'Direito ao golo' é o espaço de opinião em A BOLA de João Caiado Guerreiro, jurista

A venda do Mundial e o poder da FIFA

'Direito ao golo' é o espaço de opinião em A BOLA de João Caiado Guerreiro, jurista

A FIFA quer vender o Mundial que deve ter sido o maior evento desportivo de sempre. Os números são impressionantes: 1248 jogadores; cerca de 300 mil pessoas acreditadas envolvidas na organização; mais de 6,8 milhões de espectadores nos estádios. Foram 104 jogos em 39 dias. Na final estavam os presidentes dos três países organizadores — Estados Unidos, México e Canadá —, bem como o rei de Espanha e o primeiro-ministro espanhol. E, no meio deles, Gianni Infantino.

Se queriam uma imagem do enorme poder do organismo, ali estava ela: Infantino tratado ao nível de um chefe de Estado. Mas, pelos vistos, isso não chega. Infantino não gosta de críticas e acabou de publicar um comunicado em que acusa os seus críticos de estarem «movidos pelo ódio». E logo a seguir anunciou a venda do Mundial!

É evidente que o presidente da organização que gere o futebol internacional é alvo de muitas invejas: muitos dos seus críticos não terão outra razão senão a de querer ocupar o seu lugar. Mas também é verdade que a FIFA é uma organização pouco transparente e muito fechada. O seu presidente beneficia do estatuto simbólico de um chefe de Estado, mas sem estar sujeito às exigências de transparência e de prestação de contas que se exigem aos chefes de Estado.

Para começar, a FIFA está sediada na Suíça, um país que acolhe inúmeras organizações internacionais. Pela própria natureza dessas entidades, a supervisão das suas atividades é particularmente complexa, já que a maior parte dos efeitos das suas decisões ocorre muito para além do território onde estão sediadas. Ao mesmo tempo, os postos de trabalho, a riqueza gerada e o prestígio associados à presença destas organizações representam benefícios significativos para o país anfitrião.

O poder do futebol é tanto que a investigação criminal de maior impacto sobre a FIFA foi conduzida pelas autoridades norte-americanas, no tempo de Sepp Blatter, levando à sua queda. A corrupção foi o tema central. Blatter viria, contudo, a ser absolvido pelos tribunais suíços, onde decorreu o julgamento por ser esse o país da sede da Federação Internacional. Hoje, num contexto em que o futebol ganha cada vez mais peso nos Estados Unidos, é legítimo perguntar se uma investigação com semelhante alcance encontraria o mesmo contexto político e institucional.

Esta questão da supervisão da FIFA não é única. Quanto maior é o poder destas organizações internacionais, mais evidente se torna o défice de escrutínio que as rodeia. Por ironia do destino, Blatter é hoje um dos críticos de Infantino e defende, segundo afirma, a transparência que não aplicou enquanto responsável máximo.

É neste contexto que Infantino quer vender 20% do negócio da organização dos Mundiais de futebol. FIFA Forward Enterprise será a sociedade que deterá esse negócio e que, segundo ele, valerá 20 mil milhões. Dizem os media que um grupo de investidores liderado por Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, genro de Donald Trump, estará interessado na operação. Esta questão já está a gerar polémica. Nos Estados Unidos, vários responsáveis políticos defendem que devem ser investigadas as relações de negócio entre a FIFA e elementos da família Trump. Veremos no que dá, mas uma organização com a dimensão económica, política e mediática da FIFA não pode continuar a exigir deferência institucional sem aceitar um escrutínio proporcional ao poder que exerce.

Ontem, escrevo a 31 de Julho, a UEFA anunciou um boicote à venda do Mundial. Os países Europeus não participarão em competições FIFA se o plano não for retirado. Porém, o génio já saiu da garrafa, e a venda de 20% do Mundial dá à FIFA quatro mil milhões para comprar as boas vontades das Federações nacionais.

O modelo de negócio é o mesmo que a Fórmula 1 adotou há muito tempo. Mas o futebol e a Fórmula 1 não são a mesma coisa. Pelo menos, em termos de poder político: nenhum evento de F1 reúne tanto poder político como uma final de um Campeonato do Mundo. E ninguém trata o presidente da Federação Internacional do Automóvel (FIA) como um chefe de Estado. O problema nunca foi o poder da FIFA. O problema começa quando uma organização pretende usufruir do estatuto de um Estado sem aceitar os deveres de transparência e de prestação de contas que esse estatuto inevitavelmente impõe.

Esta semana o Direito ao Golo vai para o Benfica e para Marco Silva, venceu o St. Gallen, na Luz, e convenceu. Quem convenceu também foi António Silva que fez um grande jogo, boa sorte para ele em Inglaterra.

A iniciar sessão com Google...