Luciano Gonçalves: «Não fui forte para dizer logo 'não' a Hélder Malheiro»
Luciano Gonçalves tem estado no centro da polémica sobre a alegada falta de independência e confidencialidade nas nomeações dos árbitros, investigada pelo Ministério Público.
Na Grande Entrevista da RTP, na noite desta quinta-feira, o presidente do Conselho de Arbitragem reforçou que nunca combinou com um presidente de um clube a nomeação de um árbitro, nunca foi pressionado por dirigente e nunca recebeu contrapartidas financeiras para o efeito: «Nunca recebi dinheiro nem nenhum benefício e também nunca tive nenhum presidente que me tivesse tentado aliciar. Pela minha personalidade, é difícil condicionarem-me. Tenho a minha consciência tão tranquila que estou disponível para dar alta do meu sigilo bancários e dos meus familiares diretos para analisar aquilo que existe.»
«A haver alguma irregularidade, demitir-me-ia no segundo seguinte, mas não vai acontecer», assegurou, tendo explica que esse é um dos três motivos pelos quais não se demite, apesar das suspeições: «Não suspendo o meu mandato por três motivos: desde logo, os estatutos não permitem, tinha de me demitir; depois, nunca me posso esquecer que fui há um ano e meio por 70% do caderno eleitoral; e o terceiro é porque não fiz nada para estar nesta posição. Mesmo que seja arguido, mantenho-me. Caso contrário, era uma forma fácil de tirar as pessoas dos cargos. Com isto estou a mostrar a centenas de milhares de pessoas que não pode valer tudo para se conseguir o que se pretende.»
Sobre o caso de Hélder Malheiro saber que iria arbitrar o Moreirense-Estrela da Amadora da 32.ª jornada do campeonato passado com mais de uma semana de antecedência (o que fez despoletar esta polémica), Luciano Gonçalves garante que não houve nenhuma fuga ou falha nos procedimentos normais do Conselho de Arbitragem: «Não é possível ter sabido através do Conselho, porque o processo de nomeações é muito claro. Seria impossível, de todo, isso sair para fora. Garanto que não fiz comunicação ao Hélder Malheiro.»
Relativamente à mensagem — «bom dia, amigo, mas por favor, por favor mesmo [emoji de silêncio+emoji de agradecimento]» — enviada ao mesmo árbitro, depois de alegadamente um assessor do Estrela da Amadora ter ameaçado Hélder Malheiro caso os tricolores não vencessem o jogo, o motivo terá sido outro. «É verdade que enviei essa mensagem, que nada tem a ver com aquilo que é público», começou por dizer.
«No dia 23 de abril, o Hélder Malheiro e mais três colegas que iam terminar a carreira foram à Cidade do Futebol. Apresentámos-lhes a nossa visão para cada um deles e demos oportunidade para escolher um jogo para ser o final. O Hélder Malheiro nesse mesmo dia enviou-me uma mensagem a agradecer e a dizer que o jogo que gostaria para terminar era a final da Taça de Portugal. Aí, efetivamente, não fui suficientemente forte emocionalmente pela ligação de 25 anos enquanto colega árbitro que tenho com ele e devia ter-lhe dito logo que não era possível. Mas foi um momento comovente, porque ele queria continuar, a despedida custou-lhe muito e eu não lhe cortei esse tema da Taça de Portugal.»
«Essa mensagem era só para dizer que ele continuava a ser hipótese para a Taça de Portugal. Nada mais significava. Reconheço que isso alimenta a suspeição existente, que foi o que me fez apagar a mensagem, o que ainda gera mais suspeita», assumiu.
Sobre a relação com Paulo Lopo, Luciano Gonçalves negou ter passado férias pagas — «em nenhuma circunstância» — no Algarve com o ex-presidente do Estrela da Amadora e que as conversas que teve com ele eram as mesmas que tinha com outros dirigentes: «O presidente do Estrela da Amadora pediu uma reunião, como 61 que fizemos no ano passado com vários clubes, na Cidade do Futebol e no final disse para ter algum cuidado com a escolha de árbitros.»
«Para mim, é normal e até promovo esta abertura e partilha de opiniões dos presidente», negando que seja tráfico de influências. «Todos os presidentes dos clubes de Liga e Liga 2 têm o meu contacto. Não escolheu o árbitro, pediu para se ter cuidado. Não só ele, como todos os clubes que foram lá. É normal», justificou, acrescentando que o que qualquer clube quer que «os árbitros que arbitrem os seus jogos sejam os mais experientes.»
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