional, que não tenha demasiada pressa em ganhar dinheiro, são ótimos condimentos para uma carreira de sucesso. Agarrar a oportunidade, como diziam os antigos, é o que vem fazendo com brilho o habilidoso ala do Benfica, mais uma vez protagonista em Barcelos.

Estratégias

É sabido o défice existente entre as nossas equipas médias no confronto com os três mais poderosos clubes, normalmente colecionadores de troféus. A tendência normal das equipas mais modestas, principalmente nas visitas aos grandes, é, muitas vezes, além de cerrar fileiras e rezar aos céus, prescindir do ponta de lança, optando por um jogador mais móvel e rápido.

Sacrificar o avançado titular da equipa mais débil já foi quase uma regra e representava mais um reforço moral para a pouca crença do próprio mister, mas que no fim raramente resultava. Em vez de se manter a estrutura habitual, escolhia-se a surpresa e a teoria da velocidade.

Hoje, as equipas procuram exibir o seu futebol, sem alterar o perfil do seu jogo habitual. As nuances táticas a que se recorre, em função do poderio adversário, são mais territoriais. Pressionar ou esperar, mais à frente ou mais atrás. Nesta jornada, o golo do Gil Vicente, marcado por Héctor Hernández, que ainda pôs em causa a vitória do Benfica, resulta da valência extra que um avançado sempre representa. 

Faz parte

«O risco faz parte» e «não há jogadores insubstituíveis» são duas expressões historicamente futeboleiras, mas a verdade é que há ausências de jogadores mais difíceis de mascarar.

O intervalo dos jogos traz a interrupção do esforço e o desejado descanso, mas para quem está muscularmente fragilizado, traz também o arrefecimento muscular e a necessidade de reativação para o segundo tempo. Mesmo que na atualidade os meios de avaliação física sejam bem mais precisos, consegue-se imaginar como este processo natural pode ser arriscado para quem já está clinicamente sinalizado.

Durante a minha carreira, passei por várias lesões musculares na face posterior da coxa, tal como Aursnes em Barcelos. Por vezes, pensava que não aguentaria o esforço e acabava por conseguir jogar, mas também me aconteceu o contrário. Por isso, há sempre uma margem de dúvida e risco, que mesmo a evolução da ciência ainda não consegue anular.

A perspetiva de Aursnes jogar o clássico é agora mais duvidosa. Ser obrigado a sair, a poucos dias do jogo capital, não deixa bons sinais. A maturidade do jogador e o conhecimento do próprio corpo pode, no entanto, e como prevenção, ter precipitado a sua saída. Era bom conseguir inverter o que, nesta altura, parece improvável.