O espírito de Mourinho sobre o Bernabéu
MADRID — Depois de Santiago Bernabéu, o Real Madrid não conheceu melhor presidente do que Florentino Pérez. Durante os seus dois mandatos, enriqueceu notavelmente as estruturas da instituição com a construção da cidade desportiva de Valdebebas e a modernização do estádio Bernabéu, promoveu a expansão internacional, saneou as finanças com rigorosa gestão e, tudo isso junto, fez com que o Real seja atualmente considerado o clube mais valioso do mundo.
No aspeto puramente desportivo, Florentino sempre foi um presidente intervencionista. Ao não existir internamente a figura do diretor desportivo, na prática é ele quem a exerce com a colaboração do seu homem de confiança, o diretor-geral José Ángel Sánchez, quatro mãos pelas quais passam o essencial de todas as decisões — certamente acertadas na sua grande maioria, como o confirma o invejável palmarés dos numerosos títulos conquistados pela equipa de futebol durante o seu mandato, entre os quais sete Ligas dos Campeões e outras tantas ligas nacionais, aos quais há a juntar os também muito importantes conseguidos pela secção de basquetebol.
Dentro da sua forma de atuar, Florentino sempre privilegiou a proteção aos jogadores. Figo, o primeiro a ser contratado, foi fundamental para a sua chegada à presidência; a ele seguiram-se os galáticos, mantendo sempre a política da compra de grandes figuras como Cristiano Ronaldo, Kaká ou Benzema e, mais recentemente, Kylian Mbappé. Com os treinadores, as coisas têm sido diferentes: o presidente não confia muito neles, aceita-os quase como um mal necessário e exige deles resultados imediatos. Não tem a mesma paciência de esperar como, por exemplo, o Arsenal com Arteta ou o Manchester City com Pep Guardiola. O seu legítimo objetivo é sempre o de que o Real Madrid ganhe, ganhe e volte a ganhar — e, se o tempo passa e isso não acontece, o técnico que estiver já pode ir fazendo as malas.
Durante os anos em que Florentino tem estado à frente do clube, passaram por ele 15 treinadores, desde Del Bosque a Arbeloa. Na realidade, foram 17 mudanças, já que Ancelotti e Zidane estiveram duas vezes. Vários deles tiveram uma curta permanência: Camacho apercebeu-se do poder dos jogadores e ele, que sempre sonhara ser o treinador da que tinha sido a sua equipa, ao fim de quatro meses pediu a demissão; três meses durou o seu sucessor García Remón; Rafa Benítez, sete; Lopetegui, quatro; Vanderlei Luxemburgo, onze; Carlos Queiroz aguentou uma temporada inteira; e o mais recente, Xabi Alonso, foi despedido sete meses depois de ter chegado. Durante os 14 anos de Diego Simeone no Atlético Madrid, houve dez mudanças de treinador no Real.
Sem contar Ancelotti e Zidane, que repetiram, José Mourinho foi o técnico que mais tempo permaneceu: três temporadas nas quais cumpriu bem a missão de terminar com a supremacia do Barcelona. Ganhou a liga espanhola com recordes de pontos e golos, mas não teve muita sorte na Champions, e dolorosa foi a eliminação nas meias-finais contra o Bayern. No Bernabéu, tudo se decidiu nos penáltis: os três especialistas, Cristiano Ronaldo, Kaká e Sergio Ramos, falharam e, contra isso, o treinador, por melhor que seja, nada pode fazer. Três anos que marcaram uma época, no final da qual Mourinho deixou o Real, no qual conta ainda, entre os adeptos, com muitos admiradores que não veriam com maus olhos um hipotético regresso.
A relação de Mourinho com Florentino Pérez continua a ser a melhor. Têm contacto direto e, no recente almoço de Natal que o clube ofereceu aos jornalistas, o presidente enviou-lhe, através de A BOLA, um forte abraço, com o desejo de que possam voltar a ver-se na visita do Real Madrid a Lisboa para jogar contra o Benfica na Champions. Não seria de estranhar que, se Mourinho estivesse livre, Florentino pudesse ter a tentação de o tentar recuperar para a causa e oferecer-lhe o lugar deixado vago por Xabi Alonso. Desta vez não aconteceu, mas a porta está aberta para que algum dia possa voltar.
O escolhido foi Álvaro Arbeloa que, como ele próprio reconhece, muito deve ao treinador português. Numa entrevista que deu há anos à revista Jot Down, recordou o primeiro contacto que tiveram: «Apercebemo-nos de quem era Mourinho um dia da pré-temporada. Nós, os espanhóis — que acabávamos de ser campeões do mundo —, juntámo-nos ao grupo em Los Angeles. Aí jogámos contra os LA Galaxy e chegámos ao intervalo a perder por 2-0. Os gritos que, no balneário, saíram daquela boca ouviam-se à distância e eram para todos, nenhum se salvou. Não imagino Pellegrini gritar assim a Cristiano. Lembro-me muito bem do seu discurso: ‘Tu não queres correr? Não há problema, ficas no banco. Tu também não? Vais fora e já está.’ Disse tudo isso a quem quer que fosse — aos campeões do mundo, a Kaká e aos miúdos da cantera —, rapidamente ficámos a saber como era o nosso novo treinador.»
As voltas que o futebol dá fazem com que, daqui a poucas semanas, Mourinho e Arbeloa se reencontrem numa situação inédita e que poucos podiam imaginar: cada um dirigindo a sua equipa em jogo da Liga dos Campeões. Antes disso, os dois foram, no mesmo dia, eliminados da Taça dos seus países — uma triste coincidência para ambos, mas mais dolorosa para Arbeloa, que caiu na estreia e contra o modesto Albacete, que, na sua história, nunca tinha ganho ao Real Madrid.