Tiago Zorro, treinador do Belenenses (Foto: Miguel Nunes)
Tiago Zorro, treinador do Belenenses (Foto: Miguel Nunes)

«Há quem diga que sete meses é muito tempo para quem treina no Brasil»

Na segunda parte da entrevista a A BOLA, Tiago Zorro, treinador do Belenenses, recorda a carreira feita na Grande Lisboa e a passagem marcante pelo «país do futebol. Expressa admiração por Paulo Fonseca, Jorge Jesus e Pep Guardiola

— Antes do Belenenses, esteve no Ferroviário da Série D do Brasil. O que o levou a aceitar esse desafio?

— Foi a minha primeira experiência fora de Lisboa. Surgiu um convite inesperado enquanto recuperava de uma lesão no tendão de Aquiles, que sofri no curso de treinadores UEFA A. Estava a recuperar há cinco meses e senti que seria bom sair da zona de conforto, ir para o país do futebol e disputar um campeonato estadual forte [Cearense]; chegámos às meias-finais contra o Fortaleza (equipa de Série A e que jogou a Libertadores) e a duas mãos, só perdemos 0-1 com um golo aos 90+4’ do segundo jogo. E depois uma Série D forte, os melhores jogadores da Série D jogam Liga e Liga 2 aqui em Portugal. Foi uma experiência enriquecedora que me deu outra bagagem.

— Lá jogava Campeonato Cearense (ficou em 4.º), o Nordestão e depois a Série D, foi o maior desafio da carreira, pelo contexto que encontrou?

— Sim, jogar de três em três dias com 30 graus, relvados altíssimos, um plantel de 30 jogadores, dificuldades para treinar, tudo isso preparou-me melhor para o futuro.

Tiago Zorro, treinador do Belenenses, falando com A BOLA (Foto: Miguel Nunes)
Tiago Zorro, treinador do Belenenses, falando com A BOLA (Foto: Miguel Nunes)

— Ao sair do Ferroviário, queria voltar a Portugal?

— Sim. Ainda foram sete meses, há quem diga que é muito tempo para quem treina no Brasil, voltar a casa foi muito bom, usufruí das férias com a minha família e o convite surge num momento em que não estava à espera. Foi cedo, mas é difícil dizer que não ao Belenenses.

— No Atlético, foi campeão distrital da AF Lisboa em 2022, campeão do Campeonato de Portugal em 2023 e chegou à fase de subida na Liga 3 em 2024. Como é que esta passagem na Tapadinha o mudou enquanto treinador?

— Foram anos muito bons, onde ganhámos muito, com realidades diferentes, porque jogar na distrital é diferente de jogar na Liga 3. Foi fruto de uma grande comunhão entre a estrutura, jogadores e adeptos, que nos levou a anos de sucesso. E conseguimos o objetivo de devolver o Atlético aos campeonatos nacionais e depois subir mais um patamar, o que foi muito importante para o clube e para mim.

— Como se descreveria enquanto jogador?

— Entendia muito bem o jogo, era defesa-central e jogava de frente para o jogo, mas tinha lacunas graves na velocidade e no jogo aéreo. Não era horrível com a bola nos pés, mas cheguei até onde podia chegar.

— Foi nessa altura que surgiu o bichinho de querer ser treinador?

— Não foi logo. Enquanto jogador sempre tive o bichinho em perceber o porquê dos exercícios, mas as coisas aconteceram naturalmente depois de uma lesão no joelho. Comecei desde baixo, no clube da cidade onde vivo, em Alverca, isto há 16, 17 anos ainda em campos pelados. Comecei nos infantis, cheguei ao topo dentro do clube, subi os patamares até à equipa sénior e depois fiz a carreira que tenho feito.

— Em que treinadores mais se inspira?

— Admiro treinadores que têm mais tempo a bola, mas que têm boas organizações defensivas. Em Portugal, gosto muito do Paulo Fonseca e do Jorge Jesus (mais até pela organização defensiva do que pela atacante). Também nos ligamos todos ao que Pep Guardiola tem feito, são equipas que têm a bola praticamente o jogo todo e são diferenciadas no momento após a perda da bola.

— Tem o sonho de chegar à Liga?

— Vivo do presente e o meu sonho é subir com o Belenenses. Todos queremos chegar o mais alto possível, mas estou com os pés bem assentes na terra e é nisto que estou focado. Não quero, de todo, apagar o que tem sido feito, mas sabemos que vai começar uma segunda fase [da Liga 3] e tudo o que está feito não vai valer nada em termos de pontos. Não nos queremos distrair e eu não me quero distrair com nada porque o futebol castiga quem se distrai. Temos muito presentes aquilo que são as nossas ambições. Ambiciono chegar o mais alto possível, mas aquilo quer quero mesmo é subir de divisão com o Belenenses.