Nem Leão nem Conceição: um tédio que confirma a crise do 'calcio' (crónica)
Milan e Juventus defrontaram-se, neste domingo, em San Siro, em partida da 34.ª jornada da Serie A, e empataram a zero. Em circunstâncias normais, um jogo sem golos não é propriamente um espetáculo que mereça o bilhete do adepto ou a assinatura do telespectador, mas às vezes um nulo é feito de grandes defesas, oportunidades desperdiçadas ou da vontade de ganhar das duas equipas – ou pelo menos de uma delas.
Mas os 90 minutos que estes dois gigantes do futebol italiano proporcionaram roçam o que de pior tem o futebol de um país que pela terceira vez consecutiva vai falhar a presença num Campeonato do Mundo. Calculismo exacerbado, medo de perder, taticismo prevalecendo sobre a criatividade. Um tédio.
Separados por três pontos, com vantagem na classificação para a equipa da casa, ninguém quis assumir o risco. Ou melhor, ainda houve uma exceção, personificada em Francisco Conceição, o melhor jogador em campo porque foi aquele que furou linhas, procurou o desequilíbrio em jogadas de um para um e chegou mais perto da baliza defendida por Maignan – e ironicamente aquele que aos 80 minutos foi retirado do relvado, sem que o substituto fizesse melhor. Sem surpresa.
Do outro lado, outro internacional português com noite para esquecer: Rafael Leão continua sem rasgo, demasiado preso a uma equipa que já não joga em transições (o ponto mas forte do avançado formado no Sporting) mas é incapaz de assumir um ataque posicional. Mesmo com Modric em campo (e este não sabe jogar mal, mas foi obrigado a sair de campo após choque de cabeças violento com Locatelli), os rossoneri passaram o jogo todo a jogar para trás sempre que a bola chegava a meio do meio-campo da Juventus, como se o último terço do relvado fosse chão de lava.
As próprias escolhas para os onzes explicam as ideias de cada treinador: perfis físicos e de pouca arte, um paradoxo numa cidade onde se assiste às melhores árias de ópera – seguramente que Massimiliano Allegri deixou de frequentar o Scala.
Foram as estratégias de cada treinador na origem de um clássico que confirmou a crise identitária do calcio – sem uma verdadeira oportunidade de golo. Porque se a Juventus, atrás do Milan na tabela (mas ambos em lugares de Champions), tentou mais qualquer coisa a nível ofensivo, está no entanto a anos-luz do futebol requintado made in Nápoles com que Luciano Spalletti foi campeão em 2023. Foi apenas há três anos, mas parece uma eternidade. O tempo passa a fugir quando as sensações são boas. Já o contrário…