Águia insaciável trucidou um anémico ganso (crónica)

Dois golos ao intervalo e mais cinco entre os 47 e 61 minutos. O Casa Pia nunca teve oxigénio para tentar equilibrar o que tão desequilibrado estava e em cima da mesa chegou a estar a hipótese de o Benfica reeditar o 10-0 ao Nacional de 10 de fevereiro de 2019...

Imagine-se um elefante a pisar uma formiga. O pequenino inseto não tem hipótese de sobreviver sob a pata pesada do mamífero, pois não? Aconteceu mais ou menos isto em Rio Maior. O Benfica entrou sem piedade no jogo e sem piedade continuou na maior parte do tempo. O Casa Pia, esse, tentou sobreviver face aos ataques mortíferos que foi sofrendo, mas nunca o conseguiu, acabando esgotadíssimo, sem oxigénio e impotente para evitar que o resultado se fosse transformando de uma derrota aceitável numa goleada impressionante: 7-0.

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O Benfica, porém, não teve culpa da fragilidade do Casa Pia. Defesas e médios pareciam de porcelana e o ataque, se existiu, não se viu. O primeiro ar de graça dos encarnados surgiu logo em cima dos 150 segundos de jogo. Prestianni recebeu a bola, fez uma curta simulação e rematou cruzado. A bola, a dar início à noite amarga dos gansos, embateu em David Sousa, enganando por completo o guarda-redes André Gomes.

Era um excelente ponto de partida para as águias. Desbloquear tão cedo o jogo quando, dentro de três dias, receberiam o Aarhus não era bom: era ótimo. Mas, claro, havia 87 minutos pela frente e era preciso que o Benfica não descansasse em cima da vantagem e, por outro lado, que o Casa Pia não se descontrolasse.

Mas descontrolou-se. Ou foi obrigado a descontrolar-se pelo ímpeto do Benfica. Dez minutos depois, aos 14', Rochinha perdeu a bola perante a maior impetuosidade de Rafa. Este cedeu-a a Pavlidis, que a recolocou na frente do camisola 27. Rafa correu, correu, correu e, quando se aproximou de André Gomes, picou-lhe a bola, que ainda tocou na cabeça do guarda-redes antes de entrar.

Um minuto depois do 2-0, o Benfica passou pelo seu único susto, quando Gabi Pereira, num remate meio enrolado, acertou no poste direito de Samuel Soares. Seria o início de uma potencial reviravolta?

Não, não seria. O jogo entrou, então, numa fase de rame-rame. O Benfica, pensava-se, passaria a controlar as incidências, deixando o tempo correr. Só aos 36' voltou a haver perigo junto de André Gomes: Sudakov rematou fortíssimo e o guarda-redes, esticando-se quase até aos limites, evitou o 3-0.

O intervalo chegou e acreditou-se que a segunda parte bem poderia ser mais do mesmo daquilo que se passara no pós-2-0: jogo controlado pelo Benfica, bola a rodar entre a maioria dos seus jogadores, sempre à espera que chegasse o último apito de João Pinheiro para que Marco Silva começasse, de vez, a pensar no Aarhus.

Quem acreditou nessa teoria depressa percebeu que se equivocara. A reentrada em cena do Benfica foi trucidante: aos 47', 3-0 por Pavlidis; aos 49', 4-0 por Pavlidis; aos 53', 5-0 por Pavlidis; aos 58', 6-0 por Ofori (autogolo ao tentar intercetar um cruzamento de Dahl); aos 61', 7-0 por Jhon Durán. O hat-trick do grego do Benfica, então, foi fulminante: seis minutos e 33 segundos para o atingir. Impressionante!

Era o tal elefante a pisar a formiga e a torcer a robusta pata quando sentia o corpo do inseto. Com sete golos marcados até à hora de jogo, começaram a estar em cima da mesa as recordações de 10 de fevereiro de 2019: Benfica 10-0 Nacional. Havia em campo um homem que se lembrava muito bem desse jogo de há mais de sete anos: Rafa, que apontou, nessa noite histórica na Luz, o 9-0.

O Benfica estava muito modificado relativamente ao início do jogo (Manu, Ríos, Lukebakio, Durán e Schjelderup nos lugares de Tomás Araújo, Barrenechea, Pavlidis, Sudakov e Rafa), mas continuava a excitar-se com o cheiro a medo e a ineficácia que via nos corpos e nos olhos dos adversários.

E assim continuou por mais meia dúzia de minutos: insaciável, voraz, devorador. Até que, ao sétimo golo, tendo o Benfica terminado a sua obra, descansou — como vem na Bíblia. Nem chegou a ultrapassar os 7-0 à B SAD em novembro de 2021, os 7-2 ao Farense em março de 1984 e os 7-1 ao Olhanense em maio de 1974, as últimas vezes em que, para a Liga, os encarnados tinham marcado mais de seis golos fora de casa.

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