Cada segundo conta — como eventos desportivos podem ajudar a salvar vidas
Os grandes eventos desportivos são uma oportunidade para implementar iniciativas de promoção da saúde pública, devido à sua elevada capacidade de mobilização e alcance internacional.
Em Portugal, porém, este potencial continua claramente subaproveitado. Organizamos, recebemos e celebramos grandes acontecimentos desportivos, mobilizamos milhares de pessoas e geramos uma enorme atenção mediática, mas raramente transformamos essa capacidade de mobilização numa verdadeira oportunidade de educação para a saúde e de capacitação da população.
Falta-nos, muitas vezes, uma visão que ultrapasse o resultado desportivo e compreenda que estes eventos podem ser plataformas privilegiadas para promover comportamentos de saúde, prevenir situações de emergência e preparar os cidadãos para intervir quando a vida de alguém está em risco. É precisamente neste ponto que importa olhar para exemplos concretos de outros países e perceber como esta oportunidade pode ser aproveitada. A campanha Get Trained Save Lives, desenvolvida pelo European Resuscitation Council (ERC) e pela UEFA durante o torneio Euro 2024, demonstra de forma particularmente clara como um grande evento desportivo pode deixar uma marca que vai muito além do campo de futebol.
A campanha decorreu durante 2 meses e meio, tendo a sua principal atividade ocorrido durante o campeonato, entre 14 de junho e 14 de julho. O objetivo foi aumentar a sensibilização para a paragem cardiorrespiratória e promover a aquisição de competências básicas de reanimação cardiopulmonar junto de adeptos de futebol, profissionais e equipas envolvidas na competição.
A iniciativa baseou-se em quatro componentes principais: formação interativa autónoma online, formação em reanimação cardiopulmonar dirigida a equipas de futebol, utilização dos meios de comunicação social e experiências presenciais de reanimação cardiopulmonar.
A campanha chegou a quase 200 mil pessoas através das diferentes atividades. A componente online consistia numa experiência interativa de aproximadamente quatro minutos, destinada a pessoas com idade igual ou superior a 12 anos e disponibilizada em 38 idiomas.
Os participantes acompanhavam um cenário de emergência conduzido por jogadores de futebol e respondiam a questões interativas relacionadas com a atuação perante uma paragem cardiorrespiratória. O sistema fornecia comentários e reações às respostas apresentadas. A plataforma tinha também como objetivo incentivar os participantes a procurar formação presencial em Suporte Básico de Vida, disponibilizando uma ferramenta para localizar cursos certificados na sua área de residência.
Contudo, é importante salientar que esta componente não incluía uma avaliação formal. A experiência online deve ser entendida sobretudo como uma ferramenta de educação e sensibilização, e não como substituto de uma formação completa em reanimação cardiopulmonar.
Por outro lado, jogadores profissionais, treinadores, árbitros e outros elementos das equipas participantes no Euro 2024 realizaram sessões interativas de reanimação cardiopulmonar com duração de 45 minutos, denominadas GOAL – GO and Save A Life.
A formação de profissionais do futebol foi considerada particularmente relevante, tendo em conta a ocorrência de paragem cardiorrespiratória súbita em atletas e a necessidade de aumentar a preparação das pessoas que se encontram próximas dos atletas durante treinos e competições.
A campanha também utilizou intensivamente os meios de comunicação social. Um dos principais elementos foi um anúncio televisivo de 30 segundos, no qual jogadores de futebol conhecidos demonstravam ações básicas de reanimação e transmitiam a mensagem de que qualquer pessoa pode salvar uma vida.
O anúncio foi transmitido através das redes de televisão associadas à UEFA, nomeadamente antes e depois dos jogos e durante os intervalos. Também foi apresentado nas Fan Zones, nos ecrãs dos estádios e nas redes sociais.
Também esteve montada uma formação com duração muito reduzida, de aproximadamente cinco minutos, que estava dividida em três fases.
Na primeira fase, denominada Check, Call, Compress, os participantes aprendiam a reconhecer uma paragem cardiorrespiratória, pedir ajuda e iniciar compressões torácicas num manequim. Na segunda fase, era realizada uma competição. Os participantes utilizavam manequins de treino equipados com um sistema de avaliação da qualidade da reanimação, ligado a tablets através de uma aplicação específica. Durante um desafio de 60 segundos, a qualidade das compressões torácicas, nomeadamente a frequência, a profundidade e a descompressão, determinava o movimento de um avatar num jogo com temática futebolística. Quanto melhor fosse o desempenho na reanimação, mais rapidamente o jogador virtual avançava em direção à baliza. Os resultados eram apresentados num quadro classificativo visível aos participantes, criando um ambiente competitivo e simultaneamente educativo.
A preparação para responder a uma paragem cardiorrespiratória não depende exclusivamente do conhecimento técnico. A disponibilidade para intervir e a capacidade de reconhecer uma emergência são igualmente importantes. Obviamente que as sessões breves não substituem uma formação completa. A profundidade da aprendizagem deve ser adaptada ao contexto, ao público-alvo e aos objetivos educativos.
Este tipo de campanha demonstrou que um grande evento desportivo pode constituir uma plataforma para promover a educação em reanimação e aumentar a sensibilização para a paragem cardiorrespiratória. Para além da necessidade de aumentar a formação em reanimação na população em geral, também tem sido proposto a obrigatoriedade de uma espécie de vídeo-árbitro médico, com acesso a várias câmaras para ver o que aconteceu ao jogador e para orientar o procedimento médico.
Grande parte das doenças cardiovasculares pode ser identificada através de uma avaliação médico-desportiva adequada, que pode incluir exames médicos como eletrocardiograma e, quando indicado, ecocardiograma ou prova de esforço. No entanto, existem patologias que podem permanecer silenciosas e cuja primeira manifestação pode ser uma paragem cardiorrespiratória. Por isso, a prevenção não pode limitar-se à realização de exames de rotina. É fundamental valorizar a avaliação clínica especializada e garantir uma maior participação da especialidade médica de Cardiologia no acompanhamento dos atletas. Os cardiologistas devem ser mais procurados e, sobretudo, mais valorizados no contexto da prevenção e estratificação do risco cardiovascular.