Mika Figueiredo: «Era difícil pedir melhor começo»
Depois de não ter conseguido alcançá-lo enquanto jogador, Mika vestiu o fato de treinador e pôde, por fim, levar o Leça à terra prometida da Liga 3.
— Para primeiro ano como treinador principal, não correu nada mal, pois não?
— Não [risos], pelo contrário. Era difícil pedir melhor começo, embora ainda tenhamos a final do Campeonato de Portugal para disputar. Se pudesse pedir algo ainda melhor, seria, claro, vencê-la.
— Quando sucedeu a Carlos Pinto no comando técnico, em outubro, como encontrou a equipa?
— Foi uma fase complicada, porque os índices de confiança estavam em baixo. Não estávamos a ter os resultados expectáveis e o clube optou por substituir o treinador. Nessa fase, a equipa estava animicamente muito em baixo e com muita desconfiança própria.
— Mesmo tendo o Leça um plantel com muita qualidade, não é?
— Sim, sim. Mas mesmo os jogadores de grande qualidade, quando as coisas não lhe correm da forma desejada e os resultados não aparecem, tendem a ter este tipo de pensamentos. A falta de confiança afeta todos, incluindo os bons jogadores. Já enquanto adjunto sentia que a equipa estava em baixo, animicamente.
— Como se deu a oportunidade de substituir Carlos Pinto?
— Eu sei que, quando o Leça optou por despedir o mister Carlos Pinto, teve alguns nomes em cima da mesa. Enquanto não havia treinador definido, assumi a equipa. Fiz o meu primeiro jogo de forma interina, ainda à espera que o clube resolvesse essa parte. Ganhámos 3-0 ao Gouveia. Na semana seguinte, o presidente falou comigo e demonstrou vontade em dar-me essa oportunidade.
— Qual foi o momento mais difícil da temporada?
— A parte inicial, até conseguirmos criar uma dinâmica no nosso dia a dia, foi a mais complicada. Depois, os bons resultados ajudaram. Conseguimos entrar numa fase positiva e prolongá-la, ao longo da época toda. Quando os resultados não estavam a aparecer, a parte anímica estava em baixo, mas tudo mudou quando as vitórias começaram a surgir. Os jogadores começaram a ter os níveis de motivação muito mais elevados e acho que isso gerou uma bola de neve positiva que nos levou à subida.
Estávamos longe dos dois primeiro lugares e perto da zona de despromoção. Escalámos até ao topo.
— A partir do momento em que o mister entrou, estiveram seis meses sem perder...
— Acho que o grande clique foi esse. Não foi um clique de um jogo, mas sim de um longo período em que, semana após semana, íamos ganhando ou conseguindo pontuar. Até ao olhar para a tabela classificativa: no início, estávamos longe dos dois primeiros lugares e perto da zona de despromoção; mas, depois, semana após semana, víamos que estávamos a escalar até ao topo.
—Agora faltará, acredito, o momento alto da época, não é?
— O primeiro objetivo era ir à fase de subida. Cumprimos e foi sempre dessa forma que quisemos impôr objetivos: um de cada vez. Na fase de subida, a nossa meta era subir de divisão. Conseguimos à quarta jornada. A partir daí, o objetivo passou a ser ir à final do Jamor. Também conseguimos. Agora, é vencer a final e trazer a taça para Leça da Palmeira.
O treinador que começou por ser um 'mano'
— Voltando uns meses atrás, como surgiu a chance de passar de jogador — uma vez que fez parte do plantel do Leça nas duas temporada anteriores a esta — para treinador-adjunto?
— Eu já tinha definido que ia acabar a carreira de jogador. Não sabia muito bem o que queria fazer de imediato, mas uma coisa de que tinha a certeza era a vontade de continuar no futebol e via com bons olhos a possibilidade de pertencer a uma equipa técnica como adjunto, nomeadamente no Leça, onde fui sempre muito bem tratado. Foi aqui que acabei a carreira e criei grandes laços, tanto com a estrutura como com os adeptos. Houve a possibilidade de integrar a equipa técnica do Carlos Pinto e assim aconteceu. Dei continuidade.
— Como foi essa transição, em termos da convivência com os ex-colegas?
— No início, devido à minha proximidade com os jogadores - e mesmo quando convido o André Leão para ser meu adjunto, porque ele jogou com alguns dos nossos jogadores - era um bocadinho difícil… Aliás, não era difícil, mas uma pessoa às vezes esquecia-se e tratava alguns jogadores com quem já tinha muita confiança por mano ou os próprios jogadores também nos tratavam por outros nomes. Isso gerou alguns momentos engraçados. Estávamos tão focados que nem pensávamos muito bem naquilo que estávamos a dizer, saía naturalmente. Depois, começou a haver mais alguma normalidade numa relação de treinador-jogador e deixou de haver o mano para aqui e o bro para acolá [risos].
O conjunto orientado por Mika foi o primeiro emblema do Campeonato de Portugal a conseguir subida de divisão.
Os leceiros celebraram a promoção à quarta jornada da fase de apuramento de campeão, depois de derrotarem o Vianense por 4-3, no Alto Minho.
Com a ascensão ao terceiro escalão do futebol português, a meta passou a ser a ida à final do Campeonato de Portugal no Jamor. Nas rondas que se seguiram o clube matosinhense perdeu diante do Rebordosa (1-2) e acabou por vencer o Bragança (1-0), na derradeira jornada, confirmando a presença na tão ambicionada final em Oeiras.
O nortenhos disputam o troféu no dia 10 de junho (16h30), com o campeão da zona Sul, Vitória de Sernache.