O Sousa foi campeão de série da I Divisão da AF Porto, após derrotar o Lustosa por 3-1 - Foto: Natanael Ferreira
O Sousa foi campeão de série da I Divisão da AF Porto, após derrotar o Lustosa por 3-1 - Foto: Natanael Ferreira

Não têm salário ou casa para jogar e até lavam a roupa na garagem do vizinho: isto é «amor à terra»

Em São Vicente de Sousa (Felgueiras), com muito pouco faz-se... imenso. Não há campo para treinar ou jogar, nem ordenados. Mas sobra apego e carinho pela camisola que é vestida por verdadeiros campeões

«Hoje, a nível profissional, não há amor ao futebol. Há amor ao dinheiro. Aqui é ao contrário. Ou jogas porque gostas ou não jogas. Não há ninguém que receba salário», assume o presidente do Sousa, Miguel Ferreira, em conversa com A BOLA

Sem ordenados e a época inteira com a casa às costas por não ter um campo com condições para jogar (nem sequer treinar), o clube do concelho de Felgueiras superou as adversidades e sagrou-se campeão da Série 1 da I Divisão distrital da AF Porto, esperando, por isso, subir à Divisão de Honra.  

O Sousa disputa agora a fase de apuramento de campeão da I Divisão da AF Porto - Foto: Natanael Ferreira

Afinal, o que torna esta conquista tão especial? «O amor à terra. É o segredo disto tudo. Estes jogadores amam a terra. E depois o apoio das pessoas, seja em Barrosas, em Torrados [casas emprestadas nas freguesias vizinhas, por onde o clube treinou e jogou], ou onde for. Estava à vista que, juntando isto, íamos fazer uma época incrível», acrescenta o técnico. 

Paulo Silva treina o clube da terra enquanto tira o I Nível de treinador - Foto: Natanael Ferreira

«Só foi possível graças às pessoas de cá, que gostam e ajudam, como o Paulo», agradece o presidente. «Pediram-me muito que fosse uma pessoa da terra a ajudar», confirma o treinador, que orienta o irmão Alcides e muitos amigos. «Faço o meu papel. Não quero saber se são meus amigos ou irmãos. Tenho de ser igual para todos, mesmo para o Rui, que tem 46 anos. Ouvir um rapaz novo a gritar com ele é difícil, mas aceitou sempre tudo. É diferenciado», elogia Paulo. 

O veterano a quem o treinador se refere é Rui Ferreira. Depois de 16 anos em inatividade (em termos federativos), voltou a jogar, para vencer o primeiro título, aos... 46 anos: «Foi a primeira subida e o primeiro campeonato.» 

Rui Ferreira venceu pela primeira vez a série aos 46 anos - Foto: D.R.

Importa contextualizar que, na última década, o Sousa participou no campeonato Popular de Felgueiras (entre as freguesias do município) e só em 2023, com a nova direção, voltou a federar-se e, como tal, regressou às competições da AF Porto.  

Rui Ferreira, um histórico do clube no Popular, só aceitou nesta temporada o desafio de voltar ao ativo… e agradece aos livros. «Tentaram convencer-me muitas vezes, porque aos 42 anos deixei de jogar futebol quando disse que não tinha mais saúde para isto. Mas depois comecei a ler livros, a alimentar-me melhor e a fazer exercícios físicos específicos, que aprendi em livros. Melhorei a minha performance e consegui voltar a jogar com saúde», enaltece o jogador mais velho da equipa. 

Presidente aos 25 anos, eleito numa mesa de café 

Depois de o clube ter ficado inativo, no início da década passada, o Sousa voltaria para participar no Popular. No entanto, a terra queria mais e, em 2023, Miguel Ferreira, com apenas 25 anos, assumiu as rédeas do emblema da freguesia para fazer dele um clube a sério. 

