Luka Modric (IMAGO)
Luka Modric (IMAGO)

O 'lukaquartista' de Ruben Amorim

Modric é bússola, barómetro, altímetro, termómetro, anemómetro e até higrómetro. Sorte tem Ruben Amorim de o ter no Milan, mesmo aos 41 anos

Aidade é um número, dizem. Pepe tinha 41 anos quando decidiu terminar a carreira. Cristiano Ronaldo tinha 41 quando decidiu que ainda não era hora. Manuel Neuer completará 41 dentro de seis meses e apenas abdicou da Mannschaft. Luka Modric está a 23 dias de chegar aos 41 e continua a ser tudo no Milan (agora) de Ruben Amorim: bússola, barómetro, altímetro, termómetro, anemómetro e até higrómetro.

É preciso perceber onde estão o norte e o sul? A resposta é dada por Luka. Temos de avaliar como está a pressão antes do derby della Madonnina? Luka. Indicações para jogar em cima dos Pirenéus ou ao nível do mar? Luka. Perceber como se deve jogar a 40 graus ou a zero graus? Luka. Vamos jogar em Vila do Conde e temos de lidar com muito vento? Luka. Está imensa humidade e é necessário aprender a lidar com ela? Luka.

Luka é tudo. É passado, é presente e, até ver, é futuro. Quem o vê a jogar no Milan com o número 14 nas costas (que já foi de Cruyff, Thierry Henry e Xabi Alonso) não vê um quarentão, a não ser que olhe para as rugas que aparecem no rosto magro. Vê um médio que consegue usar microscópio e telescópio com a mesma facilidade.

Luka começou como trequartista (Dínamo Zagreb, Zrinjski Mostar ou Inter Zapresic). O homem que anda, sobretudo, pelo último terço do campo. Era um trequartista que trabalhava, corria e suava e que, ao mesmo tempo, controlava o ritmo do jogo com elevadíssima precisão no passe longo e curto e também com triveladas ao nível das de Ricardo Quaresma.

Com os anos — sejamos livres na conotação —, recuou um pouco no terreno e tornou-se uma espécie de duequartista (Tottenham e já um pouco no Real Madrid), o homem que anda muito perto do círculo central, sem recear avançar ou recuar para qualquer das áreas. Aliava trabalho e passes milimétricos a inteligência tática, leitura de jogo e interceções e recuperações de bola. Agora, no Milan, já não é um trequartista nem um duequartista. Se quisermos continuar na anarquia linguística, é uma espécie de tuttoquartista. O homem que anda por onde quiser. Joga a 6, a 8, a 10, a 7 e, se preciso for, pode jogar entre os dois centrais, utilizando microscópio e telescópio.

Há uns anos largos, em julho de 2011, tive a felicidade (juntamente com o então meu camarada Miguel Cardoso Pereira) de entrevistar um dos génios do futebol mais lúcidos e inteligentes com quem tive o prazer de me cruzar: Pablo César Aimar Giordano. Às tantas, perguntamos-lhe: Como cataloga Messi: dez, nove, 11, 7 ou um pouco de tudo? A resposta: «Bem, ele organiza e finaliza. Faço-vos uma pergunta: Maradona era um dez?». Sim, era, respondemos. Argumentação de Aimar: «… mas não só. Organizava e finalizava, fazia tudo.» E Messi?, perguntámos. Resposta desconcertante: «Messi? Sinceramente, nem sei o que é Messi. Só há uma coisa que sei: Messi joga de Messi

É assim, plagiando Aimar, que vejo Modric: «Sinceramente, nem sei o que é Modric. Só há uma coisa que sei: Modric joga de Modric.» Obrigado pela ajuda, Pablo. Modric não é trequartista, duequartista ou tuttoquartista. Luka joga de lukaquartista. Sorte a de Amorim.

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