Nos jogos do Mundial
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Nos jogos do Mundial há duas pausas para hidratação

Mundial em alerta vermelho: os desafios ambientais para a saúde e no desempenho dos jogadores

Esta Tribuna Livre é da responsabilidade de Sérgio Loureiro Nuno, fisioterapeuta olímpico dedicado a performance e recuperação de lesões desportivas; professor universitário

Pela primeira vez, o campeonato do Mundo de futebol decorre em três países, Estados Unidos, México e Canadá, abrangendo uma vasta área geográfica, com cidades anfitriãs separadas por milhares de quilómetros.

Esta dispersão expõe os atletas a uma combinação única de fatores ambientais com potencial para influenciar a saúde e o desempenho competitivo. Entre os principais desafios destacam-se o calor extremo, a altitude, a poluição atmosférica, bem como as exigências associadas às viagens. Nenhuma edição anterior do Campeonato do Mundo reuniu simultaneamente estes quatro fatores de risco.

Embora alguns dos desafios ambientais identificados tenham estado presentes em anteriores Campeonatos do Mundo, como o calor no Campeonato do Mundo no Brasil em 2014 ou a altitude na África do Sul em 2010 e no México em 1970 e 1986, nunca uma única edição reuniu uma combinação tão complexa.

Os encontros da Seleção portuguesa frente à República Democrática do Congo e ao Uzbequistão, agendados para Houston às 13h00, poderão decorrer sob condições de calor intenso. A análise utiliza o índice WBGT (Wet Bulb Globe Temperature), uma medida que combina temperatura, humidade, radiação solar e vento para avaliar o risco térmico para a atividade física. A situação poderá ser mais preocupante no encontro entre Colômbia e Portugal, último jogo da fase de grupos marcado para Miami às 19h30, esperando-se um WBGT de 30 °C.

As recomendações internacionais para a prática de exercício em ambientes quentes variam entre organizações. O American College of Sports Medicine (ACSM) sugere limitar ou cancelar atividade física intensa quando os valores de WBGT atingem valor superiores a 30 ºC, enquanto a FIFA prevê pausas de hidratação e arrefecimento durante os jogos quando o WBGT ultrapassa os 32 °C.

Por outro lado, a Federação Internacional de Futebolistas Profissionais (FIFPRO) adota uma posição mais conservadora, recomendando pausas a partir dos 26 °C WBGT e o adiamento ou suspensão de jogos quando os valores ultrapassam os 28 °C.

As projeções para o Mundial 2026 são particularmente preocupantes. Dos 16 locais de competição, 14 apresentam habitualmente valores de WBGT superiores a 28 °C durante os meses de junho e julho, sendo que seis cidades poderão atingir valores máximos entre 30 °C e 35 °C.

Com base nos registos históricos: cerca de 56% dos estádios poderão ultrapassar os limites recomendados pela FIFPRO para adiamento ou suspensão de jogos; 25% dos estádios poderão exceder o limiar da FIFA para pausas obrigatórias de hidratação e arrefecimento; cerca de 30% dos estádios poderão ultrapassar os limites de segurança definidos pelo ACSM.

Estas projeções poderão ainda ser agravadas pelo aumento da frequência, intensidade e duração das ondas de calor associado às alterações climáticas. Embora alguns estádios disponham de coberturas retráteis e sistemas de climatização capazes de reduzir o stress térmico, o calor extremo continuará a representar um dos maiores desafios para atletas e equipas durante o torneio.

Perante este cenário, a vantagem competitiva poderá não depender apenas da qualidade técnica ou tática das equipas. A capacidade de gerir a temperatura corporal, acelerar a recuperação e adaptar os jogadores às condições climáticas poderá transformar-se num fator decisivo ao longo do torneio.

A elevação da temperatura corporal tem implicações importantes para a saúde e o desempenho dos jogadores, tais como: saúde: temperaturas corporais superiores a 39 °C aumentam o risco de doenças relacionadas com o calor, incluindo exaustão pelo calor; desempenho físico: a capacidade de realizar sprints repetidos e ações de elevada intensidade, normalmente decisivas no futebol, diminui à medida que a temperatura corporal aumenta;desempenho cognitivo: funções cognitivas complexas, como a tomada de decisão, a atenção e o acompanhamento simultâneo de múltiplos estímulos, deterioram-se quando a temperatura corporal e da pele se elevam; desempenho técnico e tático: os jogadores tendem a adaptar o seu comportamento em campo, reduzindo a intensidade do jogo para preservar o rendimento global.

Em condições de calor extremo, as equipas costumam apresentar também uma maior percentagem de posse de bola e maior eficácia de passe, adotando um estilo de jogo mais controlado e menos baseado na pressão constante sobre o adversário. Complementarmente, estratégias de arrefecimento antes e durante os jogos podem limitar o aumento da temperatura corporal e contribuir para a proteção da saúde e manutenção do desempenho dos jogadores.

As estratégias de arrefecimento constituem uma das principais ferramentas para reduzir o impacto do calor na saúde e no desempenho dos jogadores. O arrefecimento pode ser obtido por métodos externos, como a aplicação de frio sobre a superfície corporal, ou por métodos internos, através da ingestão de bebidas frias. Estas estratégias devem ser implementadas antes e durante os jogos.

O principal objetivo do arrefecimento pré-jogo é criar uma reserva térmica antes do início do exercício, reduzindo a temperatura corporal e aumentando o tempo necessário para que os jogadores atinjam valores de temperatura associados a riscos para a saúde e para o desempenho. A imersão em água fria é considerada a estratégia mais eficaz para remover calor do organismo. Contudo, a sua aplicação em contexto competitivo apresenta dificuldades logísticas significativas, exigindo infraestruturas específicas, como banheiras com controlo de temperatura e disponibilidade de gelo.

Como alternativa mais prática, os coletes de gelo têm demonstrado resultados promissores. Uma conhecida marca, criou uma tecnologia em que o interior dos referidos coletes contém um gel especial, que é congelado antes da sua utilização e posteriormente, é sobreposto sobre as camisolas. O gel vai descongelando e refresca o tronco, no sentido de baixar a temperatura corporal.

Outra abordagem eficaz consiste na combinação de estratégias internas e externas, como a ingestão de gelo triturado associada à aplicação de bolsas de gelo nos principais grupos musculares dos membros inferiores. Apesar dos benefícios, é necessário evitar um arrefecimento excessivo.

A redução exagerada da temperatura muscular pode comprometer a capacidade de realizar ações explosivas no início do jogo. Da mesma forma, o arrefecimento interno muito agressivo pode atrasar o início da sudorese, reduzindo a capacidade natural de dissipação de calor.

Por outro lado, Portugal teve a sorte até ao momento de evitar a altitude. Competir entre 1500 a 2500 metros de altitude (casos de Guadalajara e Cidade do México) exige um período de preparação de cerca de duas a quatro semanas, no sentido de promover adaptações fisiológicas importantes, como o aumento da quantidade total de hemoglobina e o consumo máximo de oxigénio.

Estas adaptações hematológicas melhoram a capacidade aeróbica, tornando esta abordagem eficaz para a adaptação antes de competições disputadas em altitude. Contudo, a sua aplicação prática é frequentemente limitada pelas restrições temporais associadas ao calendário competitivo. A nossa Seleção está muito mais habituada ao calor do que a altitude. Pode ser que o único treino em altitude seja levantar o troféu de campeão no lugar mais alto do pódio.

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