Mundial
Mundial
Mundial 2026: o guia do Brasil
O PLANO
O Brasil enfrentou uma verdadeira montanha-russa para carimbar o passaporte rumo ao Mundial 2026. Fora das quatro linhas, uma crise política no seio da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) ditou uma mudança na presidência. No relvado o cenário foi igualmente mau, se não pior. Tratou-se da pior campanha de qualificação de sempre do país, averbando derrotas contra a Argentina, Colômbia, Uruguai, Paraguai e Bolívia, bem como um desaire caseiro histórico — o primeiro de sempre em qualificações para Campeonatos do Mundo — diante de Lionel Messi e companhia.
Após o revés por 4-1 em Buenos Aires, em março de 2025, o selecionador Dorival Júnior acabou por ser demitido e houve mesmo quem temesse que o escrete ficasse de fora da grande prova. Contudo, o sistema de qualificação sul-americano — que garante seis vagas diretas para 10 seleções — é extremamente benevolente, fazendo renascer a esperança, não só no apuramento mas no próprio torneio, quando Carlo Ancelotti foi nomeado para o cargo em maio.
O Brasil parte para o Mundial com a firme intenção de apresentar um sistema tático em 4x2x4, o modelo preferencial de Ancelotti desde a sua chegada. No entanto, o técnico italiano perdeu várias pedras fulcrais devido a lesão, tais como Éder Militão, Rodrygo e Estêvão. «Considerando os jogadores que temos à nossa disposição, acreditamos que o melhor modelo de jogo para nós passa por alinhar com quatro homens na frente», afirmou Ancelotti em março.
Neste esquema, os médios defensivos são obrigados a desdobrar-se no apoio ao setor recuado. A escassez de laterais de topo mundial é um motivo de preocupação, especialmente num país há muito habituado a nomes como Cafu, Roberto Carlos, Marcelo e Daniel Alves, entre outros.
A questão sobre se Neymar conseguiria marcar presença no torneio dominou por completo o período que antecedeu o anúncio da convocatória, mas a verdade é que o avançado do Santos, de 34 anos, fez o suficiente para assegurar um lugar na lista de 26 eleitos de Ancelotti. «Percebemos que neste último período ele teve continuidade e apresentou-se em boas condições físicas», justificou o treinador.
Ainda assim, é improvável que seja titular e, sem um verdadeiro camisola 9, o Brasil de Ancelotti demonstrou nos particulares de março contra a França e a Croácia que irá apostar forte nos contra-ataques e na velocidade, explorando o potencial de Vini Jr., de forma muito semelhante ao que Ancelotti fez com enorme sucesso na sua segunda passagem pelo Real Madrid.
O SELECIONADOR
Carlo Ancelotti ganhou tudo — e de todas as formas possíveis — ao longo da sua carreira como treinador de clubes. É um dos técnicos mais titulados da história do futebol, detendo o recorde de cinco troféus da Liga dos Campeões no palmarés. Agora, aos 66 anos — celebrará o 67.º aniversário na véspera do arranque do Mundial —, embarcou numa aventura totalmente nova. «Treinar o Brasil é altamente motivador», assumiu ao Estadão em 2025. «Acredito que este é um dos momentos mais importantes da minha carreira.» O início de vida em Terras de Vera Cruz não se revelou fácil, dadas as lesões de jogadores fundamentais, as derrotas frente à Bolívia, Japão e França, além da tremenda pressão popular para convocar Neymar. Mas o carismático italiano parece tão imperturbável como sempre. «Não sou obcecado por vencer», confessou ao jornal Guardian em maio. «O que sinto é uma paixão enorme por desfrutar dos momentos que o futebol me proporciona.»
