Mourinho e Real Madrid: um general para meter ordem e acabar o que ficou a meio
José Mourinho estava no topo do mundo em 2010. Guiara o Inter a um histórico Treble, marcado pela eliminação do Barcelona na meia-final da Champions League, numa 2.ª mão em que jogou mais de uma hora com 10 jogadores no Camp Nou. O passo seguinte foi assumir o Real Madrid.
«Sou José Mourinho, com todas as minhas qualidades e defeitos» e «não sinto uma pressão diferente por estar no Real Madrid»: estas frases marcaram a apresentação do técnico no clube e deram o pontapé de saída para três anos memoráveis, por todos os bons e maus motivos. Um filme que, agora, pode ter uma sequela, sendo a saída do Benfica no final desta época bem provável.
Barcelona e Guardiola: eterna rivalidade
Mourinho ganhou a segunda Champions League da carreira no Santiago Bernabéu, após impedir que o Barcelona conquistasse a prova pelo segundo ano consecutivo. A resposta, para Florentino Pérez, para o domínio que os catalães ameaçavam ter sobre o desporto, acabara de celebrar uma noite memorável naquela que seria a sua casa por três anos.
Depois de passar quatro anos como técnico adjunto no Barcelona (entre 1996 e 2000), Mourinho foi candidato a render Frank Rijkaard no comando da equipa em 2008. Mas Pep Guardiola, com a concordância de Johan Cruyff, foi nomeado à frente do português. Assim, quando Mourinho chegou ao Bernabéu, os dados desta rivalidade estavam lançados.
A pior derrota da minha carreira
O primeiro El Clásico de Mourinho foi memorável pelas piores razões. Invencível nos primeiros 19 jogos da época, a equipa visitou Camp Nou. E saiu de lá humilhada. 5-0 foi o resultado para os catalães, que saltaram para o 1.º lugar na LaLiga e nunca mais o largaram. Mourinho admitiu após o jogo: «Foi a pior derrota da minha carreira.»
FC Barcelona 5️⃣-0️⃣ Real Madrid
— FC Barcelona (@FCBarcelona) May 8, 2026
The night we'll never forget 💙❤️ pic.twitter.com/7eoUYtOnKN
A primeira época de Mourinho no Real é lembrada pelos quatro El Clásicos disputados no espaço de 17 dias: empate a um na LaLiga; vitória do Real por 1-0 na final da Taça do Rei, com golo de Cristiano Ronaldo, que deu o primeiro troféu a Mourinho em Espanha; e mais dois jogos nas meias-finais da Champions League, eliminatória que o Barça venceu, no agregado, por 3-1, antes de conquistar o troféu.
Un 20 de abril, pero de 2011, Real Madrid ganaba una Copa del Rey después de 22 años y nada menos que al Barcelona de Guardiola. Centro perfecto de Di María y salto magistral de Cristiano Ronaldo para el 1-0 definitivo. Mou le ganaba el duelo a Pep.pic.twitter.com/DUP9LZqDvH
— VSports Team (@VSportsTM) April 20, 2022
Estes últimos três jogos foram marcados pela agressividade da equipa de Mourinho, que fez 29 faltas na final da Taça e 30 na 2.ª mão da meia-final da Champions. Na 1.ª, Pepe foi expulso por uma entrada sobre Dani Alves e Mourinho também, por protestos, que não se ficaram pelo relvado.
«Se eu disser o que penso sobre o árbitro e a UEFA, a minha carreira termina hoje», disse Mourinho depois dessa 1.ª mão, perdida por 0-2.
Memorável segunda época
2011/12 foi uma campanha fantástica para o Real Madrid. Mas o início não podia ser pior, com a derrota, na final a duas mãos, na Supertaça de Espanha, para o Barcelona. O duelo ficou marcado por um violento confronto entre jogadores na 2.ª mão, no meio da qual Mourinho colocou o dedo no olho de Tito Vilanova, adjunto de Guardiola, que depois afirmou não conhecer, enganando-se até no seu nome: «Pito Vilanova? Não, não conheço.» Mais tarde, Mourinho arrependeu-se.
Año 2011. Mourinho dando ejemplo a sus jugadores, le mete el dedo en el ojo a Tito Villanova por la espalda. Al ser preguntando en rueda de prensa por ello, le cambió de nombre de Tito a “Pito” de forma despectiva y dijo no saber quién era pic.twitter.com/RTJgSebJQW
— CARBER (@CARBER_FCB) April 9, 2023
«Não devia ter feito o que fiz. A imagem negativa fica para sempre. O Tito não teve nada a ver com aquilo, fiquei com pena dele», disse 10 anos mais tarde a João Gabriel, autor do livro Mantenham-se Loucos e Famintos, antes de também atirar uma provocação ao rival da altura: «O Barcelona era bom a jogar, mas era ainda melhor a condicionar o rival e a manipular decisões e perceções.»
