A BOLA foi medir o pulso junto dos jornalistas estrangeiros que acompanham a Seleção de Portugal sobre o debate do momento: Cristiano no onze, sim ou não?

Cristiano Ronaldo no onze, sim ou não? O que pensam os jornalistas estrangeiros

Debate em torno do capitão da Seleção divide opiniões em Portugal, mas qual o veredicto da imprensa internacional que acompanha o dia a dia em Palm Beach? Fomos saber...

PALM BEACH GARDENS — Palm Beach é, por estes dias, o centro do Mundo para a comitiva portuguesa, mas também um ponto de atração mediática inquestionável para a imprensa internacional. O empate recente diante da RD Congo fez disparar os alarmes e trouxe de volta a discussão que teima em não desaparecer: deve Cristiano Ronaldo manter-se no onze inicial de Roberto Martínez? Ouvimos sete jornalistas de diferentes cantos do planeta que acompanham a Seleção de Portugal na Florida e as respostas mostram que o estatuto do camisola 7 continua a recolher uma enorme dose de respeito, ainda que com nuances táticas importantes.

Para Lourdes García Campos, da pública RTVE (Espanha), a discussão em si já faz parte do ecossistema que envolve o craque português.

«Tudo o que gera Cristiano Ronaldo vai a debate, faça o que fizer. Se o faz bem, se o faz mal ou se o faz regular. Mas não vejo como podem querer que saia da equipa», diz a jornalista, sublinhando que, independentemente do rendimento coletivo, os holofotes acabam sempre por se centrar na figura do capitão. 

Uma visão partilhada por Artur Quezada, da TNT Sports Brasil, que recorda que este fenómeno não é exclusivo de Portugal: «Quando se tem uma superestrela numa seleção, é normal. Nós temos isso com o Neymar, a Argentina com o Messi, a Inglaterra com o Harry Kane

Contudo, Quezada deixa um aviso claro sobre as consequências de uma eventual passagem de Ronaldo para o banco de suplentes: «Se trazes para um Mundial um jogador como o Cristiano Ronaldo, não é para deixá-lo no banco. Senão acabas por criar um outro problema: os holofotes vão todos para o Cristiano e não para a Seleção.»

«O cérebro dele continua muito ativo»

Vinda de paragens africanas, Monsurah Olatunji, jornalista nigeriana a atuar como freelancer para a Molat Sportgist, recorre à história do futebol para defender a permanência de Ronaldo em campo, minimizando o fator da idade.

«A idade é apenas um número. Francesco Totti retirou-se aos 45 anos, o Cristiano tem 41 e continua a correr. Talvez as pernas estejam mais fracas, porque não se pode comparar o Cristiano de 19 anos com este, mas o cérebro continua muito ativo e a experiência está lá. Como defesa, se olhares menos para ele, vais encontrar a bola no fundo da tua rede.»

Ronaldo durante o treino da Seleção em Palm Beach - Foto: MIGUEL NUNES

Também com uma visão muito focada no impacto emocional e histórico, Renata Ibarrarán, da TV Azteca (México), considera as críticas excessivas: «Parece-me muito grosseiro da parte dos adeptos dizerem que é um jogador que já não serve e que o devem tirar. Acho que o Cristiano está num grande nível, se calhar não no melhor, e o técnico deve focar-se em quem está melhor e não em quem é a estrela. E muitos jogadores gostariam de ter o nível do Cristiano aos 41 anos.»

«Ronaldo já não é intocável»

Do lado dos analistas que olham com maior crueza para o desenho tático da equipa surge Gustavo Szczupak, da ESPN Brasil. Para ele, o facto de a discussão existir já demonstra uma mudança de paradigma importante na Seleção Nacional.

«Independentemente da decisão de ele ficar ou sair, o que mais me chama a atenção é que ele já não é intocável no vosso País. E acho isso muito coerente. É triste, porque o tempo vai passando, mas é coerente», atira Gustavo, apontando o dedo ao encaixe de Ronaldo num modelo que pede maior mobilidade.

«Um ataque tão móvel e um meio-campo tão móvel como tem Portugal contrasta com o tipo de atacante em que o Cristiano Ronaldo se tornou. Eu iria mantê-lo na equipa, mas ficaria de olho para a terceira partida. Há um desencaixe.»

Uma visão tática partilhada em parte por Eugenio Salinas, da TNT Sports Chile, que se apoia noutras lendas do futebol para sugerir uma gestão diferente dos minutos do capitão.

«Estou com Thierry Henry. Acho que é o momento da nova geração, de que fluam os jovens. Não digo que ele se vá embora, digo que pode sair talvez a partir a 35’ minutos do fim, porque não se tem visto na melhor condição e já não soma tanto como antes», disse à reportagem de A BOLA.

«Como vão prescindir desta aura?»

A fechar o painel, a colombiana Sheyla García Pérez, enviada especial da Win Sports, desarma os argumentos táticos e foca-se no peso psicológico que o avançado tem para os adversários, defendendo a sua presença entre os titulares.

Sheyla Pérez, da TV colombiana Win Sports, e o irmão, operador de imagem com quem está a acompanhar a Seleção em Palm Beach - Foto: MIGUEL NUNES

«Eu não entendo como se pode discutir se ele deve jogar ou não. A aura do Cristiano tem algo único que te leva a olhá-lo e a perceber que ele é outra coisa. Quando o vês de perto, a treinar ou a jogar, sentes o peso de uma lenda viva. Deixá-lo fora do onze? Como é que o treinador vai prescindir disso? Quando estás em campo e olhas para ele, sentes o mundo inteiro ali. E para os adversários é um impacto terrível. Ele pode não estar no momento mais viral ou vistoso, mas joga com o coração e a sua nobreza lidera esta equipa. Para mim, Portugal é favorito ao título com ele a comandar no relvado. Não há como tirá-lo», concluiu Sheyla Pérez.

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