Mundial
Mundial
No adeus ao Uruguai, Bielsa lamenta falta de conexão com jogadores
Marcelo Bielsa pôs fim ao ciclo no comando da seleção do Uruguai numa conferência de imprensa de uma hora e 35 minutos no Estádio Centenário, onde assumiu a responsabilidade pelo fracasso da equipa no Mundial 2026, eliminada na fase de grupos com apenas 2 pontos.
O técnico começou por expressar o sentimento de desilusão. «Sinto que desapontámos os adeptos, o que é uma frustração muito grande. Era totalmente imprevisto que a nossa posição fosse essa», afirmou Bielsa, considerando a eliminação na fase de grupos do Mundial 2026 como «uma queda que ninguém pode admitir, aceitar ou suportar».
Num tom autocrítico, o treinador admitiu falhas. «É muito claro que não posso justificar a posição que obtivemos. A gestão que fiz dos recursos com que contava, pela qualidade dos jogadores disponíveis, não foi suficiente», declarou, acrescentando: «Fizemos o máximo, tanto eu como os meus colegas de trabalho e os jogadores, mas claramente não chegou».
Bielsa tomou rédeas do Uruguai em maio de 2023, após o fracasso da seleção no Mundial do Qatar 2022. O início foi promissor, com vitórias históricas na fase de qualificação, nomeadamente contra a Argentina em La Bombonera, quebrando uma série de 25 jogos sem derrotas da campeã mundial, e frente ao Brasil no Centenário. Contudo, o cenário mudou drasticamente. A equipa baixou de rendimento, surgiram polémicas envolvendo Luis Suárez e Agustín Canobbio, as eliminatórias complicaram-se e uma goleada sofrida num amigável contra os Estados Unidos marcou o início do colapso, que culminou na eliminação precoce do Mundial.
Durante a conferência de imprensa, Bielsa revelou ainda um episódio com o plantel antes do jogo com a Espanha, quando os jogadores pediram para não treinar em grupos separados, uma metodologia sua, sendo que já o tinham informado que recebiam excesso de informação. «Apresentaram-me a ideia de não treinar separados. [...] quando me manifestaram o desejo de treinar todos juntos, é absurdo que eu insista numa postura que eles não partilham».
Valverde e Muslera
O treinador falou em específico de dois casos: Valverde e o guarda-redes Muslera. Quanto ao capitão, recusou atrito. «Nunca tive problemas com Valverde — e acredito que nunca fiz mais concessões a outro jogador do que fiz a ele, porque ele merece. Quando começamos o trabalho nas Eliminatórias, disse-lhe que talvez precisasse que jogasse como lateral, que poderia atuar como ponta ou, quem sabe, na sua posição de volante pelo lado. A resposta dele foi de uma generosidade absoluta: 'Na posição em que você precisar'. Acredito que não o expus. Pelo contrário, demonstrei um enorme respeito pela maneira como ele joga», referiu.
Quanto ao guarda-redes, que foi substituído ao intervalo no jogo com a Espanha, contou que afinal conversaram e o veterano pediu para sair depois de errar no golo que dava vantagem aos espanhóis. «Quero comentar algo que demonstra a grandeza do Muslera: nunca havia acontecido comigo um jogador pedir para ser substituído e explicar que o motivo era o impacto emocional dos erros que havia cometido. O Muslera disse-me que estava tão abalado pelo erro que cometeu, provavelmente também em razão de situações anteriores, que preferia sair, porque entendia que as chances do grupo permaneciam intactas…»
«Não cativei os jogadores»
No final do seu percurso, Bielsa foi contundente ao analisar a relação com o plantel: «Não cativei os jogadores. Disse em algum momento que tinha bom relacionamento? Então. Cativei os jogadores? Não. Os jogadores estavam tranquilos comigo? Não. Só disse é que a relação com os jogadores não foi obstáculo para a equipe merecer o que era necessário. Nada mais que isso.»
O treinador argentino destacou também que o Uruguai possui «cinco jogadores estelares como Ronald Araujo, José María Giménez, Giorgian de Arrascaeta, Federico Valverde e Darwin Núñez», mas insistiu que a sua passagem não deixou um legado. «O que quis transmitir nunca foi importante», concluiu, defendendo ainda a sua gestão: «Nunca expulsei ninguém, defendi o património da AUF como se fosse a minha casa».
Pedido de desculpas
Por fim, Bielsa reservou também algum tempo para pedidos de desculpas, começando pela irritação nas entrevistas rápidas após o jogo com a Espanha, num momento que se tornou viral na Internet. «Naquele momento, reagi à demora em fazerem as perguntas às quais eu era obrigado a responder. Fiquei irritado porque demoravam, demoravam, e eu estava completamente consumido pela dor. Por isso, talvez não tenha sido tão educado como deveria ter sido.»
E ainda esclareceu a polémica em torno da fotografia oficial em que aparece a olhar para baixo. «Um pedido de desculpa, entre aspas, certo? Quando me tiraram a fotografia para a FIFA, a verdade é que não tenho jeito nenhum para posar...», ironizou.
Artigos Relacionados: