A batata quente de Infantino
Já como secretário-geral, Gianni Infantino revelava uma personalidade forte, inteligente e ambiciosa. Fatores muito importantes para quem exerce um dos cargos mais apetecíveis da geopolítica mundial, ultrapassando em larga escala a mera dimensão desportiva (que, considerando a implementação do futebol no planeta, já seria suscetível de grande amplitude.
O agora Presidente da FIFA, isso é inequívoco, pretende deixar marca e legado em diversas áreas. Desde o apoio transversal e reforçado ao desenvolvimento do jogo nos quatro cantos do mundo, à introdução de ajustamentos importantes nos regulamentos dentro e fora de campo, passando por uma estrutura financeira muito consolidada, e que faz da Federação Internacional de Futebol uma das empresas mais saudáveis e lucrativas do mundo.
Pensa em grande, Infantino. A passagem para 48 seleções das fases finais de Mundiais e a institucionalização de um Mundial quadrienal para equipas de clube são apenas duas cerejas no topo de um bolo cujos ingredientes são cozinhados com pinças, num tabuleiro de diplomacia desportiva que envolve as seis confederações continentais, muitos stakeholders, das mais diversas origens, e os parceiros essenciais do jogo (futebolistas, técnicos, clubes). Mas esta mega-estrutura tem custos e não apenas contabilizáveis em folhas de Excel ou em orçamentos previsionais.
Tem custos sob a forma de cedências, de curvas e contra-curvas, e de derrapagens. Provavelmente, passos atrás para poder dar mais em frente. Mas a atribuição do Mundial 2026 a três países da CONCACAF serve, na realidade, para satisfazer os interesses e as motivações que surgiram de um deles, os Estados Unidos da América. De resto, se olharmos para o figurino geográfico do torneio de junho e julho, facilmente o compreendemos: duas cidades do Canadá, três cidades do México e… onze cidades dos EUA, de leste a oeste, justamente um ano depois de terem sido sedes do tal Mundial de clubes que muitos criticam, pelo adensamento dos calendários internacionais na alta competição, e outros defendem como alternativa lógica a provas anuais que não prestigiavam, em boa verdade, nem clubes, nem países organizadores, nem a própria FIFA.
Dito isto, é notória a aproximação e o engajamento político de Gianni à administração norte-americana, cujo pináculo surgiu em Washington, durante o sorteio da fase final, com a outorga a Donald Trump do novo FIFA Peace Prize, num quadro de justificações e gongorismos protagonizados pelo próprio Presidente da FIFA, no mínimo muito discutíveis…
Ademais, com a ordem global a ser alvo de uma oscilação forte, e num momento em que as areias movediças são o que mais caracteriza a situação política e militar em diversas zonas do globo (designadamente no Médio Oriente, zona em que Infantino procura, também, reforçar influência e criar estruturantes laços financeiros), levantam-se agora dúvidas brutais quanto a diversos graus de envolvimento na maior competição mundial do desporto-rei. Por exemplo, após o afastamento da Rússia de todas as competições, como resultado do início do conflito com a Ucrânia, e por força de uma apropriação territorial que roça claro desrespeito pelo quadro mais elementar do Direito Internacional, e de uma posição híbrida em relação a Israel, cuja atitude beligerante em relação ao Irão, recorde-se não é de agora (a Guerra dos 12 dias, em junho do ano passado, é disso a prova cabal), o que fazer em relação aos Estados Unidos que, numa lógica equidistante de observação geopolítica, incorreu igualmente numa ultrapassagem das linhas vermelhas do diálogo diplomático (que decorria), e interveio militarmente em território iraniano?
São legítimas todas as questões em torno desta situação e Gianni Infantino tem, verdadeiramente, um desafio muito complexo a ultrapassar.
Recordo-me de, em 1998, ter assistido, no Stade Gerland, em Lyon, a um jogo impossível entre Estados Unidos e Irão, para o Mundial organizado em França. A FIFA, curiosamente, até um árbitro não alinhado designou, o suíço Urs Meier. Nesse momento, a paralela diplomacia do futebol fez mais pelo restabelecimento dos contactos entre dois países desavindos do que o ar condicionado dos gabinetes de Genebra, de Washington ou de Teerão.
Agora, a situação é bem distinta. Desde logo, por uma questão de tempo. O Mundial começa a 11 de junho, isto é, amanhã. Escasseia o tempo para encontrar plataformas de entendimento, à medida que a operação conjunta EUA/Israel continua a avançar no terreno, e que a República Islâmica do Irão retalia, envolvendo-se no conflito, por força das posições de apoio a Teerão, de grupos para-militares como o libanês Hezbollah. O crescendo na intensidade e frequência das ações militares faz perceber que será difícil estancar esta hemorragia nos próximos dias ou semanas.
Por outro lado, Trump fez questão de mostrar total ambiguidade, quando sublinhou que os iranianos seriam «bem vindos» aos Estados Unidos, mas logo atalhou que tal era desaconselhável, por razões de segurança.
É uma mão cheia de nada, e outra de coisa nenhuma, porque se torna evidente, neste momento, que não existem, sequer, condições de política desportiva para que a seleção do Irão cumpra o sempre acalentado sonho de estar presente na fase final de um Mundial de futebol.
O Presidente da FIFA criou um cenário aparentemente perfeito, que se desmoronou como um castelo de cartas. Chama-se batata quente e é um problema sério que Infantino, muito por sua culpa, tem entre mãos.