Roberto Martínez (MIGUEL NUNES)
Roberto Martínez (MIGUEL NUNES)

Martínez terá falhado a análise: o 2.º lugar pode ser o nosso inferno

Portugal evitou a fúria da América do Sul e caiu no tabuleiro europeu do Mundial, trocando a paz logística por doze mil quilómetros de drama e asfalto…

PALM BEACH GARDENS — Dizem que todas as grandes viagens americanas se medem pelo tamanho do erro que cometemos na primeira bifurcação. Sentado nas imediações de Palm Beach, a ver o Atlântico fingir que é um lago calmo enquanto se sacuda a areia da Florida das botas, olha-se para o emparelhamento dos 16 avos de final deste Mundial e torna-se impossível deixar de sorrir com a ironia do destino.

Portugal sobreviveu ao vulcão da Colômbia, agarrou-se à parede do castelo graças aos milagres de Diogo Costa e à cabeça de Rúben Dias no limite do tempo regulamentar, mas o prémio por tanta heroicidade defensiva é um bilhete de primeira classe para o corredor mais implacável da prova.

Ficámos em segundo lugar do grupo e a estrada americana transformou-se numa autoestrada europeia, onde cada berma esconde um predador com sotaque do Velho Continente.

Antes do jogo com os cafeteros, Roberto Martínez tentou dourar a pílula, atirando que era rigorosamente igual ficar em primeiro ou em segundo lugar. Pois bem, mister, a matemática e a geografia desmentem essa tese.

Afinal, era bem melhor ter conquistado a liderança. A ilusão de que todos os caminhos vão dar ao mesmo destino cai por terra mal abrimos o mapa das hostilidades e pesamos o terrível desgaste que aí vem nas próximas semanas, assim Portugal continue em prova.

Olhando friamente para o desenho dos caminhos até à final, a tentação de amaldiçoar o nulo de Miami é gigante. Se a Seleção tivesse descoberto a rota do golo contra os colombianos, o horizonte imediato vestir-se-ia com as cores do Gana em Kansas City, abrindo uma rota mais suave, onde a Argentina, o Brasil, a Inglaterra ou a Noruega só apareceriam mais tarde.

Seria um caminho com forte perfume sul-americano, o que, julgando pelo sofrimento atroz que se passou para resistir à intensidade física da Colômbia, talvez se transformasse num autêntico calvário para as pernas de Nuno Mendes. Ainda assim, era o lado do sonho e da gestão tática.

Há depois o veredicto cruel da balança quilométrica, esse monstro invisível que destrói os músculos dos atletas e a paciência dos jornalistas. Se Portugal tivesse agarrado o primeiro lugar do grupo, a rota seria quase um passeio pelas planícies americanas: Kansas City, um salto a Vancouver, o regresso ao conforto de Kansas e a semifinal em Atlanta, totalizando uns simpáticos 8.130 quilómetros de voo.

Em vez disso, o segundo posto atira a comitiva para uma maratona transcontinental digna de um camionista de longo curso. Começamos na madrugada de dia 3 de julho na noite fresca de Toronto para defrontar a sempre cerebral Croácia do eterno Luka Modrić.

Se a equipa passar o teste, desce ao calor de Arlington, em Dallas, voa depois para a costa oeste até ao betão de Inglewood, em Los Angeles, e regressa a Dallas para as meias-finais. Contas feitas ao odómetro, são 12.600 quilómetros de céu e fuso horário. É uma loucura logística que Martínez considerou «igual».

A preferência óbvia pelo primeiro lugar assenta na lógica clássica: menos desgaste, menos horas de aeroporto e uma rampa de lançamento que parecia convidar à gestão de esforço. Mas há que injetar uma pitada de romantismo tático nesta viagem.

É verdade que Portugal caiu no quadrante onde habitam a Alemanha, os Países Baixos, Marrocos, a França, a Bélgica, a Suécia e a Espanha. É um autêntico campeonato da Europa jogado com dólares e estádios espaciais.

Mas não será este, precisamente, o habitat natural onde esta equipa sabe como sobreviver? Sofremos contra o caos, contra a rotação supersónica de Luis Díaz, contra a anarquia física que as equipas africanas e sul-americanas impõem no relvado. Diante de seleções europeias mais estruturadas, onde o jogo se resolve na geometria do meio-campo, a Seleção ganha outra lucidez.

João Neves dá outra coesão, Veiga antecipa os caminhos e o xadrez de Martínez faz sentido. Trocámos as milhas aéreas pelo direito a jogar no nosso quintal conceptual. A estrada ficou empinada, mas Toronto é já ali.

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