A ESTRELA
O estatuto de Vini Jr. como um dos melhores futebolistas do planeta é indiscutível, mas a verdade é que, até ao momento, nunca conseguiu replicar ao serviço da canarinha as exibições assinadas com a camisola do Real Madrid. À data em que este texto foi escrito, o avançado contabilizava 47 internacionalizações, com apenas oito golos marcados e sete assistências. Esta assume-se como a oportunidade ideal para mudar o rumo da história, numa prova onde envergará a mítica camisola 10 e será o centro das atenções no Mundial 2026. «Se o Vinícius estiver focado no jogo, focado no seu futebol, ele é o melhor do mundo», elogiou Casemiro ao jornal AS em 2025. «Dessa forma, ele é o melhor. Mas isso não é fácil, porque ele é constantemente provocado.»
JOGADOR A SEGUIR
Endrick precisou de dar um passo atrás para conseguir dar dois em frente. Relegado para segundo plano no Real Madrid por Xabi Alonso, rumou ao Lyon por empréstimo em janeiro e reencontrou a sua melhor forma, somando 12 participações diretas em golos em 17 jornadas na Ligue 1. Carlo Ancelotti não hesitou em chamá-lo em março e, diante da Croácia, após saltar do banco de suplentes, revelou-se o verdadeiro motor da reviravolta do escrete, que virou um resultado de 1-0 para uma vitória por 3-1. Pode não figurar nas escolhas iniciais de Ancelotti no arranque da competição, mas não será de estranhar se assumir a titularidade mais tarde.
HERÓI DISCRETO
Durante a ascensão do Arsenal ao topo do futebol inglês e europeu, Gabriel Magalhães afirmou-se como um dos melhores defesas-centrais do mundo. No Mundial, muito se falará sobre as exibições e prováveis golos de Raphinha e Vini Jr., ou mesmo sobre as defesas de Alisson, mas tudo isso de nada valerá se Gabriel não segurar o setor defensivo com unhas e dentes. «Quando se fala da seleção brasileira, é preciso trabalhar todos os dias, dar o máximo no clube para se conseguir chegar aqui na melhor forma possível», apontou Gabriel em 2025. «Sei que estou a atravessar um excelente momento, mas também sei o nível que ainda posso atingir.»
XI PROVÁVEL
(4-3-3) Alisson; Danilo, Marquinhos, Gabriel, Douglas Santos; Casemiro, Bruno Guimarães, Paquetá; Vini Jr. Raphinha, Igor Thiago (ou Martinelli)
O QUE ESPERAR DOS ADEPTOS
Este Mundial não parecerá, de todo, um torneio fora de portas para o Brasil. De acordo com dados governamentais, mais de 2,8 milhões de brasileiros residem nos Estados Unidos, a maioria concentrada nas regiões de Nova Iorque e Miami, cidades que acolherão dois dos três jogos da seleção canarinha na fase de grupos. Além disso, prevê-se que uma impressionante moldura humana, que poderá ascender às centenas de milhares de adeptos, viaje rumo à América do Norte para acompanhar o torneio. O grupo organizado «Movimento Verde Amarelo» marcará presença em força e conta com o respaldo de claques de 40 clubes diferentes do futebol brasileiro. Ingredientes que farão com que palcos como o MetLife Stadium e o Hard Rock Stadium se assemelhem, ao máximo, ao mítico Maracanã.
RELAÇÃO COM OS EUA/TRUMP
Os jogadores e a CBF mantêm-se estrategicamente à margem de questões políticas para este Mundial, mas a verdade é que o Brasil e os EUA viveram um momento de fricção em março, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ter «proibido» a entrada de um dos conselheiros de Donald Trump no país sul-americano. A medida surgiu como retaliação pelo facto de ter sido recusado um visto americano ao seu ministro da Saúde. Ambos os líderes reuniram-se recentemente na Casa Branca e, embora Trump tenha classificado as conversações como «muito boas», os dois executivos continuam sem alinhar posições em dossiês fundamentais, tais como a criminalidade e o comércio externo.
Textos de Gustavo Faldon do Estadão. Estes textos foram escritos no âmbito da Guardian Experts' Network, a rede de troca de conteúdos para o Mundial 2026, liderada pelo jornal inglês The Guardian e que tem A BOLA como representante português, e foram traduzidos com recurso a Inteligência Artificial.
Artigos Relacionados: