Richard Carapaz foi eleito o ciclista mais combativo do Tour2026. IMAGO - Foto: IMAGO

Carapaz, o menino da bicicleta da sucata que se tornou campeão olímpico

O equatoriano foi nomeado o Ciclista Mais Combativo do Tour, com os votos do público e do júri, depois de duas vitórias muito emocionadas que o vão deixar no oitavo lugar da geral na chegada hoje a Paris, onde cairá o pano desta 113.ª edição da Volta a França

Richard Carapaz foi eleito o ciclista mais combativo do Tour 2026 que este domingo termina em Paris. Na penúltima etapa, cortou a meta na frente, somando o segundo triunfo nesta 113.ª edição da Volta a França e desabou em lágrimas, emocionado.

Antes de ver Paris, o corredor de 33 anos, da EF Education-EasyPost, assegurou o merecido triunfo na classificação da montanha. «Acima de tudo, penso que a mereço, porque lutei muitíssimo neste Tour», confessou. «Quando partimos de Barcelona, sabia que não podia aspirar à classificação geral. Tinha um objetivo muito claro em mente, e concretizámo-lo com duas vitórias de etapa e a camisola às bolinhas vermelhas», contou, feliz.

Com esta atuação, a Locomotora del Carchi tornou-se o ciclista latino-americano com mais vitórias de etapa em Grandes Voltas (10)e deixou um país inteiro sonhar!

Quando venceu o Giro d'Italia em 2019 tornou-se o primeiro equatoriano a conquistar uma grande volta, mas a sua ascensão começou de forma humilde, com uma bicicleta encontrada num monte de sucata e foi marcada pela superação de um grave acidente que quase pôs fim à sua carreira.

O início improvável nas montanhas do Equador

Nascido em El Carmelo, uma pequena paróquia rural na província de Carchi, Richard Antonio Carapaz Montenegro cresceu no campo e o primeiro contacto com o ciclismo aconteceu de forma inesperada, quando o pai, Antonio, trouxe para casa um carregamento de sucata da cidade de Lago Agrio. No meio dos destroços, Richard, juntamente com as suas irmãs Marcela e Cristina, encontrou uma bicicleta BMX oxidada, sem selim e com os pneus vazios.

Apesar do pai a considerar inútil, Richard dedicou-se a recuperá-la, utilizando peças de outras bicicletas da sucata. Este veículo improvisado tornou-se o seu meio de transporte para a escola e para as tarefas familiares, percorrendo as exigentes e frias montanhas do norte equatoriano, a mais de 3200 metros de altitude. As subidas íngremes e o clima adverso forjaram a sua resistência desde tenra idade.

Os primeiros passos na competição e um grave revés

Aos 15 anos, cruzou-se com o do ex-ciclista Juan Carlos Rosero, que se tornou o seu mentor e o convidou para a sua escola de ciclismo, proporcionando-lhe o primeiro contacto com a competição e mais tarde, juntou-se à equipa amadora Panavial – Coraje Carchense e, em 2013, conquistou os primeiros títulos: o Campeonato Pan-Americano de Sub-23 e a Volta à Guatemala.

Contudo, o ano de 2014 trouxe-lhe o maior obstáculo da carreira.

Carapaz foi atropelado e ficou afastado das estradas durante seis meses. Os prognósticos médicos eram pessimistas, sugerindo que poderia não voltar a andar, e poucos acreditavam que regressaria ao ciclismo. Contrariando todas as expectativas, o jovem de Carchi recuperou e, em 2015, mudou-se para a Colômbia para competir pela equipa Strongman-Campagnolo.

Na Colômbia, tornou-se o primeiro estrangeiro a vencer a Volta da Juventude e conquistou uma etapa no Clássico RCN, o que despertou o interesse de olheiros europeus. Em 2016, viajou para Espanha para um período de testes de três meses na equipa Lizarte, onde venceu a Volta a Navarra, garantindo a primeira vitória de um ciclista equatoriano na Europa.

O seu desempenho chamou a atenção de Eusebio Unzué, diretor-geral da Movistar Team, que o contratou. Logo no seu primeiro ano, alcançou o segundo lugar no GP Industria & Artigianato e participou na Volta a Espanha, tornando-se o primeiro equatoriano a disputar uma grande volta.

O ponto alto da sua carreira chegou em 2019. Apesar de não iniciar o Giro d'Italia como líder da sua equipa, Carapaz soube aproveitar as oportunidades e conquistou a vitória final em Verona. Com este feito, não só fez história para o Equador, como também se tornou o terceiro ciclista latino-americano a vencer uma grande volta, depois dos colombianos Lucho Herrera e Nairo Quintana.

Richard Carapaz cimentou o seu lugar na história do ciclismo com uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 e a proeza de subir ao pódio nas três Grandes Voltas. O ciclista equatoriano é um dos apenas 20 atletas a alcançar tal feito.

No dia 24 de julho de 2021, apenas um dia após terminar o Tour de France, Carapaz viajou para o Japão e conquistou a medalha de ouro na prova de ciclismo de estrada dos Jogos Olímpicos. Consciente de que outros rivais eram mais rápidos num eventual sprint, o equatoriano lançou um ataque a 26 quilómetros da meta, juntamente com o norte-americano Brandon McNulty.

A dupla conseguiu uma vantagem de 40 segundos sobre o grupo perseguidor, mas Carapaz acabaria por se isolar nos quilómetros finais, pedalando rumo à vitória. Nem o calor intenso nem a humidade o impediram de garantir a primeira medalha olímpica do Equador no ciclismo e a terceira na história do país. O pódio, no Fuji International Speedway, ficou completo com Wout van Aert (Bélgica) e Tadej Pogacar (Eslovénia).

Com o terceiro lugar no Tour de France de 2021, ao lado de Pogačar e Vingegaard, Richard Carapaz juntou-se a um clube de elite de ciclistas que subiram ao pódio no Giro d'Italia, na Vuelta a España e no Tour de France. Esta lista exclusiva inclui lendas como Anquetil, Merckx, Hinault, Indurain, Contador e Froome.

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