Dentro de campo, o Real Madrid acabou por ser magnífico e dominou a LaLiga, que venceu ao marcar 121 golos (!) – um recorde que ainda se mantém na liga espanhola – e ao conquistar 100 pontos – a primeira equipa de sempre das ligas Big Five a consegui-lo. Em toda a época, a equipa marcou 174 golos, 60 deles a autoria de Cristiano Ronaldo.
CR7 era a maior figura de uma equipa que movia a bola com uma velocidade estonteante pelo relvado fora. Di María, Mesut Ozil, Benzema e Higuaín brilharam, numa equipa que tinha os dois homens que treinaram o Real esta época: Xabi Alonso e Álvaro Arbeloa. A cereja no topo do bolo foi a confirmação da conquista do título em Camp Nou, na 35.ª jornada, com uma vitória por 2-1, marcada por uma assistência soberba de Ozil para Ronaldo.
Na Champions League, a eliminação (de novo) nas meias-finais foi aos pés do Bayern, num desempate por grandes penalidades em casa, onde Ronaldo, Kaká e Sergio Ramos falharam os respetivos penáltis. Mourinho admitiu mais tarde à Marca que esta derrota o fizera chorar.
Deterioração da relação com Casillas
«Quisemos que o Real Madrid tivesse a posse de bola, porque assim, eles prejudicam-se a si mesmos»: a frase é de Pepe Mel, treinador que, com o Betis, venceu o Real na 13.ª jornada da LaLiga na época 2012/13. Uma derrota que deixava o Real a 11 pontos do Barcelona, agora treinado por aquele treinador que Mourinho afirmara não conhecer, um ano antes.
Esta época ficou marcada pelo desentendimento público de Mourinho com Iker Casillas, que foi colocado no banco em detrimento de Antonio Adán num jogo do Real em Vigo, perdido por 1-2. Casillas passou a ter um papel muitos mais secundário na equipa e Diego López ganhou o lugar de titular.
«Talvez me tenha calado e não tenha respondido; na altura, não reagi e não disse nada», refletiu mais tarde Casillas sobre esta situação. Sergio Ramos passou a jogar menos, ou a alinhar na posição de lateral-direito e Benzema também foi deixado no banco em jogos importantes, como na 1.ª mão das meias-finais da Champions, onde os quatro golos de Lewandowski colocaram o Borussia Dortmund na final.
O período de Mourinho no Real ficou também marcado pelas três eliminações consecutivas na meia-final da Champions. No final desta época, o Real ainda permitiu uma reviravolta do Atlético Madrid na final da Taça do Rei, jogo no qual Mourinho e Ronaldo receberam ordens de expulsão.
«Ganhar o título em Espanha com 100 pontos, contra a melhor equipa de sempre do Barcelona, foi um grande feito.» Assim recordou, mais tarde, Mourinho a sua passagem pelo Real. Mas recuando até à sua conferência de apresentação no clube, uma frase pode servir de mote para o regresso, caso se venha a confirmar.
Quando questionado sobre a importância de ter Ronaldo no plantel, Mourinho disse: «Ronaldo é um jogador muito importante para o Real Madrid, mas os jogadores fazem parte da equipa, não são indivíduos isolados. O que importa é o clube, não os jogadores.»
Colar um balneário quebrado
A mão pesada que José Mourinho sempre teve ao longo da carreira é apontada como uma das principais razões por trás da vontade de Florentino Pérez em o contratar, 13 anos depois de se despedir do português
Lutas entre Rudiger e Carreras, e mais recentemente, entre Tchouaméni e Valverde, são casos que surgem no culminar de uma segunda época consecutiva sem troféus para os blancos, mas também marcada pela falta de autoridade que foi concedida a Xabi Alonso sobre os jogadores, e pela desunião que Álvaro Arbeloa, apesar de uma relação próxima com Vinícius Júnior, não conseguiu mudar.
Mourinho pode voltar a Madrid numa situação semelhante à que encontrou em 2010: uma equipa repleta de talento inegável, mas já habituada a ver o Barcelona a reclamar as maiores vitórias. Não é fácil, portanto. A primeira passagem não foi, de todo, perfeita, mas trouxe momentos memoráveis e recolocou o Real no topo do futebol espanhol e perto do europeu. O tamanho do desafio, em 2026, promete não ser menor.