Jesús de Miguel - Foto: Tenerife
Jesús de Miguel - Foto: Tenerife

O adeus que o futebol nunca quis dar: quem era Jesús de Miguel, o goleador que partiu no relvado

A morte do atacante, na sequência de um violento choque no jogo com o FC Andorra, deixa o futebol espanhol em choque profundo. Conheça o percurso de um ponta de lança de entrega absoluta que construiu o seu sonho degrau a degrau

O futebol é frequentemente descrito como um território de emoções extremas, mas nenhuma vitória, troféu ou rivalidade prepara adeptos e profissionais para o silêncio gelado de uma vida interrompida no relvado. A confirmação da morte de Jesús de Miguel pelo CD Tenerife, após o violento choque sofrido por conta da ação do guarda-redes Jesús Owono na partida frente ao FC Andorra, transformou uma jornada desportiva num dos episódios mais dolorosos e comoventes do futebol espanhol nos últimos anos.

Para lá da camisola número 9 e da tragédia que agora paralisa Espanha, quem era o homem que o Heliodoro Rodríguez López chorou esta manhã?

Nascido em Madrid a 21 de setembro de 1996, Jesús de Miguel Alameda nunca conheceu caminhos fáceis nem autoestradas douradas rumo ao topo. O seu perfil era o espelho perfeito do jogador operário: um avançado clássico, combativo, generoso nos duelos e com um faro de golo apurado que se forjou longe dos holofotes mediáticos dos gigantes da LaLiga.

Em memória dos futebolistas que morreram após caírem em campo:

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Formado nas escolas da capital espanhola, com passagem marcante pelas camadas jovens do CD Leganés, Jesús de Miguel soube desde cedo o significado de batalhar nas divisões secundárias. Passou pelo Fuenlabrada, CF Internacional de Madrid, Unionistas de Salamanca e Navalcarnero, conhecendo a exigência física, os relvados duros e a pressão diária do futebol não-profissional e semiprofissional.

Em cada paragem, o testemunho de quem com ele partilhou balneário era unânime: um companheiro exemplar, discreto fora das quatro linhas e incansável dentro delas.

O grande ponto de viragem e afirmação plena deu-se ao serviço do CD Castellón. Em Castalia, onde partilhou balneário com o português Miguel Falé, então emprestado pelo SC Braga e hoje no Paços de Ferreira, e com o georgiano Giorgi Kochorashvili (ex-Sporting e agora no Sevilha), Jesús de Miguel encontrou o habitat perfeito para o seu futebol combativo.

Tornou-se a grande referência ofensiva da equipa, colecionando golos decisivos e assumindo um papel fulcral na campanha de promoção à LaLiga Hypermotion (Segunda Divisão), coroada com estatuto de herói local e o carinho eterno dos adeptos albinegros.

O salto para o histórico CD Tenerife representava o auge da maturidade desportiva. Aos 30 anos, Jesús chegava às Canárias para ser a lança apontada às balizas adversárias, uma voz respeitada num balneário jovem e a personificação da garra que a bancada insular sempre exigiu. Cada corrida, cada desarme no primeiro terço e cada bola disputada no ar transportavam o orgulho de quem sabia exatamente o preço que tinha pago para chegar à elite.

A fatalidade no duelo com o FC Andorra interrompeu um percurso de dedicação exemplar e atirou o desporto para uma dor sem palavras. Mais do que as estatísticas, os golos nas noites frias de Salamanca ou as celebrações efusivas em Castellón e Tenerife, Jesús de Miguel deixa a memória viva de alguém que amou o futebol até ao último fôlego. O jogo chora um dos seus melhores soldados.J

Jesús de Miguel era casado há oito anos com María, com quem teve uma filha, Carla, em junho do ano passado.

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