Mundial
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A imparável força do futebol
O meu filho é 100 anos mais novo do que o FC Porto. Nasceu em 1993, nas vésperas do início do único penta do futebol português. Ao contrário de muitos pais e avós, nunca o inscrevi como sócio do FC Porto nem nunca o influenciei, pelo menos de uma forma direta ou consciente, para ele ser do meu clube. Aliás, ele até começou por dizer que era do Sporting, coisa que eu tive de tolerar com a esperança de que ele um dia abrisse os olhos e encontrasse o bom caminho.
Umas semanas antes de fazer 6 anos (em pleno ano do penta), pergunto-lhe:
— O que queres de prenda de anos?
— Uma camisola do Sporting, diz-me.
Conformei-me e comecei a pensar em pedir a um amigo sportinguista que me fizesse o favor de comprar uma camisola do Sporting…
Mas as forças do bem e da razão, mesmo quando trabalham em silêncio, são muito poderosas. E, um dia, estávamos nós no corredor lá de casa a jogar à bola, para irritação da mãe, e diz-me ele:
— Pai, afinal sou do FC Porto!
Estremeci.
— Tens a certeza? Já não queres a camisola do Sporting?
— Não, quero uma camisola do FC Porto.
Meu dito, meu feito. No fim de semana seguinte, meti-me no carro com ele e fomos até ao Porto. Direção: estádio das Antas. A equipa costumava treinar num relvado por trás do estádio e fomos até lá para tentar ver a equipa. Não havia ninguém.
— Hoje não há treino?
— Estão no Parque da Cidade.
Lá fomos nós. Antes, passei pela loja do FC Porto e comprei uma camisola e uma bola de futebol.
No Parque da Cidade, vimos à distância os jogadores a correrem e descontraírem. À sombra, o treinador e a equipa técnica esperavam pelo fim da corrida e do passeio. Dirigi-me ao Fernando Santos, cheio de lata, apresentei-me e expliquei a situação. Que o meu filho ia fazer anos em breve e que queria ver os jogadores do FC Porto, e que lhe tinha comprado uma bola, e uma camisola, e que gostava que ele as autografasse.
O Fernando Santos foi o primeiro. Assinou e, depois dele, o André, uma das mais refulgentes glórias portistas. Ficámos extasiados. E, entretanto, chegam os jogadores. Lá vou eu outra vez, cheio de lata, falar com eles. À frente vinha o Paulinho Santos. Pegou na bola, assinou-a e convocou os outros jogadores.
— Venham cá assinar a bola ao miúdo!
Foram todos, todos assinaram. E se algum se distraía e passava por nós sem assinar, o Paulinho chamava-o, fazia questão de que ninguém faltasse à chamada. Saímos do Parque da Cidade e do Porto de coração cheio. Tínhamos connosco uma camisola tamanho XS e uma bola gigantesca, assinada por todos os jogadores que fecharam o penta, mais a equipa técnica.
Desde esse dia, o meu filho nunca mais mudou de clube. A bola ainda lá está, no quarto dele. É sócio, como eu, vê os jogos à distância e é livre de escolher. Felizmente, escolheu o melhor.
A festa dos adeptos
O Mundial de Futebol não é apenas um torneio de seleções. É também um Mundial de adeptos. E são eles que estão a ajudar à festa, e de que maneira! Destaco dois grupos de adeptos: os noruegueses e os escoceses, que estão a esvaziar bares e a encher os estádios de uma alegria contagiante. As gaitas de foles e os remos imaginários são manifestações extraordinárias da força e da influência do futebol.
E como se não bastasse a festa que eles fazem, ainda se juntam para celebrar em conjunto, usando aquela linguagem tão maravilhosa quanto épica da felicidade de pertencerem, todos eles, à imensa tribo do futebol, o futebol da bola, do golo, das emoções e das paixões, o futebol da rivalidade sem ódios, o mesmo futebol que cumprimenta e que sabe perder com tanta humildade como sabe ganhar com elegância. Mas sempre em festa, de preferência aos gritos. Que sequem os bares, mas nunca as gargantas!
O problema é que, se virarmos isto ao contrário, vemos o lado tenebroso do futebol. Mas o nossa sorte — a nossa esperança! — é que onde há negócio, contrabando, mercado negro e especulação, os adeptos contrapõem alegria, jovialidade, loucura e festa.
Se isto acabar, acabou a alma e a paixão do futebol, se isto acabar, o futebol transforma-se numa subsidiária do Transfermarkt, gerida por empresários e intermediários, mais preocupados com as métricas e os petrodólares do com que o génio imprevisível de um futebolista que levanta estádios. Que seria do futebol sem os adeptos? Não quero conhecer a resposta, vamos fazer de conta que esta é uma pergunta retórica.
Uma paixão azul
Conheço Cabo Verde muito menos do que gostaria. Mas gosto muito de tudo o que conheço. Gosto do país e dos lugares, gosto do ambiente e da música, gosto da comida e da praia, gosto, acima de tudo, das pessoas de Cabo Verde. Simpáticas, amáveis, impregnadas de uma genuína vontade de ajudar, conhecer e partilhar. Costumo dizer que sou filho adotivo de Cabo Verde e que gostava de viver ali os meus últimos dias de reforma e repouso.
Por isso sinto com tanta emoção este sonho maravilhoso da seleção cabo-verdiana no Mundial de futebol. É um sonho de alma cheia, de confiança e de muita vontade de estar lá para mostrar Cabo Verde ao mundo, como ele merece ser visto e conhecido.
Aconteça o que acontecer na próxima sexta-feira, Cabo Verde já ganhou este Mundial. Quem diria, no momento da qualificação, que os tubarões azuis iam jogar contra os campeões do Mundo num jogo a eliminar? Quem pode dizer o que vai acontecer? Ninguém, na verdade.
Mas também não deixa de ser verdade que o hino de Cabo Verde dá a resposta: «a esperança é do tamanho do mar que nos abraça.»
Saltillo, para sempre
Há 40 anos, Portugal participou no seu segundo Mundial de futebol. Foi o Mundial da vergonha, por tudo o que aconteceu e não devia ter acontecido. Quarenta anos depois, aqui estamos de novo em mais um Mundial, parcialmente jogado no México, mas com condições logísticas e técnicas irrepreensíveis. Tudo parece ter sido corrigido, todas as lições parecem ter sido aprendidas.
Mas o que aconteceu em Saltillo, em 1986, não pode ser esquecido. Tem de ficar para sempre na nossa memória. Por isso recomendo a leitura atenta de um livro escrito por Pedro Adão e Silva e João Tomaz: 'Deixem-nos Sonhar – Caso Saltillo: Portugal e o México 86'. A obra já tem 9 anos, mas o tema, feliz ou infelizmente, não morre.
Muitos acham que Saltillo foi o 25 de abril do futebol. Talvez tenha sido o 25 de novembro. Mas isso não interessa. O que interessa, para quem gosta de conhecer o passado, é perceber o que aconteceu e o que esteve na origem da revolta dos jogadores. Os julgamentos, esses, ficam ao critério de cada um. 'Deixem-nos Sonhar – Caso Saltillo: Portugal e o México 86', por Pedro Adão e Silva e João Tomaz.