Não podemos 'benfiquizar' o Sporting
1Terminada a época 2025/26, não vale a pena procurar eufemismos. Para um clube com a dimensão, a ambição e a exigência do Sporting Clube de Portugal, os resultados do futebol profissional ficaram aquém do esperado. E quando as expectativas não são cumpridas, a primeira obrigação é refletir, identificar erros e corrigi-los. Não para encontrar culpados, mas para voltar a ganhar.
É precisamente isso que me parece estar a acontecer.
Ao contrário do que tantas vezes sucede no futebol português, onde a reação ao insucesso passa pela precipitação e pelo ruído, o Sporting está a preparar a próxima época com método, serenidade e visão estratégica. A identificação atempada das necessidades do plantel, a antecipação dos movimentos de mercado e a contratação de jogadores capazes de acrescentar qualidade são sinais claros de que o caminho para o regresso ao sucesso está a ser percorrido.
Há ainda outro fator decisivo: a saúde financeira. Depois de anos em que o Sporting vivia condicionado por dificuldades económicas e dependente de vendas urgentes, o clube dispõe hoje de uma robustez que lhe permite resistir às investidas de videirinhos oportunistas que gravitam à volta do futebol português e de candidatos a clubes de ligas periféricas com ligações a presidentes provincianos de clubes nacionais. Esta realidade económica não surgiu por acaso. É resultado de uma gestão competente, rigorosa e sustentada.
Neste contexto, a renovação da confiança em Rui Borges é uma decisão que merece destaque. Poucos treinadores sobreviveriam a uma época marcada pelo insucesso desportivo e, sobretudo, pela dolorosa humilhação sofrida na final da Taça de Portugal. Por isso mesmo, a confiança pública demonstrada por Frederico Varandas aumenta significativamente a responsabilidade do treinador e da sua equipa técnica.
Mas também revela liderança.
Frederico Varandas tem hoje um capital de credibilidade que nenhum sportinguista intelectualmente honesto pode ignorar. Continuo a considerá-lo o melhor presidente da história do Sporting Clube de Portugal. E não, isto não é apenas uma discussão sobre futebol. Basta olhar para os títulos nacionais e europeus conquistados nas mais diversas modalidades, para a recuperação financeira do clube, para a valorização da marca Sporting e para a estabilidade institucional alcançada nos últimos anos.
Os sócios confiaram-lhe sucessivamente o seu voto. Os resultados deram-lhe toda a razão.
Por isso, estou convencido de que o Sporting voltará a ser feliz em 2026/27. Os sinais são positivos e os alicerces estão lançados. Contudo, o futebol vive de resultados imediatos e a memória curta é uma das suas doenças crónicas.
Se, por absurdo, as coisas não começarem da melhor forma, deixo apenas um apelo ao presidente: não ceda ao tribunal da bancada. Não permita que o Sporting entre num ciclo de benfiquização, onde os treinadores são julgados à terceira ou quarta jornada e despedidos ao primeiro contratempo. Os resultados dessa cultura estão à vista de todos e dificilmente servem de exemplo para quem procura construir sucesso duradouro.
Salvo exceções que nunca podem transformar-se em regra, o trabalho de um treinador avalia-se no final da época. E o de um presidente no final do mandato.
Foi assim que o Sporting recuperou a sua grandeza. É assim que continuará a conseguir ganhar.
Porque os clubes verdadeiramente grandes não mudam de rumo ao primeiro obstáculo. Mantêm a convicção, corrigem os erros e seguem em frente. É exatamente isso que o Sporting está a fazer.
2 A reunião de Frederico Varandas com os Grupos Organizados de Adeptos é mais uma demonstração de liderança e coragem. Foi ele o primeiro presidente da história do Sporting a enfrentar as claques quando entendeu que os interesses do clube assim o exigiam, recusando submeter-se a qualquer forma de pressão ou condicionamento. Fê-lo pagando um elevado preço pessoal e político, mas mantendo sempre uma convicção inabalável: ninguém é maior do que o Sporting Clube de Portugal. Se hoje existem condições para discutir um novo protocolo de cooperação, isso acontece porque o respeito institucional foi restabelecido. O diálogo é importante. A submissão nunca foi, nem pode ser, uma opção.