A infância também entra em campo
Num jogo de futsal para crianças deve existir espaço para que aconteçam muitas coisas que, mais tarde, numa fase mais avançada da vida, serão mais difíceis de aceitar e até menos prováveis de acontecer.
E tudo isto por uma razão muito simples: não estamos a falar de jovens nem de adultos. Estamos a falar de crianças.
Quando digo que deve existir espaço, quero dizer que deve existir compreensão, aceitação e bom senso.
Uma criança pode distrair-se com algo que vê na bancada. Pode tentar uma finta dentro da sua própria área. Pode dar um passo de dança durante o jogo. Pode ignorar momentaneamente a bola porque ficou fascinada com algo na sua camisola. Pode abandonar o campo porque quer beber água. Duas crianças podem ficar à conversa enquanto o jogo continua.
Tudo isto são situações que realmente podem acontecer.
E talvez o mais curioso seja perceber que muitas destas situações apenas nos parecem estranhas porque, por momentos, nos esquecemos de quem está dentro do campo.
Por vezes, parece que o simples facto de uma criança vestir um equipamento e entrar para um jogo faz com que deixemos de olhar para ela como criança e passemos a olhar apenas para ela como atleta.
Mas a entrada num campo não apaga a infância. Dentro ou fora dele, a criança continua a ser criança.
Continua curiosa, imaginativa e facilmente distraída por aquilo que a rodeia. Continua a descobrir o mundo e, ao mesmo tempo, a descobrir o jogo. Esquecer este princípio talvez seja um dos erros mais frequentes do desporto de formação, porque leva os adultos a esperar comportamentos, níveis de concentração e formas de compreender o jogo que nem sempre são compatíveis com a idade da criança.
Aceitar isto não significa ignorar tudo o que acontece. Não significa deixar andar. Significa olhar para estas situações com naturalidade e fazer as correções necessárias de forma calma, equilibrada e respeitadora.
Se for necessário corrigir, que seja com intenção educativa. Nem tudo exige uma repreensão intensa ou uma reação desproporcionada. Na verdade, muitas destas situações não resultam de má vontade ou falta de respeito; resultam simplesmente daquilo que é próprio da infância.
Por isso, mais do que corrigir de forma imediata, muitas vezes faz sentido explicar, orientar e ajudar a criança a compreender aquilo que aconteceu. O objetivo não deve ser apenas interromper um comportamento, mas contribuir para uma aprendizagem que faça sentido para quem ainda está a descobrir o jogo.
Tudo isto exige bom senso por parte de todos os adultos envolvidos: pais, treinadores, dirigentes e também árbitros.
As regras são importantes e fazem parte da aprendizagem do jogo. No entanto, quando falamos de crianças, importa recordar que o objetivo não deve ser apenas identificar o erro, mas ajudar a criança a compreender aquilo que deve fazer.
Tal como um treinador procura ensinar antes de exigir, também a aplicação das regras pode ter uma dimensão educativa. Nem sempre a resposta mais útil será a punição imediata. Em muitas situações, uma explicação simples pode ter um impacto muito maior na aprendizagem da criança do que a aplicação automática de uma sanção.
Porque, no desporto de formação, o objetivo não deve ser apenas fazer cumprir as regras do jogo. Deve ser também ajudar as crianças a compreendê-las.
Muitas vezes, e apesar de o desporto estar infelizmente cheio de exemplos em sentido contrário, aquilo de que a criança mais precisa não é de mais pressão. Precisa de tempo.
Tempo para crescer, para ganhar experiência e para compreender melhor aquilo que faz e aquilo que acontece à sua volta.
Quando esse tempo não existe, ou quando os adultos não compreendem que cada criança tem o seu próprio ritmo de desenvolvimento, o desporto corre o risco de perder uma parte importante do seu propósito educativo.
Com o passar dos anos, muitas destas situações desaparecem naturalmente. As crianças crescem, desenvolvem uma maior capacidade de concentração, atribuem mais significado às suas ações e assumem novas responsabilidades dentro da equipa.
É importante que pais e treinadores compreendam que nem tudo precisa de ser corrigido. Muitas vezes, determinadas situações ainda não fazem verdadeiramente sentido para a criança. Nem sempre compreendem a razão de certas exigências ou correções, e isso pode ser suficiente para que comecem a perder interesse por aquilo que antes lhes dava prazer.
Há aprendizagens que surgem através da orientação dos adultos, mas há muitas outras que chegam simplesmente com a maturidade e com o tempo.
Também os pais não devem sentir vergonha quando estas situações acontecem.
Ver um filho distrair-se, conversar com um colega durante o jogo ou fazer algo inesperado em campo não é necessariamente um sinal de falta de educação, desinteresse ou incapacidade. Muitas vezes é apenas um sinal de que continua a ser uma criança.
Os pais não precisam de viver estes momentos como uma exposição pública ou como um reflexo da sua competência enquanto educadores. Faz parte do crescimento. Faz parte da descoberta do jogo. Faz parte da infância.
Muitas das situações que hoje podem causar embaraço aos adultos serão, daqui a alguns anos, as histórias que contarão com um sorriso.
E talvez, se todos os adultos compreenderem verdadeiramente aquilo que significa trabalhar com crianças, esse embaraço nunca chegue sequer a existir.
Há ainda outro aspeto importante: evitar comparações.
As crianças não são todas iguais. Não têm o mesmo ritmo de desenvolvimento, a mesma personalidade ou a mesma forma de viver o jogo.
Há crianças mais expansivas, mais sonhadoras, mais concentradas ou mais agitadas. Nenhuma destas características define, por si só, aquilo que serão no futuro.
O papel dos adultos não é transformar todas as crianças no mesmo modelo de jogador. É criar um ambiente onde cada uma possa crescer, aprender e descobrir o prazer de jogar sem deixar de ser quem é.
Porque, antes de serem atletas, são crianças. E isto é algo que deveria estar presente em todos os momentos e na consciência de todos os adultos envolvidos.
Talvez o problema não seja quando uma criança se distrai durante um jogo. Talvez o problema surja quando os adultos deixam de aceitar que isso possa acontecer.
Porque aqueles jogos continuam a ser jogos de crianças. E se são jogos de crianças, então tudo aquilo que faz parte da infância — a curiosidade, a imaginação, a espontaneidade, a descoberta e até algumas distrações — também tem de encontrar espaço dentro deles.
Talvez o verdadeiro desafio dos adultos seja nunca se esquecerem disso.