Finalmente, Vinícius revelou-se líder!
Finalmente, Vinícius revelou-se líder!

Há precisamente 20 anos e oito dias vi, em Dortmund, o Brasil de Parreira desenvencilhar-se com muita facilidade do Japão, à altura treinado por Zico. Foi um jogo quase de sentido único, que deu para o ‘escrete’ fazer todas as poupanças que quis, porque o triunfo (4-1) nunca esteve em causa.

Duas décadas volvidas, Houston foi palco de uma mata-mata entre canarinhos e nipónicos de roer as unhas até ao cotovelo. O Brasil teve de aplicar-se a fundo para ultrapassar a muralha japonesa, e arrancou uma segunda parte em que correu riscos, mas foi sobretudo humilde, ao aceitar que estava em risco de ir de imediato para casa, o que a suceder entraria na galeria de desilusões/humilhações, ao lado do Maracanazo de 1950, e do 1-7 com a Alemanha, o Mineirazo de 2014.

Devo confessar que não gosto da atitude normalmente provocadora de Vinícius, algo que o desfoca do essencial, retira-lhe concentração, e fá-lo render menos do que vale. Contra o Japão, com o resultado em 1-1, houve um lance em que o avançado do Real Madrid forçou, pela esquerda, a jogada individual, e perdeu a bola; ora, de seguida não descansou até recuperá-la e dar início a nova cavalgada brasileira, à procura do golo da vitória. Figura mais destacada do ‘escrete’, nesse momento Vinícius revelou-se o líder que eu não sabia haver dentro dele, porque liderou pelo exemplo, não ficou à espera que fossem os outros a resolver a sua asneira, não quis que os restantes dez corressem para ele...  

O jogo foi muito curioso, porque teve a mesma matriz de muitas partidas da Liga portuguesa: a equipa mais fraca visita um dos grandes, arma-se em 5x4x1, mantém uma disciplina tática férrea, vai baixando o bloco à medida que o sufoco aumenta, e sempre que pode tenta o contra-ataque, ou joga no erro do adversário.Como se tem visto neste Mundial, as peras doces rareiam, e mesmo as equipas menos cotadas no ‘ranking’ discutem resultados e provocam surpresas.

É verdade que ainda não conseguem jogar olhos nos olhos com os ‘gigantes’, mas o progresso técnico-tático é evidente, ou não estivesse a maior parte dos seus jogadores a atuar fora de portas. Afinal, tal como sucede, por exemplo, com Portugal, Brasil ou Argentina.

Parabéns ao Japão, pela evolução. E a Carlo Ancelotti, que sempre que mexeu no Brasil melhorou a equipa. 

* Eusébio da Silva Ferreira jogou no México (CF Monterrey), Estados Unidos (Boston Minuteman, Las Vegas Quicksilver e New Jersey Americans) e Canadá (Toronto Metros-Croatia). O Mundial de 2026 joga-se onde o ‘King’ espalhou o que lhe restava de magia…

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