Fredrik Aursnes médio norueguês de 30 anos, está no Benfica desde o verão de 2022
Fredrik Aursnes médio norueguês de 30 anos, está no Benfica desde o verão de 2022

Fredrik Aursnes e o regresso do caos

Bar Nilo é o espaço de opinião de Luís Aguilar, comentador desportivo

Há jogadores que fazem barulho porque gritam, porque driblam, porque surgem no momento certo e na fotografia perfeita. Outros, cada vez menos na sociedade do like e do festejo ensaiado, fazem barulho porque, quando não estão, tudo fica estranhamente calado, como se o mundo soubesse que falta uma peça invisível e essencial. No Benfica, esse jogador chama-se Fredrik Aursnes.

O norueguês não esteve contra o FC Porto e não vai estar em Arouca devido a lesão. A sua ausência é como uma palavra que ficou por dizer ou um acorde não tocado. Nota-se no silêncio que fica quando se tenta organizar o meio-campo e não há ninguém para dar sentido à sinfonia. Um faz-tudo, nem sempre onde rende mais, mas quase sempre melhor do que as alternativas. Tivesse o Benfica planeado melhor o plantel e talvez ele não fosse o único que parece funcionar em qualquer circunstância.

Nascido em Hareid, na Noruega, Aursnes passou pelos relvados do Hodd e do Molde antes de rumar ao Feyenoord por 750 mil euros. Um ano depois, o Benfica desembolsou 13 milhões. Muitos acharam demasiado por um jogador que tinha custado tão pouco aos holandeses. Hoje, tendo em conta muitas das contratações da atual temporada, parece uma ninharia.

No Benfica, jogou demasiadas vezes em posições que não eram as suas. E sempre cumpriu. Com a inteligência rápida de quem se adapta ao desconhecido sem bloqueios. Nunca se ouviu um protesto, um amuo, uma reclamação em público. Essa faceta também faz parte do tal silêncio que grita quando não está.

Não parte defesas com fintas impossíveis. Não faz vídeos virais. Não é tendência no Instagram, nem tema de memes que se repetem sem cessar. Aursnes é rotina e consistência. Seja qual for o jogo e o adversário. Não tem roupa para dias especiais e dias normais. Porque, para ele, todos os dias são iguais. Sem distrações, sem lamúrias, sem dúvidas.

Quando outros estão perdidos, mantém a organização e a simplicidade de processos. É como um restaurante de uma vila escondida que, por anos, nunca fecha, não tira folgas nem perde qualidade na ementa. Por muitos invernos que passem, quando lá chegamos sabemos que está aberto, que a comida é feita na hora e que saímos satisfeitos.

Com o regresso da dupla de meio-campo composta por Barrenechea e Ríos, titulares frente aos dragões, Aursnes mostrou aquilo que sempre foi: a peça que falta e sem a qual nada funciona. Após a lesão de Ríos, e com o seu regresso ao meio-campo a jogar com Leandro Barreiro, teve a capacidade de transformar um conjunto de cartas soltas num edifício sólido: escadas por onde a bola sobe, elevadores que levam o jogo para cima e saídas de emergência que tiram a equipa de apuros.

O plantel do Benfica de hoje podia escrever muitas cartas elogiosas para jogadores talentosos que passam, brilham num jogo e desaparecem no outro. Aursnes não entra nessa categoria. Entra naquela outra que diz muito sem fazer barulho. É o jogador que parece saber quando um colega vai errar e, antes que o erro aconteça, já está a tapar o buraco, a oferecer um passe simples, certo, pensado, calculado. Entende o jogo como quem lê um livro velho cheio de sentido, não como quem tenta impressionar com palavras bonitas, mas sem fundo.

José Mourinho já lamentou a sua ausência. Não é uma hipérbole dizer isso. É simples constatação: sem ele, o meio-campo volta a oscilar, a procurar referências, a perguntar ao vento qual deve ser o próximo passo. A sua ausência até abril pode parecer pouco no papel, mas no campo é uma eternidade. Numa equipa que luta apenas pelo segundo lugar, depois de ver o líder fugir com sete pontos de vantagem e de já não ter Europa nem Taça de Portugal, a falta de um jogador que dava ordem no caos pesa mais do que qualquer estatística individual.

No futebol moderno, onde todos procuram o próximo fenómeno, há jogadores que lembram que o jogo também se constrói com outra matéria. Paciência. Inteligência. Disciplina. Aursnes pertence a essa espécie rara. Não é um foguetão, é um farol. Não deslumbra, orienta. É o funcionário perfeito. Cumpre, resolve e, quando acaba o turno, deixa tudo a funcionar. O problema é quando não está. Porque aí percebe-se que os outros, alguns bem mais caros, ainda estão a tentar descobrir onde fica o interruptor.