Pavlidis na luta com Arruabarrena (Foto: Rogério Ferreira/KAPTA+)
Pavlidis na luta com Arruabarrena (Foto: Rogério Ferreira/KAPTA+)

A primeira parte do costume e a segunda de quase sempre (crónica)

Benfica entrou amorfo e Arouca marcou logo aos 7 minutos. Após o intervalo, as águias cresceram e, já com a segunda parte bem lançada, começou a 'revolução' de Mourinho. E no último suspiro o Benfica ganhou e o Arouca voltou a perder pontos já na compensação

O Benfica bateu o Arouca nos últimos suspiros de jogo (90+6) e continua a depender apenas de si próprio para chegar ao segundo lugar. E ganhou como tantas vezes esta época: arrancando com um primeiro tempo bem sofrível, a rondar mesmo o mauzinho, saltando depois, após o intervalo, para algo bem mais interessante e intenso. Do outro lado, o mau fado do Arouca continua: perdeu com o Sporting (1-2) sofrendo o último golo aos 90+6; perdeu com o FC Porto (1-3) sofrendo golos aos 90+1 e 90+8 e agora perdeu com o Benfica (1-2) com golo aos 90+6. Incrível.

«Uma coisa é jogar com Aursnes e Barreiro, outra é jogar com Barrenechea e Ríos», disse José Mourinho após o Benfica-FC Porto da jornada 25. E acrescentou: «Não digo que uns sejam melhores do que os outros, mas o perfil é completamente diferente». Como seria, então, em Arouca, com Ríos e Barreiro? E, já agora, como seria com Tomás Araújo e António Silva sem Otamendi ao lado? Não foi brilhante, apenas razoável. Sem anéis, mas com todos os dedos intactos.

Havia três dúvidas maiores em relação ao onze inicial do Benfica: Bah ou Dedic na direita? Lukebakio já no lugar de Prestianni? Sudakov, Ivanovic ou Rafa atrás de Pavlidis? Mourinho trocou de lateral, deu a titularidade a Lukebakio e manteve Rafa no onze. Podíamos escrever que não resultou. Porém, logo no arranque, algo mudou a perspetiva com que as duas equipas olhariam para o jogo: cruzamento de Diogo Monteiro, desvio de cabeça de Barbero, mão de António Silva, penálti, golo de Barbero ao minuto 7.

O Benfica até nem reagiu mal ao golo sofrido, com muita bola e a ir para cima do Arouca, mas sem criar perigo real. O mais próximo foi um desvio de cabeça de Bah, após canto de Lukebakio, com a bola a sair rente ao poste direito de Arruabarrena.

A primeira parte, após o golo do Arouca, teve muitos sentidos únicos: o Benfica cruzou muito, o Benfica teve muita bola, o Benfica goleou em cantos, o Benfica teve imensos remates bloqueados, mas quase tudo sem perigo. Era um Benfica sem o habitual capitão, sem o treinador em campo e quase sem alma. Espécie de águia sem penas e sem garras.

No final dos 45 minutos iniciais, excluindo dois remates sem jeito de Bah e de Rafa, o Benfica foi quase zero. Ou mesmo zero. Zero intensidade, zero velocidade, zero pressão, zero talento. Zero de Pavlidis, zero de Ríos e, sobretudo, zero de Rafa. Um desastre de primeira parte. Inexplicável para quem teve tanto tempo de descanso após o último jogo. O resumo da primeira metade era simples: um remate enquadrado para cada equipa. Sofrível e medíocre.

Que aconteceria ao intervalo? Chegariam as palavras de Mourinho, via provavelmente vídeo, para ‘chicotear’ mentalmente os jogadores do Benfica? Chegariam elas para adormecer os jogadores do Arouca, que foram sempre muito intensos e, sobretudo, vivaços durante os primeiros 45 minutos? Conseguiria o Benfica, após o tradicional mau arranque, uma segunda parte a impor respeito?

O segundo tempo começou quase como o primeiro. Com Barbero e Hyun-ju muito perto do golo. Logo a seguir, porém, o Benfica deu o primeiro sinal de reação, com Lukebakio, na direita, a simular e a rematar forte, com Arruabarrena a desviar para canto. E o segundo sinal de perigo surgiu na sequência desse canto. Schjelderup executou-o em arco e Ríos, de cabeça, sem levantar os pés e sem qualquer marcação, chegou ao empate. Fosse ou não devido a palavras mais fortes de Mourinho ao intervalo, o Benfica marcava, por fim, um golo. Um golo, aliás, esperado, pois o Benfica na Liga apenas não marcara no Dragão e em Tondela.

O golo animou as águias. O que era displicência passou a ser quase arrogância, a lentidão deu lugar à velocidade e o talento, por fim, apareceu. Sobretudo pelos pés de Lukebakio e Schjelderup. O Arouca desceu linhas e encostou quase todos os jogadores na área de Arruabarrena. Todos bem juntinhos e à espera que o fulgor encarnado amainasse. E, sempre que possível, de olho num raide até perto de Trubin.

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Só aos 65 minutos o Arouca mostrou que, ofensivamente, ainda estava vivo, com alguns arranques perigosos na direção de Trubin. Ao minuto 73, porém, farto de esperar por algo mais transcendente da parte dos seus jogadores, José Mourinho mexeu. Aliás, foi mais do que mexer. Foi uma revolução: Bah por Dedic, Rafa por Sudakov, Lukebakio por Prestianni e António Silva por Ivanovic. Dois avançados puros e Ríos a recuar para central. Espécie de 4x2x4, com Barreiro e Sudakov como médios, Prestianni e Schjelderup como alas e Pavlidis e Ivanovic mais fixos na frente.

Haveria tempo para o Benfica chegar à vantagem? Teria o Arouca forças para fazer o que ainda esta época não fizera (‘roubar’ pontos a um dos quatro primeiros)? Vasco Seabra respondeu quase de imediato. Primeiro, Djouahra por Puche, logo a seguir Sánchez por Popovic e Barbero por Nandín.

O jogo abriu-se ainda mais e passou a ser quase um jogo de ténis: bola lá, bola cá, embora mais bola lá (baliza do Arouca) do que cá (baliza do Benfica). E Mourinho, ainda mais farto de esperar, lança aos 85 minutos a última tentativa: Schjelderup por Anísio Cabral. O Benfica passa a uma espécie de 3x3x4: Dedic, Tomás Araújo e Dahl; Ríos, Sudakov e Barreiro; Ivanovic, Pavlidis, Anísio Cabral e Prestianni.

E é mesmo num dos últimos suspiros, aproveitando uma escorregadela de Arruabarrena num lançamento de bola, que Barreiro recupera a bola e lança Prestianni. O argentino cruza largo e, aos 90+6, Ivanovic remata cruzado e faz o 2-1 final. Vitória muito sofrida, sim, mas justa.