Currículo do treinador português vai aumentando a cada época que passa e também na Hungria já está devidamente colocado o selo de qualidade — Foto: D. R.
Currículo do treinador português vai aumentando a cada época que passa e também na Hungria já está devidamente colocado o selo de qualidade — Foto: D. R.

Nuno Campos quer deixar ainda mais marca na Hungria: «Uma final é sempre para ganhar»

Este sábado pode haver festa portuguesa em solo húngaro. Mas, aconteça o que acontecer, o treinador português já deixou um rótulo muito forte naquele território. Viagem de carreira e ambições futuras

Taça da Hungria. É este o próximo troféu que Nuno Campos quer adicionar ao currículo. Tem apenas 51, mas a história já vai longa. Em várias latitudes do globo, primeiro como adjunto, agora como principal. Sempre com sucesso no percurso. Nesta entrevista a A BOLA, o lisboeta fala um pouco de tudo. E que já é tanto.

— Tem realizado um trabalho extraordinário na Hungria, mais concretamente no Zalaegerszeg Torna Egylet (ZTE) e prepara-se para disputar, amanhã, a final da taça, diante do conceituado Ferencvaros. Qual é a sensação de estar às portas de disputar um troféu?

— Antes de mais, deixe-me agradecer o convite. É sempre um prazer falar para órgãos de Portugal, neste caso, para A BOLA. O que temos alcançado aqui, e, neste caso, chegarmos à final da taça, é algo realmente importante para o clube e para a sua história. Toda a cidade está a viver este momento com grande entusiasmo. Temos sentido um carinho muito grande por parte de toda a gente.

— O futebol húngaro tem alguns nomes históricos, mas o ZTE, consigo, tem estado em franca ascensão. Como surgiu este projeto?

­— Foi um desafio que surgiu para trabalhar jovens jogadores, especialmente sul-americanos, e demonstrar que era possível ter um projeto que valorizasse os jogadores, que colocasse em prática um futebol bonito, com o objetivo principal a ser o de garantir a permanência do clube no principal escalão. Essa meta, de resto, já foi alcançada há bastante tempo e agora continuamos o nosso trajeto, bem como o de valorizar jogadores para outros mercados europeus. Estamos, neste momento, a lutar pelo 3.º lugar da tabela classificativa, que dá o apuramento direto para as competições europeias. Que também pode ser alcançado vencendo a Taça da Hungria, que dá qualificação para a UEFA Europa League. Acho que tem sido muito bom para toda esta gente.

— Ganhar a taça é um sonho ou é, literalmente, um objetivo?

Quando estamos numa final tem de ser encarada sempre para ganhar. Naturalmente que é um objetivo difícil de alcançar, tendo em conta o adversário que temos pela frente, toda a sua história e também o seu orçamento, mas temos de olhar para esta final como uma oportunidade para voltarmos a mostrar a nossa capacidade de ombrear com uma equipa da dimensão do Ferencvaros. Tal como, de resto, fizemos nos dois jogos do campeonato. Temos de olhar sempre com total ambição.

— Falou aí do trabalho que tem feito com jogadores jovens. Encaixam na realidade do futebol português? O mercado húngaro pode ser explorado por clubes nacionais?

— Creio que é um mercado apetecível para clubes portugueses, sim. Porque os jogadores aqui não têm um valor de mercado tão alto quanto têm noutros países. Ainda que, claro, tenhamos sempre de olhar à dimensão dos clubes grandes em Portugal, e aqui incluo o SC Braga. Porque trabalham muito bem e têm jogadores de grande qualidade. Mas acho que os clubes nacionais devem estar atentos ao mercado húngaro, sem dúvida.

Jogador húngaro é de trabalho. Creio ser um mercado apetecível para os clubes portugueses.

— E culturalmente, como é o jogador húngaro? Está recetivo a continuar o seu processo de aprendizagem se e quando der o salto para um clube superior?