«Jogávamos no Popular - eu inclusivamente - e houve um jogo qualquer no final da época em estávamos seis pessoas numa mesa de café e surgiu a ideia de tomar conta do clube e criar uma estrutura. Federámo-lo, a partir de uma conversa de café», recorda o jovem dirigente. 

Miguel Ferreira (à esq.) deu vida ao Sousa - Foto: Natanael Ferreira

Quem estava nessa mesa era André Lopes, jogador e membro da direção, e relembra: «Era eu, o Cláudio, o Antony, o Miguel, o Paulinho e o Rafa. Na altura falava-se que o clube devia 4 ou 5 mil euros à AF Porto. Decidimos ir à Associação ver quanto era. Se fosse esse valor, não tínhamos como reerguer o clube... Quando chegámos lá, eram só 70 euros, da cota de filiação. Olhei para o Miguel, dei-lhe um abraço e disse: 'Epá, vamos lá federar o clube'.» 

O agora número 10 do Sousa assumiu (fora de campo) funções nas quais ainda hoje se mantém, com muito sacrifício e, claro, amor: «Tenho uma vida muito atribulada. Tenho um café e pago a um empregado, para eu ter disponibilidade para o clube. Se não, não precisava. Não ganho nada em troca, só amor ao clube, porque somos todos amigos e estamos a fazer uma coisa única. Isso orgulha-me. Não vou deixar cair o Sousa.» 

André Lopes e a mulher têm um filho, o café da freguesia e ainda conseguem arranjar (muito) tempo para o Sousa - Foto: Natanael Ferreira

De facto, a atual direção não tem tido tarefa fácil. Com o estádio em obras, anda para trás e para a frente com o material. Ora na carrinha de um, ora no carro de outro..., para onde a Câmara os mandar - seja treinar ou jogar. Nunca há campos ou dias fixos, com a estrutura a estar sempre dependente de outrem. 

«É cansativo andar sempre a carregar o material. Agora temos as máquinas de lavar em casa de um senhor que disponibilizou a garagem. Às vezes, são 11 da noite e estamos a entrar-lhe casa adentro. Já quisemos pagar o que aquilo lhe gasta de luz, mas ele não aceita, quer ajudar», conta Miguel. 

Os adeptos têm ajudado a sustentar o clube e não faltaram ao jogo decisivo - Foto: Natanael Ferreira

Plantel tem um ex-craque da seleção nacional

É, certamente, o jogador mais experiente do Sousa. Tem 42 anos, foi duas vezes internacional sub-20 por Portugal, jogou na Liga 2 pelo Felgueiras, mas recusa-se a liderar a equipa. «Sempre que eu era capitão, saía lesionado ou éramos goleados», brinca Martinho.

O avançado partilhou balneário com nomes grandes do futebol como Eliseu, Vieirinha e José Fonte. «Esse tempo era um mar de sonhos», revive. No entanto, uma sequência de lesões fê-lo interromper a carreira aos 22 anos. «No último ano de Felgueiras, tive uma hérnia inguinal. Quando recuperava da hérnia, fraturei o metatarso. Depois tive um problema na coluna. Tive três anos com muitas lesões seguidas e optei por deixar de jogar», lamenta. 

Martinho em ação pelo Felgueiras, contra o União da Madeira, na Liga 2, em 2003 - Foto: A BOLA

Voltara, todavia, ao ativo, anos mais tarde, no Sousa, por amor ao futebol e à terra, sem nunca receber nada em troca: «Quando começou a haver competição a nível concelhio e o clube reabriu, comecei a jogar. Na altura em que se federou, até tinha intenção de deixar, mas depois continuei pelo gosto à terra.» 

«Neste clube, jogamos pelo amor à camisola, não recebemos nada, somos todos amigos. É família, amizade, não tem nada que ver com um clube profissional. Em quase 15 anos, nunca recebi. Nunca quis», finaliza o experiente jogador.

Foram os adeptos que 'pagaram' a festa de campeão - Foto: Natanael Ferreira