O novo Real Madrid
MADRID — Para o Benfica, talvez tivesse sido melhor disputar este jogo europeu contra o Real Madrid de Xabi Alonso do que ter pela frente o que agora é treinado por Álvaro Arbeloa, o discípulo que hoje se verá, cara a cara, com o seu admirado professor e amigo, José Mourinho.
Para Arbeloa, este será o seu quinto desafio à frente da equipa. No primeiro, e no dia seguinte à nomeação como novo treinador, cometeu um erro de excesso de confiança — foi a Albacete, deixando em casa vários dos habituais titulares, e o castigo foi ser eliminado (2-3) da Taça do Rei por uma equipa da II Divisão.
Depois disso, chegaram três vitórias seguidas — a primeira contra o Levante (2-0) de Luís Castro, depois a goleada europeia ao Mónaco (6-1) e a terceira, sábado, no difícil campo do Villarreal (2-0).
Está à vista de todos que, depois da mudança de técnico, o Real Madrid melhorou, parece outro, e a pergunta que surge é — por que isso acontece se os jogadores são os mesmos e a formação em que Arbeloa tem vindo a confiar pouco difere da que apresentava Xabi Alonso?
Houve, é certo, mudança de preparador físico, que agora é o italiano Antonio Pintus, mas ele não faz milagres, e não é em menos de duas semanas, por muito bom que seja, que consegue que os jogadores tenham forças para correr mais e mais depressa, exerçam uma pressão constante, sejam capazes de despender um grande esforço na ajuda solidária entre uns e outros e possam manter a mesma concentração e o mesmo ritmo do primeiro ao último minuto, como se viu em Villarreal.
A resposta a tudo isso está na muito mais positiva atitude dos futebolistas — algo não ia bem no balneário. Ou Xabi não lhes soube transmitir as suas ideias, ou eles, em desacordo com o que o técnico lhes pedia, não as quiseram assimilar.
Arbeloa, bom conhecedor do que acontece no clube, soube detetar o mal e, longe de procurar introduzir grandes e complicados sistemas táticos, procurou fazer uma gestão inteligente da situação, apelando ao sentido comum dos seus pupilos — fazer-lhes ver o quão privilegiados são em pertencer a um clube como o Real Madrid, que o único que lhes exige é que sejam respeitosos com os seus valores, competitivos, ambiciosos e tenham a mentalidade vencedora de ganhar, ganhar e voltar a ganhar.
Pelo visto até agora, há que reconhecer que Arbeloa tem tido êxito na sua missão. A questão está agora em saber se esta nova dinâmica é apenas passageira — a que costuma surgir quando há um novo treinador — ou se irá manter-se ao longo da temporada. O jogo desta noite ajudará à resposta.
O Real Madrid regressa hoje ao estádio onde, há quase 12 anos, deu início a um novo e glorioso ciclo da sua história: o golo de Sergio Ramos, já passados os 90 minutos da final contra o Atlético Madrid, permitiu a conquista da 10.ª Champions, à qual mais cinco se seguiram. Dos que foram protagonistas dessa noite inolvidável, só voltam a estar hoje na Luz Courtois, que então defendia a baliza do Atlético Madrid, e Carvajal, que continua no Real, mas estará no banco dos suplentes. O resto deverão ser caras novas na formação que Arbeloa apresentará: o guardião belga tem o lugar assegurado; Valverde será o defesa-direito, mas com liberdade de movimentos noutras zonas do campo; no lado contrário, Carreras regressa à que foi a sua casa; e no centro da defesa, à espera que Militão e Rudiger se recuperem, estarão os jovens Asencio e Huijsen.
No meio-campo, Tchouaméni desempenhará funções mais defensivas que as de organização de jogo, de que estarão incumbidos Arda Guler (ou Camavinga) e Bellingham. O trio atacante estará formado pelo sempre muito ativo argentino Franco Mastantuono, Vinícius Júnior, que parece querer voltar à melhor das suas versões, e Mbappé, goleador-nato, que nesta época leva já marcados 34 golos em 28 jogos, numa incrível média de 1,21 golos por desafio.
O Real Madrid quer ganhar este jogo para poder ficar entre os oito primeiros e evitar os play-offs que o Benfica tanto deseja alcançar. Liberto desse compromisso e eliminado da Taça do Rei, a turma de Arbeloa teria um mês de fevereiro tranquilo, sem desafios a meio da semana, o que lhe permitirá acumular forças para o resto da temporada e dar ao técnico a possibilidade de, com tempo e sem pressão, fortalecer a unidade do grupo e poder ocupar-se de alguns aspetos técnicos que a equipa necessita melhorar.
Ter de vencer um adversário em franco progresso não será tarefa fácil para o Benfica, mas no futebol só algo será impossível se faltar a fé, a confiança e um pouco de sorte, que às vezes também ajuda.
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