­— O jogador húngaro tem uma particularidade muito boa: é um jogador de trabalho. Tem a mente aberta para ouvir e reconhecer a hierarquia como algo natural e que olha para o treinador como alguém que o quer melhorar. Daí os meus jogadores aqui no ZTE também terem evoluído bastante, até porque, como sabemos, o treinador português é alguém explicativo, mais professor, digamos assim.

— Antes de rumar à Hungria, o Nuno treinou os sub-20 do Flamengo, e, ainda antes disso, tinha sido adjunto de Renato Paiva nos mexicanos do Toluca. Como foram essas duas experiências?

— O Renato é um amigo que me convidou para trabalhar com ele no momento que também coincidiu com a minha espera pelo curso UEFA PRO. O facto de ainda não ter esse título fez com que tivesse dificuldades em entrar em alguns clubes que por mim se tinham interessado. Então, pela excelente relação que tenho com o Renato, decidi aceitar o convite que me fez. Porque, acima de tudo, gosto de trabalhar e de me envolver nas mais variadas áreas do nosso trabalho. Fui para um continente onde ainda não tinha trabalhado e a verdade é que no México correu tudo muito bem, nomeadamente nos dois torneios que realizámos. Depois saímos e apareceu-me o convite do José Boto, que foi algo que, até pela relação que tenho com ele, mexeu comigo para voltar a ser treinador principal, neste caso, nos sub-20 do Flamengo. As pessoas podem olhar para isso como algo menor, mas Flamengo é Flamengo, E eu ia trabalhar diretamente com o José Boto e com o Filipe Luís [à época, treinador da equipa principal], utilizando o modelo de jogo que ele tinha na equipa principal para que os jogadores que fossem subindo não sentirem diferenças entre as duas equipas. Achei tudo aliciante, tal como viver no Rio de Janeiro, era algo que eu queria experimentar e foi tudo muito bom. Foram três meses magníficos, com ótimos resultados. No fundo, foi uma experiência que me permitiu um crescimento natural.

— Foram apenas três meses, é certo, mas Flamengo é Flamengo. Ficou o bichinho de um dia poder vir a ser treinador da equipa principal do gigante do Rio de Janeiro?

­— Eu acho que um treinador nunca pode dizer que não quer treinar num determinado clube ou em determinado país. Tal como também não devemos dizer que queremos treinar este ou aquele. O mundo é tão global que por vezes ficamos reféns das nossas palavras por querermos treinar um clube e depois podemos estar a fechar outras portas. Felizmente, já estive em alguns clubes gigantes, mas não posso dizer que não treinaria outros. O Flamengo é um clube que me ficou no coração, assim como todos os outros que treinei também ficaram. Porque criei sempre relações muito boas. Eu e a minha equipa técnica, porque ninguém ganha sozinho e eu valorizo sempre muito todos aqueles com quem trabalho. Aqui na Hungria, por exemplo, já ganhei duas vezes o prémio de treinador do mês e quando foi para tirar as fotografias fi-lo sempre com a minha equipa técnica. O importante é estarmos sempre de corpo e alma nos clubes onde estamos a trabalhar. Vestindo a camisola, dando o nosso máximo e sendo sempre profissionais.

— Olhar para a sua carreira é constatar também que conseguiu os feitos de apurar o Santa Clara para a final four da Allianz Cup e de garantir o apuramento do Tondela para a final da Taça de Portugal. Dois momentos históricos...

—Sem dúvida. No Santa Clara ganhámos ao FC Porto e fomos à final four. Eu já não participei nessa fase, porque entretanto saí. Mas era um FC Porto muito forte, com o Sérgio Conceição. Depois, curiosamente, joguei contra esse mesmo FC Porto na final da Taça de Portugal, já pelo Tondela. Claro que foram dois momentos históricos para Santa Clara e Tondela. No Jamor, perdemos, mas terminámos o jogo ao som das palmas dos nossos adeptos, ainda para mais tínhamos descido de divisão. Foi o reconhecimento claro de que, apesar de tudo, fizemos um trabalho meritório. Naturalmente que há quem queira olhar para o copo meio vazio, eu prefiro olhar para o meio cheio.

