Hoje, bolas paradas são resultado de intensiva análise laboratorial. Em 2026/27, Arsenal marcou 19 (!) golos na sequência de cantos — Foto: IMAGO
Hoje, bolas paradas são resultado de intensiva análise laboratorial. Em 2026/27, Arsenal marcou 19 (!) golos na sequência de cantos — Foto: IMAGO

Inteligência, talento e o costume

Para ultrapassar fragilidades e superar adversários, as táticas e as tecnologias serão ajudas preciosas. Mas não vou ser eu nem tu a marcar os golos decisivos nem a fazer passes cirúrgicos de 50 metros. Para isso, precisas do talento de grandes jogadores. São eles que vão continuar a levantar estádios. 'A Minha Tribo' é o espaço de opinião em A BOLA de Jorge Nuno Oliveira, jornalista e adepto do FC Porto

Perguntei há dias ao Chat GPT se a Inteligência Artificial (IA) poderia ser útil ao futebol. Curiosamente, não fiquei muito surpreendido pelo imenso caudal de informação que recebi em resposta.

Eis a pergunta: «Em que medida é que a Inteligência Artificial pode ser utilizada na definição de métodos, táticas, modelos de treino, procedimentos no futebol?»

A resposta foi copiosa. Impossível transcrevê-la aqui. Poupo-te, por isso, a esse fastidioso encargo e vou resumir tanto quanto possível o que considero mais interessante nos esclarecimentos da IA.

Disse-me o Chat GPT que esta ferramenta tecnológica «vai aumentar enormemente a capacidade do treinador de observar, interpretar, prever, experimentar e personalizar». Ou seja, o treinador vai ter à sua disposição instrumentos nunca antes utilizados para analisar os adversários e definir a tática mais apropriada; criar exercícios específicos para cada tipo de problema; interpretar milhares de movimentos e ações, de forma coordenada e sistemática; identificar pontos fortes e fragilidades do adversário; criar planos de treino adaptados a cada jogador; encontrar o melhor jogador para cada posição específica; sugerir substituições e alterações táticas, em reação às iniciativas do adversário.

Deves estar a pensar: tudo isto já existe, quer na ciência do futebol, ensinada exaustivamente em cada curso de treinador, quer nos jogos de computador.

É verdade. Mas também é verdade que seria pouco inteligente menosprezar, recusar ou rejeitar uma ferramenta que existe e que, mais tarde ou mais cedo, será utilizada massivamente em todo o universo do futebol.

Aliás, já há clubes que estão a estudar e desenvolver este sistema, para poderem aplicá-lo nos seus modelos de jogo e treino. É o caso do Liverpool, que participa ativamente num programa de desenvolvimento destas ferramentas chamado TacticAI, e do FC Porto, que colaborou com investigadores da Universidade de Lisboa num estudo sobre Artificial Intelligence in football guided by Ecological Dynamics.

O talento é eterno

Claro que este fascinante e quase infinito manancial tecnológico vai abrir portas nunca antes abertas e desvendar mundos surpreendentes nos relvados do futebol.

E são tantas e tantas e tantas as possibilidades de esquematizar tudo até ao mais microscópico pormenor, que já estou a ouvir as lamúrias e as diatribes iradas daqueles que acham que a IA vai estragar o futebol.

Não vai. Porque, quanto mais apetrechadas estiverem as equipas, mais necessário será o talento individual para fazer a diferença. A Inteligência Artificial pode antecipar movimentações, desmarcações, ocupação de espaços, perdas de bola, sei lá que mais! Mas nunca ninguém vai conseguir substituir o génio imprevisível e letal de um Ricardo Quaresma, um Futre, um Messi, um Ronaldo (ou ambos), um Jardel, um Pietuszewski, um Lamine Yamal e tantos outros que enchem estádios e empolgam multidões.

Não tenhas medo. O futebol que estamos habituados a ver vai continuar. As táticas vão mudando, o jogo vai-se adaptando.

Repara no exemplo das bolas paradas. Hoje, são o resultado de uma intensiva análise laboratorial. Veja-se o caso do Arsenal, que a época passada marcou 19 golos (!) na sequência de pontapés da canto. Não foi por acaso, acredita!

Ou o Liverpool, que na época de 2023/24 derrotou o Milan em San Siro por 3-1. Dois dos golos foram marcados por Konaté e Van Dijk na sequência de pontapés de canto. Há quem tenha creditado a IA com a análise de vulnerabilidades da equipa italiana na defesa de pontapés de canto.

Para ultrapassar fragilidades e superar adversários, as táticas e as tecnologias serão ajudas preciosas. Mas não vou ser eu nem tu a marcar os golos decisivos nem a fazer passes cirúrgicos de 50 metros. Para isso, precisas do talento de grandes jogadores. São eles que vão continuar a levantar estádios.

Não te preocupes. Vamos continuar a ver grandes golos, grandes jogadas e grandes momentos de futebol, à custa do talento dos jogadores, da sagacidade dos treinadores e da exaustiva capacidade de análise da Inteligência Artificial.

Uma campanha insidiosa

Está em curso uma campanha desonesta, insidiosa e clássica contra o FC Porto. Nada de novo, mas que costuma crescer e espalhar-se quando o clube está na mó de cima e ganha mais do que os seus adversários. A campanha é muito fácil de identificar e ainda mais simples de desmontar.

Começa com um manto de suspeitas. «O Porto ganhou? Algo de polémico ou ilegal deve ter acontecido.» Nenhuma vitória do FC Porto é justa ou merecida. Ou beneficia dos favores de uma arbitragem condescendente, ou é o resultado da «eficácia do costume», sem brilho nem talento. Temos aqui, portanto, as premissas que sustentam o demérito portista: erros, sempre «incompreensíveis» das equipas de arbitragem; dualidade escandalosa de critérios; futebol previsível e desinteressante. São pressupostos comungados pelos agenciados de Benfica e Sporting, unidos contra a peste.

E quando não são os comentadores-adeptos (categoria na qual me incluí orgulhosamente durante mais de dois anos), brotam solícitos os comentadores ditos independentes. E são independentes até ao momento em que as suas análises, críticas, comentários e sugestões os denunciam, como corvos na neve.

Houve quem sugerisse, por exemplo, que a amostragem de cartões amarelos devia subordinar-se a um critério aritmético. Por cada cinco faltas, um cartão amarelo. Por cada dez, um cartão vermelho. É um exemplo. Apenas isso.

Mas os comentadores independentes chegam ao cúmulo de dizer, ancorados em eloquentes gráficos, que os jogadores do FC Porto só recebem um cartão amarelo depois de um número de faltas infinitamente superior às do Benfica ou Sporting. Pecam, no entanto, os ditos comentadores independentes, ao esconder que as faltas não são todas iguais e, por isso, não podem ser todas sancionadas da mesma forma. Pior: os comentadores independentes, ingenuamente alinhados, rematam a sua iluminada análise com uma ameaça: «Isto tem de acabar, isto não pode continuar assim!» Ou seja, quando o FC Porto ganha, tem de ser disciplinado e castigado, para não ousar repetir a façanha.

É um exemplo que serve para ilustrar a campanha — que tanto pode ser organizada como espontânea, não interessa — que é montada, qual acampamento de vândalos e inúteis, sempre que o FC Porto ameaça a plácida soberba dos clubes de Lisboa.

Para ler e entender

Não podia terminar sem recomendar a leitura de um livro sobre a IA aplicada ao futebol: Ecological Dynamics Approach to Football, de Sofia Ferreira, Daniel Carrilho, Pedro Silva, Paulo de Castro Aguiar e Duarte Araújo.

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