Cristiano Ronaldo, avançado português de 41 anos - Foto: IMAGO
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Cristiano Ronaldo: a importância de saber sair

Mercado de valores é o espaço de opinião de Diogo Luís, antigo jogador de futebol, economista e comentador

Uma semana depois de ter afirmado que Jorge Jesus era a pessoa perfeita para assumir o cargo de selecionador nacional, Cristiano Ronaldo abandona abruptamente o estágio da seleção. A frase proferida por Pimenta Machado há muitos anos aplica-se na perfeição ao que se passou: o que hoje é verdade, amanhã é mentira.

Cristiano Ronaldo: uma carreira extraordinária

Cristiano Ronaldo ganhou por mérito próprio uma cadeira na mesa dos melhores de sempre do futebol. A sua evolução foi incrível. De um extremo desequilibrador, mas muitas vezes inconsequente, transformou-se num jogador letal e objetivo. Está a 21 golos de alcançar a marca dos 1000 na carreira. É o mais internacional de sempre. É o melhor marcador de sempre do Real Madrid e da Liga dos Campeões. A isto juntam-se várias Bolas de Ouro e outros recordes.

A sua evolução trouxe uma nova mentalidade. Muitos seguem o seu exemplo. A preocupação que sempre demonstrou com o seu corpo, alimentação e descanso fez escola. Posso afirmar que, nesta área, há um antes e um depois de Cristiano Ronaldo.

O ego e os 'yes men'

O astro português sempre foi um jogador muito focado. Sempre soube onde queria chegar e quase sempre conseguiu. Acredito que, depois dos 30 anos, se alimentou das dúvidas alheias sobre a sua capacidade para manter um nível tão elevado. Com isto, conseguiu adiar o efeito da idade e contrariar quem duvidava da sua capacidade.

Fora dos relvados, a sua dimensão foi crescendo cada vez mais. Ronaldo e quem está à sua volta tiveram o mérito de criar uma marca globalmente reconhecida. Hoje, Ronaldo é a personalidade com mais seguidores nas redes sociais, o que diz muito sobre a sua influência.

Estes dois fatores podem estar a alimentar-lhe o ego e a fazê-lo perder a noção da realidade.

Refiro isto porque, aos 41 anos, Ronaldo já não é o jogador decisivo e desequilibrador que foi durante grande parte da carreira. Parece-me que Cristiano não tem a mesma perceção de quem o vê jogar. Continua a tentar desafiar quem duvida dele, mas a idade chega a todos, sem exceção.

Para os superatletas é difícil encontrar o momento certo para sair de cena. No caso de Ronaldo, parece-me que esse momento já passou.

O que lhe está a acontecer é também um bom exemplo para todos os grandes atletas perceberem a importância de estarem bem rodeados. Não basta ter yes men. Os verdadeiros amigos são os que dizem as coisas sem receio e nos fazem descer à terra quando é preciso. No caso de Ronaldo, pelo que se tem visto, essa voz parece estar a faltar.

Atitude irrefletida

Depois de uma vitória importante frente à Noruega, Ronaldo sentiu que não foi respeitado pelo selecionador nacional. Por dois motivos: porque, aparentemente, Jorge Jesus lhe deu a indicação de que iria jogar 30 minutos e porque esteve a aquecer durante muito tempo e não foi utilizado. Para Cristiano Ronaldo, isto foi uma clara falta de respeito.

Reconheço que Jorge Jesus podia ter evitado deixá-lo tanto tempo a aquecer. Contudo, o jogo estava aberto e o selecionador nacional poderia ter pensado colocá-lo em campo se o resultado se tornasse adverso.

Independentemente do que o possa ter deixado insatisfeito, Ronaldo deveria ter tido a noção de que, como capitão e símbolo nacional, nunca poderia abandonar abruptamente um estágio a meio. Ao fazê-lo, demonstrou falta de respeito pelos seus colegas e pelo compromisso coletivo que representa a seleção. Demonstrou também que, neste momento, a responsabilidade de ser capitão parece não ter pesado na sua decisão.

Por muito magoado que pudesse estar, Ronaldo tinha a noção da dimensão mediática que esta atitude iria ter, da pressão que iria criar nos colegas e na seleção e de que o foco deixaria de estar no excelente resultado alcançado para passar a estar apenas em si próprio.

A sua decisão acabou por colocar o seu conflito pessoal acima do interesse coletivo, precisamente o contrário daquilo que se espera de um capitão. Não estou a dizer que Ronaldo não poderia abdicar da seleção. O que estou a referir é que, se o queria fazer, deveria ter esperado pelo dia de hoje, depois do último jogo do estágio, para tomar uma decisão. Pela responsabilidade e dimensão que tem, Ronaldo sabe o impacto mediático que uma atitude destas pode ter nos seus colegas e na seleção.

Jogar ao ataque

Ao fim de alguns minutos, todos perceberam a dimensão mediática do caso. A FPF não só não soube gerir o processo, como ainda não reagiu publicamente. Parece-me que Pedro Proença está a tentar encontrar uma solução que permita uma reconciliação entre JJ e CR e evitar que esta crise deixe marcas mais profundas.

Numa fase inicial, pareceu-me que se tentou colocar Jorge Jesus no centro do problema e passar a imagem de que este foi o responsável pela atitude do jogador português. Ronaldo, por causa do seu ego, transformou um episódio simples, que podia ter sido rapidamente resolvido internamente, numa mancha no seu currículo.

Para piorar, possivelmente quem o aconselha tentou ainda transformar isto num tribunal popular, para que os adeptos tomassem partido por Ronaldo ou por Jorge Jesus. Nada disto faz sentido e nada justifica a decisão que Cristiano Ronaldo tomou.

Como resolver?

Na mensagem que deixou nas redes sociais, CR referiu que iria contar toda a verdade. Não sei que verdade será essa que fez JJ passar de pessoa certa no sítio certo a responsável pela sua saída da seleção. O que me parece é que, para resolver tudo isto, tem de haver bom senso.

Ronaldo sabe que errou ao abandonar o estágio a meio. O primeiro passo é assumir isso internamente. Todos desejamos que este diferendo se resolva.

Tenho dúvidas de que possa regressar em pleno, até porque teria de lidar com o facto de ser a segunda ou terceira opção e já percebemos que, para Ronaldo, isso não é fácil.

Pela sua carreira, pela sua dedicação à seleção nacional e por tudo o que representa para os portugueses, Ronaldo deve uma saída diferente a si próprio.

A VALORIZAR: GONÇALO RAMOS

Fez dois grandes jogos e demonstrou a sua importância na Seleção Nacional, tanto no capítulo defensivo como ofensivo.

A DESVALORIZAR: PEDRO PROENÇA

O presidente da Federação Portuguesa de Futebol não teve a capacidade para evitar este conflito. A não reação pública é uma estratégia que visa tentar ganhar tempo para permitir uma aproximação entre as partes.

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