— O mister Nuno Campos tem a particularidade de ter estado numa final da Taça de Portugal enquanto jogador, pelo Campomaiorense, enquanto adjunto de Paulo Fonseca, no SC Braga, e como treinador principal, pelo Tondela. Orgulho?

— Orgulho-me imenso, sim. Até porque, enquanto jogador, estar numa final pelo Campomaiorense eleva ainda mais o feito. E foi algo que envolveu uma mobilização incrível de toda uma região fantástica, como é o Alentejo. Depois, pelo SC Braga, como adjunto, num clube que não ganhava a Taça de Portugal há 50 anos. E pelo Tondela, como treinador principal, o que é ainda mais difícil. Foi outro feito muito bonito. Uma equipa do interior do País conseguir algo tão fantástico como chegar a um palco como é o Jamor. Acho que, no fundo, são momentos extremamente bonitos, sobretudo no que se refere a esses dois clubes de zonas mais interiores do País. Foi um grande orgulho para mim, como foi, com toda a certeza, para todos os adeptos que estavam a torcer pelas suas equipas.

Dupla de elite com Paulo Fonseca

Quando terminou a carreira de jogador e enveredou pela de treinador, Nuno Campos foi durante vários anos adjunto de Paulo Fonseca, dupla que atingiu patamares de grande destaque ao serviço de grandes clubes como FC Porto, SC Braga, Shakhtar Donetsk (Ucrânia) e Roma, entre outros. E com muitos títulos conquistados.

«Acima de tudo, tenho uma relação de grande amizade com o Paulo. Crescemos juntos desde os juniores do Estrela da Amadora e fomos melhorando. Conseguimos grandes coisas juntos. Colocar o Paços de Ferreira na Liga dos Campeões creio que é mais difícil do que ser campeão com uma das equipas ditas grandes em Portugal. Ninguém diria que era possível conseguirmos aquele 3.º lugar [época 2012/2013]», recordou.

A primeira experiência no estrangeiro foi na Ucrânia e os títulos sucederam-se: «Terminámos com a hegemonia do Dynamo Kiev e em três anos ganhámos três campeonatos, três taças e a Supertaça. Na Liga dos Campeões também fizemos algo brilhante, ganhando ao Manchester City e passando num grupo que tinha também o Nápoles. Conseguimos muitos feitos juntos e só tenho a agradecer muito o facto de ter trabalhado com o Paulo. Além do prazer em termos desportivos, há também a relação de amizade que temos. Conhecemo-nos muito bem.»

E porque do passado não vivem apenas os museus, ficam as recordações. Que foram tantas. «Guardo tudo com imenso carinho. Não é fácil olhar para trás e conquistar tudo o que nós conquistámos», assume, sem se escudar a olhar para a frente... sem fechar portas.

«Vou provar, de forma natural e tal como tenho provado este ano, que estou mais do que preparado para treinar nos melhores campeonatos da Europa e nas melhores equipas. Já são mais de 20 anos de carreira e não tenho a mínima dúvida de que no dia em que chegar a esses patamares estarei preparado. Tenho experiência de Liga dos Campeões, Europa League e títulos conquistados em vários países e muita experiência acumulada», concluiu Nuno Campos, de 51 anos.

Contrato renovado, futuro... em aberto

Nuno Campos tinha uma cláusula no contrato com o ZTE que já foi acionada: renovação automática em caso de permanência na elite húngara. Ou seja, o vínculo estendeu-se de forma imediata até 2027. Como será o futuro?

«Tenho de respeitar o meu contrato e estou muito satisfeito aqui. Mas sei que todos os profissionais se valorizam em função do que fazem. Tal como o treinador se valoriza, naturalmente. Mas, neste momento, estou apenas focado no que falta jogar desta época e em tentar conseguir cada vez mais para o clube. Estou contente aqui, as pessoas também estão a gostar do meu trabalho. Depois, haverá tempo para conversar», detalhou Nuno Campos, ele que tem portas abertas em vários campeonatos da Europa... e não só. A seu tempo, tratará do futuro...

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