Mundial
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Das nove seleções africanas que iniciaram o Mundial de 2026, oito garantiram o apuramento para a fase a eliminar. Não acredito que seja uma coincidência.
Durante vários anos tive o privilégio de trabalhar na Nigéria, uma das maiores seleções do continente africano, e de viver por dentro uma Taça das Nações Africanas. Essa experiência permitiu-me compreender uma dimensão do futebol que nem sempre é valorizada quando analisamos o rendimento de um jogador. Perguntam-me muitas vezes qual é a principal diferença entre o jogador europeu e o jogador africano. Existem diferenças culturais, existem diferenças nos percursos de formação.
Existem até diferenças biológicas entre indivíduos, como existem em qualquer população. Mas a maior diferença que encontrei não foi nenhuma dessas. Foi a dimensão do sonho. Não digo que o sonho africano seja melhor do que o europeu. Constato apenas aquilo que vivi. Em muitos dos jogadores com quem trabalhei, o futebol não era apenas uma profissão.
Era a oportunidade de mudar a vida de uma família inteira. Enquanto treinador de pessoas que jogam futebol, acredito que tudo começa com um objetivo. Quanto mais claro é esse objetivo, maior tende a ser o compromisso para o alcançar. Depois entram em jogo as nossas crenças. São construídas pelos nossos pais, pela educação, pela cultura e pelo contexto social. Umas limitam-nos. Outras potenciam-nos. Mas existe ainda um terceiro fator: a necessidade.
Charles Darwin defendia que não sobrevive o mais forte nem o mais inteligente, mas aquele que melhor se adapta. Quando o sonho está ligado à sobrevivência, à educação dos irmãos, à saúde dos pais ou à construção de uma casa, a capacidade de adaptação cresce de forma extraordinária. Foi isso que encontrei em África. Não em todos os jogadores. Mas numa percentagem muito significativa deles. Quanto maior era a necessidade, maior era a dedicação. Quanto maior era a clareza do propósito, maior era a capacidade para suportar o sacrifício diário.
Talvez seja essa uma das explicações para o crescimento do futebol africano.
Porque por detrás de muitos daqueles jogadores existe algo que nenhuma estatística consegue medir. Existe um sonho. E continuo a acreditar que poucas forças são tão poderosas como um ser humano que luta para transformar a vida de quem ama.