Mundial
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O Brasil operário de Ancelotti
Quem os viu e quem os vê. O que antes era apenas um conjunto de jogadores vestidos com a amarelinha parece querer dar lugar a uma verdadeira equipa, sólida, conhecedora dos seus defeitos e virtudes, altruísta com bola, solidária sem ela.
A estreia no Mundial 2026 frente a Marrocos foi cinzenta. Deixou mais dúvidas do que certezas. As ilações, pouco positivas, confirmaram que Carlo Ancelotti tem em mãos uma tarefa hercúlea. Não pela ausência de talento (embora muito distante do que se viu em 2006 ou 2002), mas pela inexistência de um coletivo.
O futebol ao mais alto nível já não se compadece com ideias e modelos de jogo que não associam o momento ofensivo ao momento defensivo. Já não permite que uma equipa ou seleção possa dar-se ao luxo de não ter os vários momentos do jogo trabalhados de forma interligada.
O que ficou da exibição descolorida e pouco confiante perante a seleção marroquina foi precisamente isso. Um Brasil coletivamente desligado. Entre sectores e dentro dos próprios sectores. Uma canarinha pouco solidária sem bola, tanto na reação à perda como na transição defensiva. Um escrete nada criativo na posse do esférico. Por uma questão de escolhas iniciais, bem como por causa dos posicionamentos e comportamentos individuais e coletivos pretendidos pelo treinador italiano.
O Brasil não poderia continuar a ser tão pouco agressivo sem bola, especialmente no momento seguinte à perda de bola. Nem poderia continuar a ter um flanco direito sem dinâmicas que garantissem largura, profundidade e jogo interior em simultâneo. Muito menos poderia ter um meio-campo sem capacidade de transporte e chegada a zonas de finalização. Para não falar da incapacidade de criação de espaços e condições para Vini Jr poder atacar esses mesmos espaços.
Ancelotti percebeu que era necessário mudar a mentalidade do seu selecionado. E fez o que tinha de ser feito: alterou a mentalidade a partir de pequenas alterações técnico-táticas.
Entraram Danilo, Rayan e Matheus Cunha. Bruno Guimarães passou a ser um puro box-to-box. O sistema tático manteve-se o mesmo, mas o 1x4x3x3 ganhou capacidade de trabalho sem bola. Ganhou ordem e organização com bola. Ganhou vida. Tal como ganhou Vinícius Júnior, o principal beneficiado desta face renovada dos pentacampeões mundiais.
O Brasil passou a ser mais coletivo. A ser mais competente a atacar porque passou a saber defender, tanto em pressão como em organização. Mérito de Ancelotti e da sua gestão operária.
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