1 de maio de 2026, há pouco mais de seis meses: Rui Borges e Varandas 'renovavam' até 2028 - foto: MIGUEL NUNES
1 de maio de 2026, há pouco mais de seis meses: Rui Borges e Varandas 'renovavam' até 2028 - foto: MIGUEL NUNES

E se corre mal, presidente?

A rutura com Rui Borges expõe as fendas de Alvalade: o toque de Midas de Frederico Varandas esgotou-se em Amorim e hoje a realidade é, claramente, outra...

Há tiradas que sobrevivem aos homens que as pronunciam e ganham contornos de profecia. Em março de 2020, quando o universo do futebol português ainda assimilava com profundo espanto o investimento de dez milhões de euros num técnico em começo de carreira, foi o próprio Ruben Amorim quem desarmou a sala de imprensa de Alvalade com um sorriso límpido e um desafio à ortodoxia: «E se corre bem?»

Correu. Correu tão extraordinariamente bem que o Sporting reencontrou a sua matriz competitiva, reconquistou o respeito continental e viveu um ciclo hegemónico que devolveu o orgulho ferido aos seus adeptos.

O grande perigo do sucesso fulgurante, porém, é a ilusão de que o método se torna imune ao erro quando o seu principal arquiteto parte. Ao ver partir o homem que operou a transformação estrutural em Alcochete, a administração leonina parece ter acolhido a convicção confortável de que a virtude pertencia à estrutura e não ao génio individual de quem comandava o grupo.

Seis anos depois do tiro certeiro na roleta de Braga, a pergunta inverte-se de forma inexorável nos corredores do reino do leão: e se agora corre mal?

A deslocação a Londres ganha um simbolismo particular. No banco diante do Shakhtar Donetsk não estará Rui Borges, que recusou embarcar após a rutura interna, mas sim Tiago Fernandes.

Não é um salto no escuro total: o técnico da casa já viveu precisamente este filme em 2018, quando foi ao Emirates travar o Arsenal num nulo heróico após a saída de José Peseiro. Tiago conhece o peso da camisola e a exigência de segurar a nau em mar revolto. A sua presença em funções de recurso, porém, apenas sublinha o momento sensível de transição, enquanto Paulo Fonseca acerta agulhas na retaguarda.

O reverso do espelho torna-se ainda mais perturbador à luz da estratégia desportiva. A 1 de maio, em pleno andamento para a glória, Frederico Varandas blindou Rui Borges com um contrato válido até junho de 2028. Parecia uma declaração inequívoca de fé a longo prazo num projeto técnico.

Porém, logo no defeso seguinte, a administração optou por revolucionar o balneário. Saíram Diomande, a muralha física de classe; Hjulmand, o comandante e capitão que ditava a temperatura do balneário; e Trincão, a centelha criativa que desbloqueava os jogos mais fechados.

Se um presidente renova por duas épocas com o treinador e depois desarma o motor sem peças de reposição equivalentes, o diagnóstico ultrapassa a figura do banco. Marcel Keizer, Silas, Leonel Pontes e a fugaz passagem de João Pereira — sobre quem Varandas vaticinou um futuro no patamar do Manchester City — lembram que a intuição do presidente só atingiu a perfeição na aposta em Ruben Amorim.

A chegada iminente de Paulo Fonseca representa um teste de fogo sem rede para a cúpula verde e branca. Em Alvalade, onde a margem se esgota à primeira curva, descobre-se que gerir a vitória sem os seus verdadeiros prodígios é das tarefa mais ingratas e perigosas do futebol.

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