‘O Futebol Une o Mundo’
E agora, FIFA? Parece evidente que o Irão só integrará o grupo G do Campeonato do Mundo de Futebol de 2026 – com o primeiro jogo agendado para 16 de junho, no Los Angeles Stadium, em Inglewood, frente à Nova Zelândia – caso o regime dos aiatolas seja deposto, na sequência do ataque desencadeado pelos Estados Unidos, com o apoio de Israel.
Não é de todo plausível imaginar outro cenário, 28 anos após o histórico jogo em Lyon entre as seleções dos Estados Unidos e do Irão, no Mundial de França (2-1 para o Irão, no estádio Gerland), visto na altura como um sinal de desanuviamento, comparável à digressão pela China da seleção norte-americana de ténis de mesa, em abril de 1971, que abriu caminho a uma visita secreta, logo de seguida, de Henry Kissinger, preparando o encontro entre Mao e Nixon, um ano depois, na residência oficial do líder comunista chinês, em Zhongnanhai, Pequim.
A FIFA baniu – e bem, na minha opinião – a Rússia, após a invasão da Ucrânia. Deverá aplicar uma sanção semelhante aos Estados Unidos? A administração Trump teve influência decisiva, através da intervenção militar, na deposição de Nicolás Maduro, na Venezuela, mas manteve no poder a estrutura que acompanhava o sucessor de Hugo Chávez, garantindo, contudo, o controlo do petróleo e a libertação dos presos políticos. Relativamente ao Irão, até ao momento não há indícios de invasão, mas sim uma intenção de enfraquecer, até à implosão, a teocracia que governa o país desde os tempos de Khomeini, em 1979. Isto significa que, embora a posição norte-americana esteja numa zona claramente cinzenta, não se trata de uma situação equivalente à que levou ao banimento da Rússia pela FIFA.
Mas este puzzle tem mais uma peça, a Gronelândia, cujas terras raras (36 milhões de toneladas de 17 elementos químicos essenciais para as novas tecnologias), reveladas pelo degelo acelerado do território, mais do que qualquer necessidade estratégica de defesa, têm suscitado a cobiça da administração Trump, à qual a Europa, por uma vez, respondeu com firmeza. Se o presidente norte-americano insistir em penalizar economicamente, através de taxas aduaneiras, os países europeus por não cederem no caso da Gronelândia, região autónoma do reino da Dinamarca, então sim, haverá uma forte possibilidade de boicote ao Mundial de 2026.
Pelo exposto, percebe-se que, a três meses e meio do início do Campeonato do Mundo, subsistem muitas dúvidas e ninguém, com rigor, é capaz de prever como esta história irá terminar.
Até aos dias de hoje, os banimentos (Espanha, 1938, excluída devido à Guerra Civil; Alemanha e Japão, 1950, suspensos pela ONU após a Segunda Guerra Mundial; África do Sul, de 1966 a 1990, banida pelo apartheid; Irão, 1986, suspenso pela FIFA durante o conflito com o Iraque; Jugoslávia, 1994, excluída devido às guerras balcânicas; Líbia, 1994, sancionada por isolamento diplomático; México, 1990, punido por fraude de idades; Chile, 1994 punido pela farsa do guarda‑redes Roberto Rojas num jogo no Maracanã com o Brasil) não provocaram mossa na competição, bem como os boicotes (o mais relevante, em 1966, quando 31 países africanos se recusaram a participar nas qualificações pelo facto da CAF apenas ter uma vaga partilhada para a fase final), não impactaram nos mundiais. Podemos estar na antecâmara de algo novo e fraturante, dependentes do homem galardoado com o Prémio da Paz da FIFA, que existe sob o lema «o futebol une o Mundo».