Mundial
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Martínez, curto cartão de visita…
Roberto Martínez
Ser treinador de futebol é estar permanentemente nas bocas do mundo, sujeito à avaliação crítica e ao julgamento transversal. Ser selecionador de um país, para mais não sendo dele nativo, constitui um desafio acrescentado, em face das naturais paixões que o patriotismo desperta e consolida nas reações de todos e de cada um.
Roberto Martinez não é um novato nestas andanças. Seis anos à frente de um projeto geracional muito significativo, na Bélgica, conferiram ao treinador espanhol a experiência e a consciência suficientes para encarar o desafio português com lastro.
O facto de ter ganho uma Liga das Nações aumentou a bolsa de alguma confiança no seu trabalho, embora todos os indicadores apontassem, desde logo, algum conservadorismo, quer nos nomes habitualmente constantes da lista de convocados, quer nas táticas e opções tomadas ao longo dos jogos.
O que se pedia a Martínez talvez fosse demasiado para o seu perfil diplomata e conciliador. Pedia-se uma equipa portuguesa mais assertiva, mais capaz de assumir nos relvados as responsabilidades que, claramente, tinham sido desenhadas nas declarações dos principais responsáveis, com o presidente da Federação Portuguesa de Futebol à cabeça.
Fazer melhor do que os quartos de final do Qatar, em 2022, significava, desde logo, o apuramento para as meias-finais como resultado minimamente aceitável, e parecia muito complexo o desiderato, considerando as características do próprio selecionador.
Uma prova muito abaixo das expectativas e, sobretudo, das capacidades declaradas do conjunto de jogadores que estiveram nas Américas, foi o natural gatilho para a saída de Roberto pela porta pequena, que o futebol é mesmo assim, de memória muito curta e diretamente indexada aos resultados.
Da história se recordará, de facto, a vitória na quarta edição da Liga das Nações. Mas o Euro 2024 e, sobretudo, a pobreza exibicional aliada a um discurso por vezes inócuo do responsável técnico, do Mundial 2026, perdurarão e não constituem o melhor cartão de visita, num futuro próximo ou distante, se o treinador espanhol for sondado por uma equipa verdadeiramente de topo no futebol mundial…
Hossan Hassan
É um líder. Talvez seja mesmo o maior nome da história do futebol egípcio. Hossam Hassan, agora entronizado como selecionador nacional dos faraós, é uma figura incontornável no banco de suplentes e fora dele.
Com um caráter muito especial, fogoso, disponível, interventivo, mas também facilmente irascível, Hassan transporta para o combinado africano muito do seu temperamento enquanto futebolista. E os jogadores reconhecem nele um verdadeiro líder, não questionando opções e fazendo do sacrifício individual a força coletiva de uma das melhores seleções do continente.
Não surpreendeu o belo Mundial egípcio. Muito menos, para quem segue com alguma regularidade as motivações do país, dos seus adeptos e dos seus profissionais, o jogo excecional frente à Argentina, que causou suores frios à campeã mundial.
Sempre, com um nome à cabeça e a servir de farol técnico e tático, mas sobretudo motivacional: Hossam Hassan, o selecionador que, mesmo alicerçando a sua dinâmica em três nomes incontornáveis (Salah, Marmoush e Ziko), soube tirar o melhor partido de um conjunto de jogadores locais (do Al Ahly, do Zamalek e do Pyramids), e levar o combinado africano a uma excelente fotografia, no âmbito da sua participação no Mundial.
Pierluigi Collina
Para muitos, o melhor árbitro da História do futebol. Para todos, um dos melhores, de um grupo restritíssimo de classe e qualidade.
O árbitro da final do Mundial 2002, em Yokohama, entre Brasil e Alemanha, é agora o presidente da Comissão de Arbitragem da FIFA e, por inerência, o principal responsável pela convocação e escala das equipas de arbitragem em todas as competições de dimensão mundial.
Escolheu, certamente, os melhores árbitros, assistentes e videoárbitros para o maior showdown do futebol no planeta, e providenciou todas as condições para que as equipas da Team One tivessem e continuem a ter desempenhos a roçar a excelência.
Ele sabe, melhor do que ninguém, que o fator humano continuará a estar presente a cada momento, em cada tomada de decisão, e influenciará sempre o trabalho dos juízes, quer nos estádios, quer nas cabines à distância.
Por isso, é legítimo o desabafo de quem se sente pessoal e profissionalmente atingido por críticas dos mais diversos quadrantes e origens, muitas delas (quiçá uma significativa maioria…) provenientes de quem não faz ideia das competências, ferramentas e qualidades que cada árbitro teve de exibir até chegar aos palcos de um Mundial de futebol.
Collina, que é humano, indignou-se. E fez bem. Tem, no seu currículo, folhas suficientes para garantir, de per se, um lastro de independência, qualidade, seriedade e rigor no seu trabalho à frente da arbitragem mundial.
Harry Kane
Durante muito tempo, na sua longa passagem pelo Tottenham, era glosado no mundo do futebol pelo facto de, sendo um dos melhores pontas de lança da sua geração, não conseguir ganhar títulos. Os spurs não eram, de facto, a melhor garantia de o poder fazer, até que surgiu a possibilidade de transferência para o Bayern Munique.
Harry Kane, assim se chama o sujeito, via ali escancarar-se uma porta de muito maior visibilidade e dimensão competitiva, e projetou uma segunda fase da sua carreira, à beira dos trinta anos.
Este Mundial é uma espécie de cereja no topo do bolo: com uma Inglaterra competitiva e pragmática, Kane é o seu melhor marcador, é capitão, é dinamizador de jogo e congregador da equipa. Um trunfo em vários domínios, muito bem aproveitado por Thomas Tuchel, o alemão que não esconde a ambição de levar a seleção dos três leões a um lugar de topo na hierarquia mundial.
Pode não conseguir, numa prova que conta com Mbappé, Messi e Haaland, chegar ao topo dos marcadores, mas deixa um rasto de muita qualidade profissional, imenso empenho e determinação, e de total respeito por parte de companheiros e adversários. O que não é nada pouco, e pode até ser suficiente para fazer voltar a sonhar, sessenta anos depois, uma Inglaterra que nunca desaprendeu, em boa verdade, de jogar futebol ao mais alto nível.
E tem-no provado do outro lado do oceano Atlântico.
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